Manuel Ignácio da Silva Alvarenga (1749-1814)
Glaura dormindo
Voai, zefiros mimosos,
Vagarosos com cautela
Glaura bella está dormindo
Quanto é lindo o meu amor!
Mais me elevam sobre o feno
Suas faces encarnadas,
Do que as rosas orvalhadas
Ao pequeno beija-flor.
O descanso, a paz contente
Só respiram n' estes montes:
Sombras, penhas, troncos, fontes,
Tudo sente um puro ardor.
Voai, zefiros mimosos,
Vagarosos com cautela·
Glama bella está dormindo
Quanto é lindo o meu amor!
O silêncio, que nem ousa
Bocejar e só me escuta,
Mal se move n'esta gruta,
E repousa sem rumor.
Leve somno, por piedade,
Ah derrama em tuas flores
O pesar, a mágoa, as dôres,
E as saudades do pastor!
Voai, zefiros mimosos,
Vagarosos com cautela
Glaura bella está dormindo
Quanto é lindo o meu amor!
Se nos mares aparece
Venus terna e melindrosa,
Glaura, Glaura mais formosa
Lhe escurece o seu valor.
No vestino azul e nobre
É sem oiro e sem diamante,
Qual a filha de Thaumante,
Que se cobre de esplendor.
Voai, zefiros mimosos,
Vagarosos com cautela
Glaura bella está dormindo
Quanto é lindo o meu amor!
É suave o seu agrado
A meus olhos nunca enxutos,
Como são os doces frutos
Ao cançado lavrador.
Mas bem longe da ventura
As mudanças vivo afeito,
Encontrando no teu peito
Já brandura e já rigor!
Voai, zefiros mimosos
Vagarosos com cautela
Glaura bella está dormindo
Quanto é lindo o meu amor!
ALVARENGA, Manoel Ignacio da Silva. “Glaura dormindo”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 159-160.
O retrato
Tem, ó Glaura, o teu retrato
Peito ingrato e lindo rosto,
Que por gosto amor espera
Em Cythéra eternizar.
Só adorna os teus cabellos
Verde fita, em que os enlaças
E o jasmim, que as puras graças
Com desvelos vão buscar.
Na alva testa entre a alegria,
E a feliz serenidade,
Não diviso a crueldade,
Que porfia em maltratar.
Tem, ó Glaura, o teu retrato
Peito ingrato e lindo rosto,
Que por gosto amor espera
Em Cythéra eternizar.
Os teus olhos, Ah! não pinto...
Os teus olhos tudo rendem,
Da ternura o fogo Acendem
E me sinto desmaiar
Tua face delicada
É mais bella do que a rosa,
Quando, a púrpura mimosa
Orvalhada expõe ao ar
Tem, ó Glaura, o teu retrato
Peito ingrato e rindo rosto,
Que por gosto amor espera
Em Cythéra eternizar.
Doce o riso não encobre
Mil agrados innocentes
Mostra as pérolas luzentes
Que descobre o respirar.
Não se apartam, do teu seio
Dois amores pequeninos
Tão crueis e tão ferinos,
Que receio de os pintar.
Tem, ó Glaura o teu retrato.
Peito ingrato e lindo rosto,
Que por gosto amor espera.
Em Cythera eternizar.
Tristes e ásperos rigores
Na tua alma se esconderam,
E implacáveis prometem.
Minhas dôres aumentar.
Tudo o mais é formosura,
São belezas que não vejo;
E nem póde o meu desejo
Na pintura debuxar.
Tem ó Glaura, o teu retrato
Peito ingrato e linda rosto,
Que por gosto amor espera
Em Cythera eternizar.
ALVARENGA, Manoel Ignacio da Silva. “O retrato”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 157-159.
O templo de neptuno
Adeus Termindo, adeus augustos lares
Da formosa Lisboa; o leve pinho
Já solta a branca véla aos frescos ares.
Amor, o puro amor do pátrio minho,
Há muito que me acêna, e roga ao fado
Que eu sulque o campo azul do deus marinho.
Eis a náu que já d'um, já d'outro lado
Se deita e se levanta j foge a terra,
E me foges também, Termindo amado.
Da alegre Cintra a. desejada serra
Mal aparece, e o vale, que ditoso
De Lilia e Jonia a voz e a lyra encerra.
Ainda me parece que saudoso
Te vejo estar da praia derradeira,
Cançando a vista pelo mar undoso.
Já não distingues a real bandeira
Despregada da popa, que voando
Deixa no mar inquieto larga esteira.
