Jorge de Lima (1893-1953)
Meninice
Lembras-te minha irmã,
da velha casa colonial em que nascemos
e onde havia o retrato do vovô Simões Lima ?
Do relógio de pesos, dos móveis
de jacarandá do quarto da vovó ?
Da mamãe, do papal,
suaves mas austeros e que liam a noite
o Rocambole e o Ponson du Terrail ?
Da mesa de jantar em que garatujavamos
a lápis de cor, quanta coisa havia ?
Lembras-te da maior emoção
que já tivemos: tão forte
que ficamos parados
oIhando-nos mutuamente:
Aquela tarde em que chegou
"O grande Circo internacional de Vigo" ?
· .. O palhaço Serafim ...
· .. O anão que engulia espada ...
· .. O cachorro que sabia números .. .
· .. O homem que sabia mágicas .. .
· .. O cavalo ensinado ...
· .. O burrico que mordia o palhaço...
· .. O palhaço que levava tombos ...
A charanga do circo !
Que beleza a charanga !
De repente vem a mocinha do trapézio ...
Cumprimentos, reverências, um sorriso
para o respeitabilíssimo público da cidade
Tu nao podias ver ...
Se a mocinha caísse !
Meu Jesus !
Eu olhei - ela subiu,
deu duas voltas imortais !
A charanga parou.
A emoção da cidade badalou !
Tu não podias ver!
Se a mocinha caísse, meu Jesus !
Eu olhei: ela deu outra
volta sensacional e zás !
as calcinhas da moça se romperam !
Ela desceu ...
A charanga bateu farte.
Meu coração bateu também !
Um dia o circo foi-se embora ...
Foi-se embora a moça das calcinhas …
Tu eras urna inocência silenciosa
que choravas por tudo.
Eu era um menino de olhos extasiados
que tinham saudade
mas não choravam nunca !
Lembras-te do meu gorro de marujo,
de minha blusa de gola azul marinho ?
Do teu saguim que morreu enforcado
na grade do jardim ?
Tu choraste tanto!
A noite tiveste medo da alma do saguim.
Tu eras urna inocência supersticiosa
que chorava por tudo . . .
Eu era um menino de olhos extasiados
que tinham saudades
mas nao choravam nunca !
LIMA, Jorge de. “Meninice”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 79.
Ave Maria
Boa tarde ó meu caminho estreito
por onde os últimos da vila vão !
Boa tarde, avozinhas,
Boa tarde, avozinhas.
me dai uma história do vosso surrão !
Me dai a Princesa Morgana-Vilão,
que eu sem história não durmo não !
Aí que há noites mais têmporas,
mais frias, mais tristes que as outras noites
Boa tarde avozinhas onde é que eu me acoito
da minha própria inquietação ?
Boa tarde avozinhas, boa tarde avozinhas,
as últimas andorinhas lá vão !
As vossas mãos, avozinhas
onde é que estão ?
Adeus, adeus, caminho estreito !
Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós …
Blão!
LIMA, Jorge de. “Ave Maria”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 194.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)