Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Vinicius de Moraes (1913-1980)


Marca d'água

A volta da mulher morena

 


Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena Que os olhos
da mulher morena estão me envolvendo E estão me despertando de noite.

Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena Eles são
maduros e úmidos e inquietos

E sabem tirar a volúpia de todos os frios.

Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma Cortai
os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono E trazem cores tristes
para os meus olhos.

Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes Traze-me
para o contato casto de tuas vestes Salva-me dos braços da mulher morena

Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim São como raízes
recendendo resina fresca

São como dois silêncios que me paralisam.

Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena Livra-me do seu ventre como a campina matinal Livra-me do seu dorso como a
água escorrendo fria.

Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena Reza
para murcharem as pernas da mulher morena Reza para a velhice roer
dentro da mulher morena Que a mulher morena está encurvando os meus
ombros E está trazendo tosse má para o meu peito.

Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos
cantos
Dai morte cruel à mulher morena!

Rio de Janeiro, 1935


MORAES, Vinicius de. “A volta da mulher morena”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 52.

 


Marca d'água

Intermédio elegíaco

 


Elegia quase uma ode
Meu sonho, eu te perdi; tornei-me em homem.
O verso que mergulha o fundo de minha alma
É simples e fatal, mas não traz carícia...
Lembra-me de ti, poesia criança, de ti
Que te suspendias para o poema como que para um seio no espaço.
Levavas em cada palavra a ânsia
De todo o sofrimento vivido.
Queria dizer coisas simples, bem simples
Que não ferissem teus ouvidos, minha mãe.
Queria falar em Deus, falar docemente em Deus Para acalentar tua
esperança, minha avó.
Queria tornar-me mendigo, ser miserável
Para participar de tua beleza, meu irmão.
Queria, meus amigos... queria, meus inimigos...
Queria...
queria tão exaltadamente, minha amiga!
Mas tu, Poesia
Tu desgraçadamente Poesia
Tu que me afogaste em desespero e me salvaste E me afogaste de novo e de
novo me salvaste e me trouxeste À borda de abismos irreais em que me
lançaste e que depois eram abismos (verdadeiros
Onde vivia a infância corrompida de vermes, a loucura prenhe do Espírito
Santo, e idéias em lágrimas, e castigos e redenções mumificados em (sêmen
cru
Tu!
Iluminaste, jovem dançarina, a lâmpada mais triste da memória…
Pobre de mim, tornei-me em homem.
De repente, como a árvore pequena


MORAES, Vinicius de. “Intermédio elegíaco”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 111.

 


Marca d'água

O eleito

 


Quando eu era menor na grande moradia
De minha avó materna e de meu pobre avô
Muitas vezes senti, como alguém que sonhou
Pesar sobre meu corpo o olhar da minha tia

Miserável, na frente mesmo dos avós
Que, velhos, sem amor, conversavam comigo
Deixava-me molhar de um riso de mendigo
Tremendo à comoção de uma volúpia atroz.

Na penumbra da sala lívida, amarela
Que te viu, minha mãe, antes de mãe, ser filha
Faminto como um cão no cio, sem família
Tocava sob a mesa a perna quente dela.

Ficava assim, as mãos geladas, os pés úmidos
Sem forças para olhar aquela mulher feia
Que tinha pêlos oleosos sob a meia
E esmagava na blusa os belos seios túmidos.

A náusea de mim mesmo abria-me a garganta
Tão forte quanto o mal que me engrossava o sangue
E era como se eu fosse alguma coisa exangue
E como se ela fosse alguma coisa santa.

Meus sonhos de beleza e meus votos de ideal
Debandavam como asas tristes e malferidas
Meu sonho era beijar as nádegas partidas
Ao desvendar o nu daquele ser fatal.

Com mãos fantásticas eu via-me, anjo impuro
Ereto na treva, o ventre despido a meio
Feroz, a mastigar-lhe a carne azul do seio
Sentindo-me ferir no seu corpete duro.

Por fim, sem poder mais, contendo à toa o hausto
Do gozo, corria a chorar para o banheiro
Onde, entre vômitos, o olfato aberto ao cheiro
Acre, masturbava-me até ficar exausto.

Quem jamais poderá dizer o medo louco
O indizível pavor de voltar que me vinha
De transpor a porta, olhar minha avó velhinha
E meu finado avô, que adormecera um pouco.

E entretanto, cheio de angústia, delicado
De angústia, voltava, abria de manso a porta
Incapaz de ferir aquela paz já morta
Com a mais leve emoção de me sentir culpado.

Pobre criança! que Deus implacável fizera
Que perdesse tão cedo as ilusões mais belas
Tu que devias ir viajando entre as estrelas
A cantar e a correr tonto de primavera?!

Itatiaia, 09.1937


MORAES, Vinicius de. “O eleito”.In: Poesias coligidas. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 345.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)