Raimundo Correa (1859-1911)
Despedidas
LÚCIA teve um desmaio no momento
Em que Amphryso partiu; a loira Alice,
De Antenor despedindo-se, lhe disse:
Vai que contigo vai meu pensamento!
Fez Julia a Arthur um grave juramento;
E Amélia, num acesso de doidice.
Protestou que, se a Alfredo não mais visse,
Não na veriam mais, que num convento!
Tu não! Nem desse olhar o azul celeste
Desmaiou; nem de frases prévio estudo,
Como as outras fizeram, tu fizeste;
Quando eu parti, teu lábio esteve mudo;
Tu, formosa Leonor, nada disseste,
Mas, sem nada dizer, disseste tudo!
CORREIA, Raimundo. “Despedidas”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 115.
A uma cantora
CANTAVAS. Sobre mim, flecha ligeira
Passou zumbindo no ar... Amor, que estava
Junto a ti, contra uma alma dele escrava,
Despedira-a com mão pouco certeira.
Mas vendo assim baldada essa primeira
Frecha, outra arranca da luzente aliava;
Vibra-a; e esta, enfim, aguda se me crava
N'alma... Arranca depois uma terceira...
E eu clamo: Estou ferido! Estou ferido;
Suspende, Amor! O Amor não nos faz brecha
Só pelos olhos, minha doce amada;
Pelos olhos não foi; foi pelo ouvido,
Foi pelo ouvido, que me entrou a frecha:
Sinto inda n'ele a dor d'essa frechada.
CORREIA, Raimundo. “A uma cantora”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 56.
Beijo Póstumo
Do meu primeiro amor, eis-lo, o templo em ruína!
No estômago da morte, atro e voraginoso,
Essa carne ideal, deliciosa e fina,
Caiu como um manjar fino e delicioso!
E antes que tudo venha a supurar em flores.
Sob o pudor da morte os membros seus inermes
Têm de ser fatalmente o pabulo dos vermes
Frios e roedores…
E o beijo que pedi e ela jamais me deu.
Que em vida quis colher e nunca foi colhido,
Cai do seu lábio como um fruto apodrecido...
O beijo virginal! fruto que apodreceu!
CORREIA, Raimundo. “Beijo Póstumo”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 179.
Beijos do céu
Sonhei-te assim, ó minha amante, um dia:
— Vi-te no céu; e, enamoradamente,
De beijos, a falange resplendente
Dos serafins, teu corpo inteiro ungia…
Santos e anjos beijavam-te... Eu bem via!
Beijavam todos o teu lábio ardente;
E, beijando-te, o próprio Omnipotente,
O próprio Deus nos braços te cingia!
Nisto, o Ciúme—fera, que eu não domo—
Despertou-me do sonho, repentino...
Vi-te a dormir tão plácida a meu lado;
E beijei-te lambem, beijei-te... e, ai! como
Achei doce o teu lábio purpurino,
Tantas vezes assim no céu beijado!
CORREIA, Raimundo. “Beijos do céu”. In: Aleluias. Rio de Janeiro; Companhia Editora Fluminense, 1891, p. 125.
Clotilde
CLOTILDE, por um dos sonhos
Que embalam teu coração,
Que berços d' harpas, Clotilde,
Te embalarão!
Clotilde, por um só lírio
Dessa florente sazão,
Que mãos de fada, Clotilde,
Te enfeitarão!
Clotilde, apenas em câmbio
De um beijo infantil e são,
Que bocas d'anjos, Clotilde,
Te beijarão!
Clotilde, empresta uma nota
A meu plectro humilde, e, então,
Que lindos cantos, Clotilde,
Te encantarão!
CORREIA, Raimundo. “Clotilde”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 143.
De certo, eu poderia
DE certo, eu poderia
A essa mortal, paixão
E atroz melancolia
Sobrepor um nariz de papelão;
E, rindo e cachinando,
— Excêntrico jogral—
Acompanhar o bando
De mascarados d'este carnaval;
E as jovens damas belas
Seguindo, em sanha alvar,
O gordo braço d'ellas
Escandalosamente beliscar;
Ás multidões, nas ruas,
Declamar com vigor,
E com chacotas nuas
A gente séria atarantada pôr;
Pôr o mal, que se embebe
Nos próceres, ao sol,
Oferecendo à plebe,
Com acrimônia; uns frascos de fenol;
Provocar a quem passa,
Só p’ra me divertir,
E aos logistas, por graça,
Tabuletas trocar, vidros partir;
Sem medo, a honestidade
Afrontar; e em tropel
Pôr tudo, na cidade,
levantando uma torre de Babel;
E, sem ousar tocar-me,
Indifferente e até
Timorato, um gendarme
Em cada esquina ver, quedo e de pé;
(Porque a polícia austera
Não se atreve a fazer
O que talvez fizera,
Se eu fosse um fraco e inofensivo ser.)
