Ancila Negra
Há ainda muita coisa a recalcar,
Celidônia, ó linda muleca ioruba
que embalou minha rede,
me acompanhou para a escola,
me contou histórias de bichos
quando eu era pequeno,
muito pequeno mesmo.
Há muita coisa ainda a recalcar :
As tuas mãos negras me alisando,
os teus lábios roxos me bubuiando,
quando eu era pequeno,
muito pequeno mesmo.
Há muita coisa ainda a recalcar
ó linda mucama negra,
carne perdida,
noite estancada,
rosa trigueira,
maga primeira.
Há muita coisa a recalcar e esquecer :
o dia em que te afogaste, . . .
sem me avisar que ias morrer,
negra fugida na morte,
contadeira de histórias do teu reino,
anjo negro degredado para sempre,
Celidonia, Celidonia, Celidonia !
Depois: nunca mais os signos do regresso.
Para sempre: tudo ficou como um sino ressoando.
E eu parado em pequeno,
mandigando e dormindo,
muito dormindo mesmo.
LIMA, Jorge de. “Ancila Negra”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 241.