Raul Bopp (1898-1984)
Pelas ondas
Olha este barco como vai sereno,
Levando nele os ledos namorados,
Voluptos irrequietos e abraçados
E tanto amor num bote tão pequeno!
Fôssemos nós ali, com barco pleno
Às ondas solto, muito descuidados...
Meus dedos pelos teus bem apertados,
Solto de renda o braço teu, moreno…
O teu cabelo, assim, lá bem revolto...
E o barco iria a todo pano solto
Sulcar ondas aos cálidos harpejos!
Tímida, os olhos para o espaço erguidos!
Mas depois... em desejos incontidos
Nós nos embriagaríamos de beijos...
Guaíra, 11 de abril de 1916
BOPP, Raul. “Pelas ondas”. In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 64.
Mangoré
Junto ao forte de Corpus Christi, onde mais tarde surgiria a cidade de Santa Fé, estabeleceu-se o primeiro núcleo de colonização europeia, chefiado por Don Nuno Orestes de Lara, da Expedição Caboto. O cacique Mangoré, da tribo Timbu, sente a alma selvagem presa de amor pela formosa dama, Dona Lúcia Furtado. Sua fina graça de andaluza foi a causa da luta que resultou no trágico fim do primeiro reduto do Prata.
Triste, o índio Timbu sofre um mal que o domina:
Viu com olhos de amor Dona Lúcia Furtado.
Ele, o conquistador, desta vez conquistado
pela pompa boreal de uma mulher latina.
Ferido com o olhar, freme em ânsia tigrina.
Mangoré nunca amou, e agora ao tê-la amado,
arfa, deseja e a quer, mas quer tê-la a seu lado,
custe a luta no pampa, o ódio, a carnificina!
Guerra! Don Nuno Oreste e os seus de lança em riste,
defendem Dona Lúcia e a tribo vai tombando.
Fica o reduto em ruína e em chama o Corpus Christi.
Dama de alto valor, quantos males fizestes!
Por vossa raça, aqui, ainda hoje andam lutando
tribos Mangorés, heróis como Nuno Orestes!
BOPP, Raul. “Mangoré”. In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 85.
Missa de São Bento
Domingo. Manhã, São Paulo
é como uma flor de verão.
Calor (Que barbaridade!).
Vou passear pela cidade
metido num “Camarão”.
Deve estar na hora da missa.
Neste caso eu também vou.
Mas, com desapontamento,
chego no largo São Bento
depois que a missa acabou.
Vejo duzentas pequenas.
Corro os olhos em redor
mas — devoção esquisita —
missa de moça bonita
fora da igreja é melhor.
Derramam-se sol e seda
de um estonteante esplendor.
E cruzam grupos alegres
de magras e fausses-maigres
se queixando do calor.
Passam bandos de meninas
sob o fulgor da manhã.
Umas, tão frágeis e finas
me recordam qualquer coisa
das baladas de Rostand.
A turca — minha princesa —
vai pra casa num Packard.
Reza o Alcorão com certeza
(Tenho paixão pelas turcas:
trazem Bósforos no olhar).
Uma que vinha ao seu lado,
criatura transcendental,
é um tipinho delicado.
O seu sorriso parece
com uma aurora boreal.
Com frufruguices de seda
passa indiferentemente.
É a condessinha da graça.
Ai! Meu Deus. Quando ela passa,
machuca os olhos da gente.
Vem outra magra e dorida,
em direção do Viaduto.
Toda de preto vestida,
como um poema fechado
num envelope de luto.
Carrega reminiscências
dos seus primeiros pecados.
Seus olhos, cheios de ausências,
são negros como se fossem
dois infernos apagados.
Vai tudo embora. Que pena!
Eu também vou. Vou, porque
vem vindo a minha morena,
flor da avenida Paulista —
passa e faz que não me vê.
Leve e frágil flor do sonho,
cabelinho de São João.
Rimo-lhe uns traços dispersos,
para pisar sobre versos
em vez de pisar no chão.
E, quando chegar em casa,
sem se lembrar quem eu sou,
encontrará nos sapatos
o vestígio destas rimas
e os versos que ela pisou.
BOPP, Raul. “Missa de São Bento”. In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 95.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)