Domingo
Missas de chegar tarde, em rendas,
e dos olhares acrobáticos…
Tantos telégrafos sem fio!
Santa Cecília regorgita de corpos lavados
e de sacrilégios picturais…
Mas Jesus Cristo nos desertos,
mas o sacerdote no Confiteor… Contrastar!
– Futilidade, civilização…
Hoje quem joga?… O Paulistano.
Para o Jardim América das rosas e dos pontapés!
Friedenreich fez gol! Corner! Que juiz!
Gostar de Bianco? Adoro. Qual Bartô…
E o meu xará maravilhoso!…
– Futilidade, civilização…
Mornamente em gasolinas… Trinta e cinco contos!
Tens dez milréis? Vamos ao corso…
E filar cigarros a quinzena inteira…
Ir ao corso é lei. Viste Marília?
E Filis? Que vestido: pele só!
Automóveis fechados… Figuras imóveis…
O bocejo do luxo… Enterro.
E também as famílias dominicais por atacado,
entre os convenientes perenemente…
–Futilidade, civilização.
Central. Drama de adultério.
A Bertini arranca os cabelos e morre.
Fugas… Tiros… Tom Mix!
Amanhã fita alemã… de beiços…
As meninas mordem os beiços pensando em fita alemã…
As romas de Petrônio…
E o leito virginal… Tudo azul e branco!
Descansar… Os anjos… Imaculado!
As meninas sonham masculinidades…
–Futilidade, civilização.
ANDRADE, Mário de. “Domingo”. In: Pauliceia desvairada. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 90-91.