Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cantos Populares do Brasil (1883)


Marca d'água

A B C de amores

Aqui te mando, bemzinho,
Um A B C de amores,
Para que n'elle tu vejas
Os meus suspiros e dores.

Anda cá, meu doce bem,
Anda vêr, prenda qu erida,
As queixas que tu me fórmas
Nos passos da minha vida.

Bem conheço, prenda minha,
Que a vida me deixaste,
Por sentires grande falta
D'um coração que me roubaste.

Cadeias foram teus olhos,
Grilhões os teus carinhos,
Que prenderam meus affectos
Entre os mais duros espinhos.

De cada vez que te vejo,
Se me dobram as prisões;
Eu juro me teres roubado
Duzentos mil corações.

Empenhei-me a experimentar
A dureza do teu peito;
Nasci forro, sou captivo,
Sou leal e até sujeito.

Feriste meu coração
Para n'elle seres ouvido;
Ficaste sendo senhora,
Eu fiquei sendo captivo.

Gloria dos tempos passados,
Que tão depressa fugistes !
Que te faziam meus olhos,
Que vos fazem andar tristes?

He bem que chorem meus olhos
De uma dôr que os atormenta; ·
Um sensível coração
Pelos olhos arrebenta.

Ide, meus olhos, nadando
N'estas aguas que choraes;
Amor de meu coração,
Quando nos veremos mais?

Lagrimas, cahi, cahi,
Relatai a minha dôr;
Pois um triste coração
Não tem outro portador.

Mais me valia morrer
Quando em ti puz o sentido ;
Não pensei que tantas maguas
Me tivessem combatido.

Não abatas tanto, ingrata,
Um triste, affiicto queixoso;
Pois seja da minha vida
Fim, tormento rigoroso.

O rouxinol quando canta
Fórmas queixas de sentido;
Eu tambem me queixarei
Por ser mal correspondido.

Peço-te, bemzinho amado,
Que me faças um carinho,
Que vivas na esperança
Qu'inda hei-de ser teu bemzinho.

Quem vir a enchente no mar,
Não lhe cause confusão ;
Que são aguas dos meus olhos,
Fontes do meu coração.

Rebenta, minh'alma affiicta,
Que está ferido o meu peito,
Pelo muito que eu padeço,
Menina, por teu respeito.

Suspenderei os meus prantos,
Cessarei já de chorar,
Já que me coube por sorte
Querer bem e não lucrar

Tenho tão pouca ventura
Na sorte de te querer,
Que te peço por esmola
Sim me deixes padecer.

Vivo tão pensionado,
Que não sei de meus cuidados,
Si padeço ou si suspiro,
Si choro de maguado.

Xorando só de continuo
Por viver tão retirado,
Na tua ausencia, vidinha,
N'este triste, affiicto fado.

Zombem embora de meu pranto,
Pois a mim fizeste guerra,
Outro não acharás
Em todos os bens da terra.

O til por ser pequenino
Tambem goza estimação;
Estou esperando a resposta
Que venha da tua mão.


ROMERO, Sylvio (org.). “A B C de amores”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 123-126.

 


Marca d'água

Dona Infanta

<<Estava Dona Infanta
No jardim a passear,
Com o pente d'ouro na mão
Seu cabello penteava;
Lançava os olhos no mar,
N'elle vinha uma armada.
Capitão que n'ella vinha
Muito bem a governava.

<<Ia n'um cavallo d'ouro
Com sua espada dourada,
Na ponta de sua lança
Um Christo d'onro levava.
-Por signaes que vós me déstes
Lã ficou morto na guerra ;
Debaixo d'uma oliveira
Sete facadas lhe déra.

<<Quando fordes e vierdes
Chamai-me triste viuva,
Qu'eu aqui me considero
A mais infeliz em ventura.
- Quanto me dareis, senhora,
Si vos eu trouxel-o aqui?

<<O meu ouro e minha prata,
Que não tem conta nem fim.
- Eu não quero a tua prata,
Que me não pertence a mim;
Sou soldado, sirvo ao rei,
E não posso estar aqui.
Quanto me dareis, senhora,
Si vol-o trouxer aqui?

<<As telhas de meu telhado
Que são de ouro e marfim.
-Eu não quero as tuas telhas,
Que me não pertence' a mim ;
Sou soldado, sirvo ao rei,
E não posso estar aqui.
Quanto me dareis, senhora,
Si vol-o trouxer aqui?

<<Tres filhas que Deus me deu
Todas te darei a ti,
Uma para te calçar,
Outra para te vestir,
A mais linda d'ellas todas
Para comtigo casar.
-Eu não quero tuas filhas,
Que me não pertence' a mim;
Sou soldado, sirvo ao rei,
E não posso estar aqui. 1
Quanto me dareis, senhora,
Si vos eu trouxel-o aqui?

<<Nada tenho que vos dar
E vós nada que pedir.
-Muito tendes que me dar,
Eu muito que vos pedir:
Teu corpinho delicado
Para commigo dormir.
« Cavalleiro que tal pede
Merece fazer-se assim:
No rabo de meu cavallo
Puxal-o no meu jardim I
Vinde, todos meus criados,
Vinde fazer isto assim.
-Eu não temo os teus criados,
Teus criados são de mim.

