Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cantos Populares do Brasil (1883)


Marca d'água

A laranja de madura”

 


A laranja de madura
Cahiu n'agua e foi ao fundo ;
Como você quer que ihe ame,
Si você é de todo mundo?

Fui á fonte beber agua
Por baixo ele uma ramada,
Fui para vêr meus amores,
Que a sêde não era nada.

Fui ao matto caçar fructas,
Não achei sinão cajá;
Foi p'ra tirar o fastio
De minha amante yáyá.

Menina, quando te vejo
Por detraz d'eatas cadeiras,
Desejo plantar mandiocas
E assentar bolandeiras.


ROMERO, Sylvio (org.). “A laranja de madura”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 197-198.

 


Marca d'água

A B C de amores

 


Aqui te mando, benzinho,
Um A B C de amores,
Para que n'elle tu vejas
Os meus suspiros e dores.

Anda cá, meu doce bem,
Anda vêr, prenda querida,
As queixas que tu me fórmas
Nos passos da minha vida.

Bem conheço, prenda minha,
Que a vida me deixaste,
Por sentires grande falta
D'um coração que me roubaste.

Cadeias foram teus olhos,
Grilhões os teus carinhos,
Que prenderam meus affectos
Entre os mais duros espinhos.

De cada vez que te vejo,
Se me dobram as prisões;
Eu juro me teres roubado
Duzentos mil corações.

Empenhei-me a experimentar
A dureza do teu peito;
Nasci forro, sou captivo,
Sou leal e até sujeito.

Feriste meu coração
Para n'elle seres ouvido;
Ficaste sendo senhora,
Eu fiquei sendo captivo.

Gloria dos tempos passados,
Que tão depressa fugistes !
Que te faziam meus olhos,
Que vos fazem andar tristes?

He bem que chorem meus olhos
De uma dôr que os atormenta; ·
Um sensível coração
Pelos olhos arrebenta.

Ide, meus olhos, nadando
N'estas aguas que choraes;
Amor de meu coração,
Quando nos veremos mais?

Lagrimas, cahi, cahi,
Relatai a minha dôr;
Pois um triste coração
Não tem outro portador.

Mais me valia morrer
Quando em ti puz o sentido ;
Não pensei que tantas maguas
Me tivessem combatido.

Não abatas tanto, ingrata,
Um triste, affiicto queixoso;
Pois seja da minha vida
Fim, tormento rigoroso.

O rouxinol quando canta
Fórmas queixas de sentido;
Eu tambem me queixarei
Por ser mal correspondido.

Peço-te, bemzinho amado,
Que me faças um carinho,
Que vivas na esperança
Qu'inda hei-de ser teu bemzinho.

Quem vir a enchente no mar,
Não lhe cause confusão ;
Que são aguas dos meus olhos,
Fontes do meu coração.

Rebenta, minh'alma affiicta,
Que está ferido o meu peito,
Pelo muito que eu padeço,
Menina, por teu respeito.

Suspenderei os meus prantos,
Cessarei já de chorar,
Já que me coube por sorte
Querer bem e não lucrar

Tenho tão pouca ventura
Na sorte de te querer,
Que te peço por esmola
Sim me deixes padecer.

Vivo tão pensionado,
Que não sei de meus cuidados,
Si padeço ou si suspiro,
Si choro de maguado.

Xorando só de continuo
Por viver tão retirado,
Na tua ausencia, vidinha,
N'este triste, affiicto fado.

Zombem embora de meu pranto,
Pois a mim fizeste guerra,
Outro não acharás
Em todos os bens da terra.

O til por ser pequenino
Tambem goza estimação;
Estou esperando a resposta
Que venha da tua mão.


ROMERO, Sylvio (org.). “A B C de amores”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 123-126.

 


Marca d'água

A velha bizunga

 


Dom Jorge se namorava
D'uma mocinha mui bella;
Pois que apanhando servido
Ousou logo de ausentar-se
Em procura d'outra moça
Para com ella casar.
Juliana que d'isto soube,
Pegou logo a chorar,
A mãi lhe perguntou :

-De que choras, minha filha?
«É Dom Jorge, minha mãi,
Que com outra vai casar.
-Bem te disse, Juliana,
Que em homens não te fiasses;
Não era dos primeiros
Que as mulheres enganasse .

- « Deus te salve, Juliana,
No teu sobrado assentada!
«Deus te salve, rei Dom Jorge,
No teu cavallo montado.
Ouvi dizer, rei Dom Jorge,
Que estavas para casar?
-« É verdade, Juliana,
.Já te vinha desenganar.

