Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Henriqueta Lisboa (1901-1985)


Marca d'água

Brinquedo

 


Desde o principio foi brinquedo: amigo, amiga...
E eu te contei os meus segredos um por um.
Tu, que trazes no olhar tanta lembrança antiga,
não contaste nenhum.

Quando das crianças nos rodeou, curioso, o bando,
tu estavas sorrindo, eu estava chorando…

Para os meus olhos enxugar disseste: "Vem!
Tu, que és boneca, sobe aos ombros do gigante!
Vamos num sonho por ahi além,
ao luar, em busca de um país distante."

Voltei sozinha pela escuridão.
Quando quis regressar, nem me estendeste a mão.

Veio depois a cabra-cega. A toda a gente
para tanger teu vulto esquivo abri meus braços.
Tua voz desnorteava. E quedei, finalmente,
sem saber de onde vinha o rumor dos teus passos.

Quando de novo ao sol pude levar os olhos,
em tudo quanto punha o olhar só via escolhos.

Mais tarde então foi a ciranda: -"Sou o vento!
E's a roseira mais formosa para mim.
Si rodopiasses, que deslumbramento!"
E o dia inteiro rodopiei no meu jardim.

Quando a noite baixou, estirada na alfombra,
da roseira que eu fora, era apenas a sombra.

Queres agora por um anel no meu dedo.
Não sei si digo sim ou não... talvez...
Mas afinal é simples o brinquedo.
Quem sabe si vou ser mais feliz desta vez?!


LISBOA, Henriqueta. “Brinquedo”. In: Enternecimento (Versos). Rio de Janeiro: Empreza Graphica Editora - Paulo Pongetti & Cia, 1920, p. 29.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)