Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)
Lua Nova
Pobre lua nova tão pequena,
Pelo infinito do céu perdida,
Tão magoada, tão cheia de pena,
Da cor de uma menina sem vida…
Pobre lua nova, quem te pôs
Tão nua assim num salão tamanho,
Com o corpo cheio de pó de arroz,
Como um anjo que saiu do banho?
Que mãe sem alma (se faz tal frio!)
Te deixou nua num céu como este?
Caíram todos na água do rio
Os vestidos de luar que perdeste…
Vela-te, pois, e vai-te esconder
Atrás das nuvens, ó lua nova.
Se estás tão branca, se vais morrer,
Dentro das nuvens tens uma cova.
Cova de arminho, cova de neve,
Berço onde o olhar do bom Deus flutua...
Como o teu corpo, que é assim tão leve,
Vai ficar bem, pequenina lua!
Logo depois ressuscitarás:
Serás então já mulher completa,
De seios brancos de amor e paz,
Deusa da noite, visão do asceta.
E serão de neve os teus noivados,
Terás grinaldas brancas de areia...
Menina lua, dias passados,
Serás a senhora lua cheia.
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Lua Nova”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 41.
Visão das noites brancas
Quando ao luar noctívago desmaias,
Ó lírio albente, ó pálida açucena,
Todas as forças da ilusão terrena
Vêm amparar-te para que não caias.
Os olhos pela solidão espraias,
Ungidos no pesar da lua amena.
E há neles a canção, cheia de pena,
Que berça o mar e geme pelas praias.
O teu vulto de angélico duende
Se espiraliza em luz e se distende
No alvor que ninguém vê a não ser eu…
E entre o silêncio e a paz das minhas preces,
Diante do meu olhar desapareces,
Como o sonho de alguém que já morreu...
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Visão das noites brancas”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 126.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)