« Esperai, rei Dom Jorge,
Deixa eu subir a sobrado;
Deixa buscar um copinho
Que tenho p'ra ti guardado.
-«Eu lhe peço, Juliana,
Que não haja falsidade ;
Olhe que somos parentes,
Prima minha da minha alma.
« Eu lhe juro por minha mãi,
Pelo Deus que nos creou,
Que rei Dom Jorge não logra
Esse seu novo amor.
- « Que me deitas, Juliana,
N'este seu copo de vinho?

Estou com as rédeas nas mãos,
Não enxergo meu rucinbo?
Ai, que é do meu paisinho,
Por elle pergunto eu?
Eu morro, é de veneno
Que Juliana me deu.
-Morra, morra o meu filhinho,
Morra contrito com Deus,
Que a morte que te fizeram
EU a quem vinga sou eu.
- «Valha-me Deus do céo,
Que estou com uma grande dôr;
A maior pena que levo
É não vêr meu novo amor.


ROMERO, Sylvio (org.). “A velha bizunga”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 38-39.

 


Marca d'água

Abalei o pé da roseira

 


Abalei o pé da roseira,
Mas não o pude arrancar;
Quem não tem bens ela fortuna
Glorias não pode alcançar.
Só a ti posso affirmar
Que outro amor não heide ter,
Si acaso eu não morrer,
Si a fortuna me ajudar.

Fui á fonte beber agua,
Tive medo de um sardão; 1
bebi agua ele teu rosto,
Sangue de meu coração.

Fui ao pote beber agua,
Topei agua de sobejo ;
Só cuido que e. tou com vida,
Bemzinbo, quando te vejo.

Eu te amo, minha beleza,
No que posso obedecer ;
Si não for feliz comtigo,
Vida mais não quero ter.
O campo verde si alegra
Quando vê o sol nascer ;
Tambem se alegra meus olhos

Quando chegam a te vêr.
Si eu soubera que tu vinhas,
Que alegrias não teria!
Mandava barrer a estrada
Com rosas de Alexandria.
Jura o sol e jura a lua,
Juram estrellas tambem,
Juram mais tres testemunhas
Como eu te quero bem.


ROMERO, Sylvio (org.). “Abalei o pé da roseira”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 223-224.

 


Marca d'água

Atirei um limão verde

 


Atirei um limão verde
Lá na torre de Belem;
Deu no ouro, deu na prata,
Deu no peito de meu bem.

Atirei um limão verde
Na mocinha da janella;
Ella me chamou doidinho,
Doidinho ando eu por ella.


ROMERO, Sylvio (org.). “Versos de chiba”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 172-173.

 


Marca d'água

Mulher, cabeça de vento

 


Mulher, cabeça de vento,
Juizo mal governado,
Dizei-me o que significa
Amor de homem casado ?

Quem ama a homem casado
Tem paciencia de Job;
Faz cama, desmancha cama,
Sempre vem a dormir só.


ROMERO, Sylvio (org.). “Mulher, cabeça de vento”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 243.

 


Marca d'água

Não ha papel n’esta villa

 


Não ha papel n'esta villa,
.Nem tinta n'este convento;
Não ha este passaro de penna
Que escreva tal sentimento.

Sentimentos tenho tido .
De um amor que anda longe;
P'ra não dar ouvido ao mundo,
Fiz o coração de bronze.

Você se vai e me deixa
N'esta solidão tão triste,
Pouco tem de amante firme
Quem se vai e não me assiste.

Si eu me vou e não lhe assisto
É por outro remedio não ter;
Não padeça seu coração,
Deixe o meu só padecer.

O papel que escrevi
Tirei das palma da mão ;
A tinta tirei dos olhos,
A penna do coração.


ROMERO, Sylvio (org.). “Não ha papel n’esta villa”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 230.

 


Marca d'água

O bernal francez

 


«Quem bate na minha porta,
Quem bate, quem está ali?
-É Dom Bernaldo Francez
A sua porta mande abrir.

No descer da minha cama
Me cahiu o meu chapim ;
No abril da minha porta
Apagou·se o meu candil.
Eu levei-lhe pelas mãos,
Levei-o no meu jardim;
Me puz a lavar a elle
Com agua de alecrim ; .
E eu como mais formosa
Na agua de Alexandria.
Eu lhe truxe pelas mãos,
Levei-o na minha cama.
Meia noite estava dando.
Era Dom Bernaldo Francez ;
Nem sonava, nem movia,
Nem se virava p'ra mim.

«O que tendes, Dom Bernaldo,
O que tendes, que imaginas ?
Si temes de meus irmãos,
Elles estão longe de ti;
Si temes de minha mãi,
Ella não faz mal a ti ;
Si temes de meu marido,
Elle está na guerra civil.

