Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cantos Populares do Brasil (1883)


Marca d'água

D. Branca

 


-O que tens, ó Dona Branca,
Que de côr estás mudada?
« Agua fria, senhor pai,
Que bebo de madrugada.
-Juro por esta espada,
Affirmo por punhal
Que antes dos nove mezes
Dona Branca vai queimada.
« Eu não sinto de morrer,
Nem tambem de me queimar,
Sinto por esta criança
Que é de sangue real.
Si eu tivera o meu criado,
Que fôra ao meu mandado,
Escreveria uma carta
A Dom Duarte de Montealbar. »
-«Fazei a carta, senhora,
Que eu serei o mensageiro;
Viagem de quinze dias
Faço n'uma Ave-Maria.
Escreve, escreve, senhora,
Qu'eu serei o teu criado;
Viagem de quinze dias,
No jantar serei chegado.
« Abre, abre, crystallina
Janella de Portugal,
Quero entregar esta carta
A Dom Duarte ele Montealbar.

Dom Duarte, que leu a carta,
Logo se pôz a chorar,
Dando saltinhos em terra,
Como baleia no mar .

Dom Duarte se finge frade
P'ra princeza confessar:
Lá no sexto mandamento
Um beijo n'ella quiz dar.

« Bocca que Duarte beijava
Não é p'ra frade beijar!

N'isto então se descobria
E com ella já fugia,
E para a bôda a levou.


ROMERO, Sylvio (org.). “D. Branca”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.18-19

 


Marca d'água

D. Duarte e Donzilha

 


«Eu não procuro igreja,
Nem rosario p’ra rezar;
Só procur o lugar
Onde Dom Duarte está.
«Deus vos salve, rainha,
Rainha em seu lugar.»
-Deus vos salve, princeza,
Princeza de Portugal. »

- O que me quereis, princeza,
Que rio novas quereis me dar?
«É o amor de Dom Duarte
Que inda espero lograr.
- Dom Duarte não está em easa,
Anda n'alçada real.
« Mandai levantar bandeira
Para dar um bom signal.

Palavras não eram ditas,
Dom Duarte na porta estava:

-O que me quereis, princeza,
Que novas quereis me dar?
«É o amor de Dom Duarte
Qu’inda espero lograr.
-No tempo que eu vos queria,
Me juravam a matar:
Mas hoje que sou casado
Tenho filhos a criar

-Dai-me licença, senhora,
Dai-me licença real
P'ra dar um beijo em Donzilha
Qu'ella finada já está.
«Dai-lhe quatro, dai-lhe cinco,
Dai-lhe quantos vós poder;
Não tendes mais que beiar
A quem já finada está.

A cova de Donzilha
Foi na porta principal;
A cova de Dom Duarte
Foi lá no pé do altar.
Na cova de Donzilha
Foi um pé de sicupira;
Na cova de Dom Duarte
Nasceu em pé de collar.
Foram crescendo, crescendo,
Cresciam ambos igual;
Lá em riba das galinhas
Lá se foram abraçar.
A viuva que viu isto,
Logo mandou decolar;
Si haviam brotar leite,
Brotaram sangue real


ROMÉRO, Sylvio (org.) “D. Duarte e Donzilha”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 7-9.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)