Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Manoel Joaquim Ribeiro (17?-18?)


Marca d'água

SEM TÍTULO

 


Junto de um freixo copado
Com minha Jonia adorada,
Sôbre a relva matizada
Doces horas vou passar.
Quem disfructa, o que eu disfructo,
Não tem mais a que aspirar.

Não vem ali bravas feras
Dessas alpe tres montanhas,
Só tu, amor, acompanhas
Nosso gôsto singular.
Quem disfructa, o que eu disfructo,
Não tem mais a que aspirar.

Naquele sítio, sómente
Aos prazeres consagrado,
Não entra inhumano fado,
Nem desgôsto chega a entrar.
Quem disfructa, o que eu disfructo,
Não tem mais a que aspirar.

Ali, de um manso regato,
Se escuta o sussurro brando,
Como quem vai murmurando
Do que nos vê praticar.
Quem disfructa, o que eu disfructo.
Não tem mais a que aspirar.

Cantam ternos passarinhos
Nos altos ramos pau ados,
E com suave trinados
Vem nos o gôsto argumentar.
Quem disfructa, o que eu disfructo,
Não tem mais a que aspirar.

Quando pego n'alva mão
Onde a brancura admira,
Só o favonio respira
Naquele ameno logar.
Quem disfructa, o que eu disfructo,
Não tem mais a que aspirar.

As rosas em tôrno nascem
Da minha Jonia formosa;
Quando me deixa amorosa
os seus braços recostar.
Quem disfructa, o que eu disfructo,
Não tem mais a que aspirar.

Suas lindas, alvas faces,
S'eu lhe expresso algum desejo,
Logo cobertas de pejo
Mostram a côr de nacár.
Quem disfructa, o que eu disfructo,
Não tem mais a que aspirar.

Bando de gentís amores,
as brancas azas suspensos,
Os nossos gostos intensos
Vem alegres contemplar.
Quem disfructa, o que eu disfructo,
Não tem mais a que aspirar.

Permita amor que esta dita,
Qu'eu góso e mais Jonia bella,
Assim em mim, como nelJa,
Nunca se chegue a acabar.
Quando estou com 'minha amada,
Mais não tenho a que aspirar.


RIBEIRO, Manoel Joaquim.”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 260-261.

 


Marca d'água

SEM TÍTULO

 


Canta o pastor namorado
Da pastora os olhos bellos,
Canta-lhe o rosto nevado,
Os longos, pretos cabellos
Onde amor anda enredado.

Sobre a borda do saveiro,
Canta o terno pescador
Os grilhões do captiveiro,
Bem dizendo o deus d'amor
Por se ver prisioneiro.

Sua linda, ao som da Lyra,
Canta o soldado na guerra
Ora geme, ora suspira,
Nunca lhe esquecendo a terra,
E a última vez que a víra.

Eu também dentro em mim sinto
Igual férvida paixão;
Dos mais eu não sou distincto;
Do meu bem a perfeição

Mil vezes na idéa pinto.
Amor a tudo avassala,
Ninguém delle vive isento:
Alguém há que sofre e cala
Porém o seu fogo lento
Tudo mina, a tudo iguala.

Ao rei no throno sentado,
No inculto monte ao serrano,
A todos fere o vendado:
Ninguém se isenta do damno,
Que faz o farpão doirado.


RIBEIRO, Manoel Joaquim.”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 262-264.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)