-Não temo dos teus irmãos,
Qu'elles meus cunhados são;
Não temo de tua mãi,
Qu'ella minha sogra é;
Não temo de teu marido,
Qu'elle está a par comtigo.
«Matai-me, marido, matai-me,
Qu’eu a morte mereci;
Si tu eras meu marido
Não me dava a conhecer.
- Amanhã de p’ra manhã
Eu te darei que vestir;
Te darei saia de ganga,
Sapato de berbatim;
Trago-te punhal de ouro
Para te tirar a vida…

O túmulo que a levava
Era de ouro e marfim;
As tochas que acompanhavam
Eram cento e onze mil,
Não fallando de outras tantas
Que ficou atraz p’ra vir.
«Aonde vai, cavalleiro,
Tão apressado no andar?
- Eu vou vêr a minha dama
Que já ha dias não a vejo.
«Volta, volta, cavalleiro,
Que a tua dama já é morta,
É bem morta que eu bem vi,
Si não quereis acreditar
Vai na capella de São Gil.
- Abre-te, terra sagrada,
Quero me lançar em ti.
« Pára, pára, Dom Bernaldo,
Por mode ti já morri»
-Mas eu quero ser frade
Da capella de São Gil;
As missas que eu disser
Todas serão para ti
« Não quero missas, Bernaldo,
Que sãó fogo para mim :
Nas filhas que vós tiver
Botai nome como a mim ;
Nos filhos que vós tiver
Botai nome como a ti.


ROMERO, Sylvio (org.) “O bernal francez”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 5-7.

 


Marca d'água

Quadras de chiba

 


Fui no matto tirar côco,
firei côco de yodayá .
Para quebrar no dentinho
De minha amante yayá.

Não quero ser conde d'Arcos,
Nem tenente-general;
Só quero me vêr nos braços,
De minha amante yayá.

Seja muito bem chegada
A senhora archiduqueza;
Inda o céo me deixou vivo
P'ra gozar d'esta belleza.

Novos ares, novos climas
Bem longe vou respirar;
'Lá mesmo serei ditoso,
Si meu bem nunca mudar.

Esta noite, meia noite
Vi cantar um gavião,
Parecia que dizia:
- Vinde cá, meu coração.

Oh! que moça tão bonita,
Que parece meu amor,
Com seu corpinho de penna,
Seu ramilhete te flôr.

Canna verde, canoa secca,
Canna do cannavial,
Tenho pena de te vêr
Pena de não te gozar.

Maria, minha Maria,
Minha flôr de melancia,
Um suspiro que eu te dou
Té sustenta todo o dia.

Já lá vem amanhecendo,
As folhas tremem com o vento ;
Meu amor que já não vem
É que está fechado dentro.

Minha Maria, o tempo corre
Perguntando á natureza,
A nossa paixão gozemos,
Que o tempo murcha a belleza.

Quem possue um bem que adora
Não tem mais que desejar;
Si elle cumpre o juramento,
Não tem mais que suspirar.

Aprendei a temperar
Que o tocar não tem sciencia;
A sciencia do amor
É fazer a diligencia.


ROMERO, Sylvio (org.). “Quadras de chiba”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 182-184.

 


Marca d'água

Variante do Rio Grande

 


- Meu bemzinho, diga, diga,
Por tua boca confessa
Si algum dia tu tiveste
Amor que mais eu quizesse .
Mas confesso que não tive
Quem mais trabalho me desse.
«Si mais trabalho lhe dei,
Por tua mão procuraste,
Que de casa de meus paes
Bem raivosa me tiraste.
Si raivosa te tirei,
Por me vêr perseguido,
Quantas e quantas vezes
Bem me tenho arrependido !
- ·Porque te arrependes, ingrata,
Tendo eu um genio doce?
Prouvéra que eu fosse amoroso,
Não andavas tão desgostosa.
Que desgostosa vossé vive,
Vivendo d'esta sorte;
Te prometto lealdade,
Lealdade até á morte.
« Pois eu sinto e sentirei,
Sinto mil ingratidões ;
Sinto ser uma dôna
E roubada dos ladrões.
Eu dos ladrões nunca fui,
E de juro de não ser,
Emquanto viver sujeita
Debaixo de seu poder.
- Debaixo de meu poder
Foi que tiveste valia;
Que sahindo para fóra
Acabaes a fidalguia.
«Fidalguia sempre tive,
Que d'isto me hei de gabar,
Que com gente d'outra esphera
Não me hei-de misturar.
-Misturar hei-de por força,
Que isto vem de geração;
Que as meninas d’estes tempos
Não se dão à estimação.
«Estimação não se dão
Aquellas que são pobres ;
Que uma rica como eu
Só procura gente nobre.
-Gente nobre hei de por força,
Que isto vem por festejar ;
Que o peor é dar-lhe um couce,
E o melhor vem a ficar.
Já sei que queres dizer .. .
Queres dominar o meu corpo,
Isto me daes a entender.


ROMERO, Sylvio (org.). “Variante do Rio Grande”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.130-131.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)