Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Mário de Andrade (1893-1945)

 


Marca d'água

Domingo

 


Missas de chegar tarde, em rendas,
e dos olhares acrobáticos…
Tantos telégrafos sem fio!
Santa Cecília regorgita de corpos lavados
e de sacrilégios picturais…
Mas Jesus Cristo nos desertos,
mas o sacerdote no Confiteor… Contrastar!
– Futilidade, civilização…

Hoje quem joga?… O Paulistano.
Para o Jardim América das rosas e dos pontapés!
Friedenreich fez gol! Corner! Que juiz!
Gostar de Bianco? Adoro. Qual Bartô…
E o meu xará maravilhoso!…
– Futilidade, civilização…

Mornamente em gasolinas… Trinta e cinco contos!
Tens dez milréis? Vamos ao corso…
E filar cigarros a quinzena inteira…
Ir ao corso é lei. Viste Marília?
E Filis? Que vestido: pele só!
Automóveis fechados… Figuras imóveis…

O bocejo do luxo… Enterro.
E também as famílias dominicais por atacado,
entre os convenientes perenemente…
–Futilidade, civilização.

Central. Drama de adultério.
A Bertini arranca os cabelos e morre.
Fugas… Tiros… Tom Mix!
Amanhã fita alemã… de beiços…
As meninas mordem os beiços pensando em fita alemã…
As romas de Petrônio…
E o leito virginal… Tudo azul e branco!
Descansar… Os anjos… Imaculado!
As meninas sonham masculinidades…
–Futilidade, civilização.


ANDRADE, Mário de. “Domingo”. In: Pauliceia desvairada. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 90-91.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)
Revisão de Thais Regina Ribeiro Neves (PIBIC/UFPA)