Sei que te hão de assustar de quando em quando
O vento, os varias climas, e o perigo
De quem tão longos mares vai cortando.
O lenho voador leva comsigo,
E te arranca dos braços n'um só dia
O suspirado irmão e o caro amigo.
Rijo norte nas cordas assobia,
Quatro vezes do solos raios puros
Voltaram e só mar e céo se via:
Quando a esteril Selvage os verde-escuros
Hombros ergueu do sal, que se quebrava
Nas nuas pontas dos rochedos duros.
Eu vi Tritão mancebo, que animava
O retorcido buzio, e diligente
De todo o mar a corte se ajuntava.
Bate as azas um gênio, e vêm contente,
N'uma mão a coroa, n'outra a taça,
Deu-me do nectar, e cingio-me a frente.
Termindo, pois de Febo a mão escassa
Nega seus dons aos rudes e aos profanos,
Guarda meus versos dessa tosca raça.
Embora os leiam peitos sobrehumanos,
Que no cume do monte bipartido
Viram das santas mu as os arcanos.
Entrei no templo de cristal polido,
Do grão-Neptuno amplíssima morada,
E o vi n'um throno de safira erguido.
Defronte está de nymphas rodeada
A branca Thetis, as enormes phocas,
E os amantes delfins guardam a entrada.
Os grandes rios, que por largas bocas
Entram no vasto mar com fama e glória,
Co' as urnas vêm desde as nativas rocas.
Vejo a paz, a fortuna e a victoria,
O deus da Arcadia, o inventor da Lyra,
Venus, Amor e as filhas da memória.
Príncipe amado, por ti suave gira
Nas cordas d' oiro o delicado plectro
Apolo o move, e Clio assim respira,
Em alto nupcial, festivo metro:
« Do lúcido Titan a bela esposa,
De côr de rosa o aureo coche adorna;
E alegre torna a nos mostrar seu rosto,
Cheio de gloria, de prazer, de gosto.
« As brancas azas sobre o novo leito
Aos céos aceito o casto amor estende,
A pyra accende, e inda estreitar procura
O mais ditoso laço a fé mais pura.
« Concordia, tu que tens de amor a chave,
Prisão suave tu lhe tens tecida,
De quantos Ida em margens deleitosas
Cria intactos jasmins, e frescas rosa,
« Persico ornato a fertil copia ajunta;
E de Amatunta a deusa delicada
Vem rodeada dos Cupidos bellos,
Uns voam, outros lhe pendem dos cabelos.
« Casta Lucina, o teu formoso a pecto
Com doce affecto inclina, e nos dê prova
A prole nova que é de amor tributo,
E seja de taes ramos digno fruto;
« Se fundaram por séculos inteiros,
A vós guerreiros, de Lisboa os muros,
Netos futuros entre glória immensa
Nascei, é vossa a justa recompensa.
« Cercam o throno a candida verdade,
E em tenra idade a rara fé nobreza,
Graça, beleza, e quanto o céo fecundo
Por honra da virtude envia ao mundo.
« O jubilo nos povos se derrama,
Alegre a fama vai de agoiros cheia,
E a nuvem feia que a tristeza envolve,
Espalha o vento, e em átomos dissolve.
« Do grande avô o espirita disperso
Pelo universo vôa, aos seus vindouros
Prepara os loiros vejo a murta, e as palmas,
Dignas coroas de tão grandes almas.
« Possa da augusta filha o forte braço
Por longo espaço sustentar o escudo,
Que ampara tudo o que seu reino encerra,
E encher de astros o céo, de heroes a terra. »
Cantou a musa, e sobre todos chove
Celeste ambrosia; alado mensageiro
Leva as notícias ao supremo Jove.
Ouviu então do mar o reino inteiro
A fatídica voz e o nobre 'canto
De Proteo, que os futuro viu primeiro.
Cantava como ainda... mas o espanto
Dos olhos me roubou tudo o que eu via,
Que os tímidos mortaes não podem tanto
Cheia de limo e de ostras, dividia
A já cansada proa os mares grossos,
Até que amanheceu o novo dia.
Se emfim respiro os puros climas nossos
No teu seio fecundo, ó pátria amada,
Em paz descanse os meus frios ossos.
Vive Termindo e na inconstante e trada
Piza a cervis da indomita fortuna,
Tendo a volubil roda encadeada
Aos pés do throno em sólida coluna.
ALVARENGA, Manoel Ignacio da Silva. “O templo de neptuno”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. arnier, 1885. v. 1. p. 151- 155.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)