Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Alberto de Oliveira (1859-1937)


Marca d'água

Mortos para sempre

Só meu amor quisera permitido.
de Souza de Macedo. - Ulyssippo.


I

Estava a pensar há pouco que ella vinha,
Como dissera; e, entrando em casa, ao braço.
Do marido, — na escada, entre embaraço,
Dá-me, sorrindo, a trêmula mãozinha.

Com as mais pessoas conversando, a linha
Ora vê do horizonte, ora o terraço...
E eu suponho, a lhe ouvir o som do passo,
Rehaver o tempo em que a julgava minha.

No quarto mesmo, onde medito e estudo,
Apraz-lhe entrar; depois, a despedida,
Mal disfarça uma lágrima no adeus!

Vai-se. Abro o cofre da passada vida:
O mesmo é o seu retrato, e vejo em tudo
Seu nome escrito e os juramentos seus!

II

Tal supus, e ela quis que se cumprisse,
Mas com a emenda de um mal que não tem cura...
Sim, no olhar o notei, talvez que o ouvisse
No riso mesmo e em sua voz tão pura.

Chegou... Longe daquela criatura
Que a punge e odeia, a antiga meninice
Avivara-lhe o rosto, e a formosura
Mais esplêndida de seu todo. E disse…

Disse com os olhos úmidos, da fala
Com as tremuras, com o gesto doloroso,
Disse tudo... E ao notar que estremecia

Todo o meu corpo em tremito nervoso,
Prudente e honesta, um dedo ao lábio: — Cala!
Cala! — também, a estremecer, dizia.

III

Como uma sombra eterna que a piedade
Afigure, em meu quarto a imagem dela
Ficou, dos zelos a infernal procella
Domando com a serena majestade.

Avulta, cresce e me domina aquella
Sombra, e a meu peito ouvindo a tempestade,
Com um olhar de ternura e de bondade
Acalma-a, como uma serena estrela.

É razão que eu me curve, e sonho a sonho
Os ares cerre, em que fundei no vento
O meu templo ideal que ora desaba…

Ouve, minh'alma, o estrépito medonho...
Ouve, e treme de ouvil-o, pensamento!
É teu mundo de amor que cedo acaba.

IV

Que me quer esta lágrima?... Chorei-as
Todas... Mas tu, ó lágrima querida,
Tu só ficaste, e vais rolar sem vida,
Longe de suas mãos de finas veias!

Ela também, ó lágrima sentida!
Teve de pranto as pálpebras tão cheias
Como de um lírio, em meio das areias,
A urna de orvalhos, de manhã pendida.

Mortos pra sempre!... Lágrima, secaram
Tuas irmãs! com elas desparece,
E te apaga como elas se apagaram!

Olha: á face que amei se eu te levasse
Num beijo extremo e te espalhado houvesse,
Tu gelaras...tão fria é sua face!

V

Mortos pra sempre!... Cala-te, e padece,
Coração! ela o quis : padece, e cala... .
Ella que honesta e pura te aparece,
E, um dedo ao lábio, te aconselha e fala!

Como inda em vida arremessado à valla,
Que a dor no esquecimento te arremesse;
E seja a tua derradeira prece
Teu respeito em servi-a e em venerá-la.

Ela também, que a dor que te amortalha
A ambos colhe com o golpe, cae ferida
E o rosto a quentes lágrimas orvalha... .

Mortos para sempre!... O' sombra! escuridade!
Só, de teu seio, escutarei sem vida
O rouxinol da última saudade.

VI

Mortos para sempre!... Branca, inanimada,
Tu cosida á mortalha escura e fria,
Inda no alvor de teu primeiro dia!
Eu — com vêr-te tão cedo amortalhada!

Mortos para sempre! Um'hora de alvorada,
Um minuto de céu quem nos diria
Foi nosso amor nessa manhã sombria,
De receosas lágrimas banhadas!

Mortos, mortos para sempre!... E hás de em teu leito
Tremer, cuidando que da noite, fora,
Chega um fantasma que te aperta ao peito…

E ao peito, ao peito eu, só, no meu jazigo,
Tu'alma pura apertarei — se uma hora
Posso na morte adormecer contigo.


OLIVEIRA, Alberto de. “Mortos para sempre”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 109.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)