Da burguesia os risos
Incitar sobre mim,
Ao tilintar dos guizos
Presos ás minhas roupas de Arlequim;
Ser como um ébrio, um louco,
Um clown.. Sinto, porém,
Que o meu soluço rouco,
Por entre as chuvas, se distingue bem.
Minhas lágrimas rolam;
E as lágrimas, mulher,
O papelão descolam
Da máscara risonha, que eu trouxe.
Agosto, 84.
CORREIA, Raimundo. “De certo, eu poderia”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 151.
Eviterno Amor
ESSA história do amor, que a uma só vida
Bilhões extrai, prolífico e fogoso,
Essa — o gênero humano desditoso! —
Enche o tempo, enche o espaço, indefinida...
Adão, o arrependido, e a arrependida
Eva, ei-los avexados, ante o iroso.
Bíblico Deus, severo e rigoroso.
De quem toda essa história é já sabida.
E ele, que em beijos e ais no Éden surpreende
O ágil mancebo e a adolescente linda,
Sobre ambos vingadora a dextra estende.
Arrependem-se? Embora! O amor não finda,
Pois o par amoroso se arrepende
De ter amado, mas... amando ainda!
CORREIA, Raimundo. “Eviterno Amor”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 21.
Ixion
A deusa amante e desejada é ela!
Todo o amor em meu seio arfa e redunda,
Abraço-a — e verga ao braço que a circunda;
Beijo-a — e, corando, ainda se faz mais bela.
Abraço a Juno ou, louco, abraço aquella
Nuvem de ouro illusoria e vagabunda?!
Minha ventura, ó céus, é tão profunda,
Tão larga e tanta, que eu duvido dela!
Que lindos olhos! Que venusto e lindo
Gesto... Beijo-a de véras, ou suponho
Beijal-a só, num sonho doce e infindo?...
Não! Durmo; o despertar vai ser medonho!
Durmo; e sonho de certo, assim dormindo!
Quem me assegura que eu não sonho? Eu sonho
CORREIA, Raimundo. “Ixion”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 60.
Julieta
A loura Julieta enamorada,
Triste, lânguida, pálida, abatida,
Aparece radiante na sacada
Dos raios brancos do luar ferida.
Engolfa o olhar na sombra condensada.
Perscruta, busca em torno... e na avenida
Surge Romeu; da valerosa espada
Esplende a clara lâmina polida…
Sente-se o arfar de sôfregos desejos,
Estoura no ar um turbilhão de beijos,
Mas o dia reponta!... O ’ indiscreta
Da cotovia matinal garganta!
O perigo do amor, que o amor quebranta!
O ’ noites de Verona! O ’ Julieta!
CORREIA, Raimundo. “Julieta”. In: Symphonias. Rio de Janeiro; Typ. de Fernandes, Ribeiro & C., 1883, p. 109.
Primeiras Vigílias
Dos revoltos lençois sobre o deserto
Despejava-se, em ondas silenciosas,
O luar dessas noites vaporosas,
De seu lânguido calix todo aberto.
Rangia a cama, e desusavam perto
Alvas, femineas formas ondulosas;
E eu a ideal, nas ancias amorosas,
Seus ombros nús, seu colo descoberto.
E a gemer :—Abeirai-vos de meu leito,
O' sensuais visões da adolescência,
E abrasai-vos na pira em que me inflamo!
Fervem paixões despertas no meu peito;
Descai a flor virginia da innocencia,
E irrompe o fruto dolorido... Eu amo!
CORREIA, Raimundo. “Primeiras Vigílias”. In: Aleluias. Rio de Janeiro; Companhia Editora Fluminense, 1891, p. 165.
Psyche
CÉU lábio, a tua sede e intenso ardor,
Como a frescura de uma fonte, acalma;
Venceste-a, amante; e a porfiosa palma
Colheste, em beijos, no seu lábio em flor.
Deu-te noites ideais, sob o esplendor
De um céu de núpcias — tenda azul, tão calma,
Tão límpida, tão pura!... E deu-te (O alma,
Que mais desejas?!) todo o seu amor!
Ele, o amor, na progênie perpétua
Essa, em que te incendeias, sacra flamma,
— Bafo imortal dos deuses imortais.
E essa imortalidade é tua, é tua!...
E essa imortalidade, ele a proclama
Em ti! O alma, que desejas mais?!
CORREIA, Raimundo. “Psyche”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 204.
Vana
BAIXA a mim, alma angélica e impoluta!
Traze a meu ermo o sol da primavera,
A água que o lábio secco refrigera,
A urna de aroma é orvalho, e a flor e a fruta...
Troca a cerúlea, constelada esphera.
Pela, em que habito, solitária gruta!
Tomba em meu seio! Ei-lo a bater... Escuta
O coração ansioso, que te espera!
Vem, mas tal qual, em seu delírio insano,
A alma te sonha, te deseja e sente;
Mulher, não: ser divino e sobrehumano!
Porém, se acaso assim não és, detém-te!
Não venhas! Deixa-a nesse doce engano!
Deixa-a a esperar-te em vão, eternamente!
CORREIA, Raimundo. “Vana” In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 209.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)