Cora Coralina (1889-1965)
Todas as vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
CORALINA, CORA. “Todas as vidas”. In: Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São Paulo: Global editora, 2012, 1 ed digital, p. .;
Meu pequeno oratório
Minha Nossa Senhora das Graças
toda minha.
Das raízes e dos troncos.
Das florestas e das frondes.
Dos rios que correm para o mar
e dos corguinhos sem destino.
Dos altares, dos montes e das grunas.
Dos pássaros sem voo,
e das rolinhas bandoleiras.
Nossa Senhora das cigarras imprevidentes
que morrem de cantar
e das formigas previdentes
que morrem sem cantar.
Das abelhas rufionas
que vão de flor em flor
segredando de amor
e acasalando os polens.
Das cobras e dos tigres
que também têm direito à vida.
Nossa Senhora
dos maus e dos bons.
Profundamente minha
porque de todos os anônimos
bichos e gentes.
Nossa Senhora
da custódia das sementes,
lançadas ao léu da vida
germinando, crescendo, florescentes
ou morrendo perdidas na raleira.
Nossa Senhora das sementes...
Ajudai todas elas – boas e más
a bem cumprir seu destino
de sementes,
lançando do seu pequenino
coração vital
o esporo à raiz fálica
que as confirmarão na terra
e na sequência das gerações
através do tempo.
Nossa Senhora das raízes…
Eu sou a raiz ancestral,
perdida e desfigurada no tempo
obscura na terra
onde lutam, sobrevivem
e desaparecem todas
no esquecimento e no abandono.
Vigia para mim
e guarda em vida longa
todas as raízes novas
que vivem enleadas
às minhas
já gastas e amortecidas.
Abençoai, minha Nossa Senhora,
todos aqueles que se foram e que se desfizeram
na obscuridade e no esquecimento
da árvore ingrata que os alimentou.
CORALINA, CORA. “Meu pequeno oratório”. In: Meu livro de cordel. São Paulo: Global editora, 2012, 1 ed digital, p. 32.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)