Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Marca d'água

Conto de Reis

 


Anabela Drummond foi rainha de Escócia
avó
de soberanos que reinaram por centúrias
em Scótia e Britânia,
minha avozíssima também, como esquecer?
Não consigo entender por que o juiz de direito
o agente executivo, o coletor,
o vigário e demais pessoas gradas
não vêm aqui em casa render vassalagem
aos netos exilados de Anabela.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Conto de Reis”.In: Boitempo III “Esquecer para lembrar” 1979. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia- Editora: Companhia das Letras: 2015, p. 522.

 


Marca d'água

Memória Húngara

 


Caminhando nesta praia do Rio de Janeiro,
o vento me traz, na conversa de desconhecidos,
o nome de Arpad,
e a esse nome uma voz interior junta o nome de André
e os de Jorge seu filho e Maurício seu neto,
rei e príncipes de uma Hungria esfumada na História.
Que tenho a ver com eles?
Que têm a ver comigo,
pequeno burocrata aposentado a escrever para jornais
histórias da minha rua e do meu ônibus cotidiano?
Eu príncipe não sou. E muito menos rei.
E acaso restarão, na caligem que ora envolve céu e terra,
estilhaços de coroas com seus rubis empalidecidos?
Por que Arpad e Maurício em minha pobre memória?
Li um dia notícia de certa viagem marítima
e de uma tempestade a açoitar fugitivos ingleses
até a costa escocesa.
Maurício, da Casa de Arpad, comanda a embarcação.
Nada podem contra ele as fúrias do mar e as iras de Guilherme
o Conquistador.
A bela moça a bordo torna-se Rainha da Escócia,
em seu altar de igreja é Santa Margarida.
O bravo Maurício ganha terras e novos títulos,
como o de Onda Alta, Drummond,
e aqui estou eu, caminhando nesta praia
com uma gota de sangue húngaro tingindo levemente meu destino
de aventureiro não realizado.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Memória Húngara”.In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras: 2015, p. 522.

 


Marca d'água

O par libertado

 


No centro
no centro de uma praça
no centro de uma praça circular
eis-nos sentados, contemplados
novos Rei e Rainha de Henry Moore
menos reverenciados que inquiridos
por guardas e pedestres
computadores
fotógrafos vorazes.

Imóveis como convém ao estar na praça
bem no centro do olhar
em nossas mãos pousa a partícula de pó
viajado de outras praças
a caminho de outras (e perdeu-se
para ser nossa leve companhia).

Nossas microbiografias não seduzem
a pergunta mundial.
Querem saber de nós o que não pode
ser dito
nem se chega a pensar, uma existência
não basta para tanto:
segredo que se fecha sem esforço
porque futuro e branco.

(Na dignidade da postura
paralítica, ausente de sentido,
irradiamos talvez
surda sabedoria
flor e sumo de todo não fazer.)

Irritam-se insofiridos
nossos inspetores
e de um mal nos acusam
imperdoável mais do que tolera
de não escritas leis a face branda:
o crime de calar
quando atinge à palavra o som do inseto
e há escola de grito submarino.

No centro de uma praça ou de uma arena?
de teatro? senado? consultório
metafísico, bolsa de valores
que valem mais e menos cada instante
se o investidor vai morrer ou vai amar?
No quarto-cama-kit devassado
pelo raio de mil vidraças e sistemas?

Bem no centro do mundo
bem no centro
ou
nessa plataforma espacial
quedamos longe
de vossa curiosidade e até de nossa
mesma nostalgia dos espelhos.
Em deserto nos vemos e sorrimos
imperceptivelmente
imóveis
imêmores
imantados
pelo aço do silêncio em nós cravado.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “O par libertado”.In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras: 2015, p. 415.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)