A lira ebria
Porque mancebo, só te vejo aflito,
Sempre contrito, a murmurar: meu Deus!
E quando às vezes dedilhando a lira,
Porque delira nestes versos teus?
Oh! vem donzela, meu enlevo santo,
Cessar o pranto do infeliz cantos;
Vem fada errante, cherubim deidade,
Dar-me amizade, se me nega amor!...
Se compassiva vens ouvir meus santos
Por teus encantos ficarei demente;
Então consente que o proscrito, ao menos,
Teus pés pequenos vá beijar contente!...
Visão incrível, vaporosa ondina,
Fresca bonina do jardim de Deus;
Deixa que o ébrio com fervor, com ansia,
Recorde a infância nos folguedos teus!
Rainha altiva da mulher mais bela,
Rosa singela da manhã de Abril;
Nas longas caudas das virginias vestes,
Estou já prestes a curvar sutil!...
Fatais desejos eu já tive um dia,
Quando te via lá no templo a orar;
Bradei: amigos, um punhal, (que enleio)
Para em teu seio, de paixão cravar!...
Amor não quero se esta vida é triste,
Se só consiste num pesar sem fim;
Só te suplico que na hora extrema,
Também tu gema, tenha dó de mim…
Vestal divina, vem no meu delírio,
Qual tranquilo, no extrair da alma,
Ouvir com calma teu sagrado Amém.
D’ANDRADE, Maria do Carmo Sene. “A lira ebria”. In: O canto do cisne. Rio de Janeiro, RJ: Typographo-editor, 1880, p. 23.