<<Si tu eras meu marido,
Porque zombavas de mim?
- Para vêr a lealdade
Que vossê me tinha a mim,


ROMERO, Sylvio (org.). “Dona Infanta”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova
Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.1-3.

 


Marca d'água

Florioso

<<- Entre pedras e peneiras,
Senhora, vamos a ver;
Menina que estaes na fonte,
Dai-me agua para beber.

<< Com licença do Senhor,
E da Senhora da Guia,
Dizei-me, senhor mancebo,
Si vindes de companhia?
- A companhia que trago
Já vos digo na verdade;
Venho divertir o tempo,
Que é cousa da mocidade.

<<É causa da mocidade,
Bem já me parece ser;
Dizei-me, senhor mancebo,
Si sabeis ler e escrever ?
- Eu não sei ler e escrever,
Nem mesmo tocar viola;
Agora quero aprender
Na vossa real escóla ...

<< Escóla tenho eu de minha,
Nange p'ra negro aprender;
Juizo te dê Deus,
Memoria para saber.
- N'estas mimosas esquinas
Faz-se ausencia muito mal ;
Eu sempre pensei, senhora,
Que vós me querieis mal.

«Quanto a mim, eu não te quero
N'alma, nem no coração;
Até só te peço, negro,
Que não me toques na mão.
-Nas mãos eu não vos tóco,
Nem mesmo bulo comvosco;
Quero estar a par de vós,
Poil!l eu n'isto levo gosto.

<<Si tu n'isto levas gosto,
Desgostas por vida tua;
Que esta casa que aqui está
É de outro e não é tua.
-Si é de outro e não é minha

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Inda espero que ha-de ser;
Menina, diga a seu pai
Que me mande receber.

<<Taes palavra s eu não digo
Que inda sou muito escusada,
Pois eu sou menina e moça,
Não sou para ser casada.
-Inda mais moças que vós
Regem casa e tem marido ;
Assim ha-de ser, menina,
Quando casardes commigo.

<<Mas eu não hei-de casar,
Porque não hei-de querer;
Eu não me metto a perigos,
Quando vejo anoitecer ...
-Nem eu quero cousa á força,
Sinão por muita vontade,
Eu quero gozar a vida,
Que é causa da mocidade. -

« D'onde vem o Florioso
Das melendias penteadas?
-Eu venho ser o vaqueiro
Das ovelhas mais das cabras.

« D'este mesmo gado eu cuido
Da mais fina geração;
- D'aquelle que veste luvas
De cinco dedos na mão.

« Já fui contar as estrellas,
-Eu já sei que estou no caso…

« Eu sei agora, mancebo,
Que tu só és o diabo ...
-O diabo eu não sou ;
Ai l Jesus, que feio nome !
Só peço ao Senhor da Cruz
Que este diabo vos tome. »


ROMERO, Sylvio (org.). “Florioso”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria
Internacional, 1883. v. 1. p. 39-30.

 


Marca d'água

Meu benzinho, diga, diga…

<<- Meu bemzinbo, diga, diga,
Por sua bocca confesse
Si vossê nunca já teve
Quem tanto bem lhe quizesse.
«Si eu nunca tive
Quem tanto bem me quizesse,
Tambem nunca tive
Quem tantos trabalhos me désse.
- Os trabalhos qu'eu te dei,
Vossê mesmo o os procurou,
Que da casa do meu pae,
De lá vossê me tirou.
– Si de lá eu te tirei
Foi por me vêr perseguido:
Quantas e quantas vezes
Não me tenho arrependido!
<< De que te arrependes, amor?
D’este teu genio tão forte?
Não prometteste ser firme
Até na hora da morte?
Até na hora da morte?
Sentirei ingratidão,
Sendo eu a dona
Roubada d’este ladrão!
Nunca comi de ladrão,
Nem pretendo comer;
Poderei comer agora
Debaixo de seu poder.
– Debaixo de meu poder
Tu terás grande valia;
Saindo d’elle p’ra fóra,
Não terás mais fidalguia.
<< Esta fidalguia minha
Nunca ha-de se acabar;
Qu’eu com gente mais somenos
Nunca hei de me pegar.
– Pega, então, meu amor,
Procurando opinião;
Que estas meninas de agora
Não procurem estimação.
<< Não procura estimação
Só aquella que é pobre;
Uma dôna, como eu,
Só procura gente nobre.
-Goza, meu bem, da vida,
Qn'eu, á noite, vou-te vêr,
Dando suspiros e ais
P'ra não te vêr padecer.


ROMERO, Sylvio (org.). “Meu benzinho, diga, diga…”. In: Cantos populares do Brazil.
Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 128-129.

 


Marca d'água

O bernal francez

<<Quem bate na minha porta,
Quem bate, quem está ali?
-É Dom Bernaldo Francez
A sua porta mande abrir.

No descer da minha cama
Me cahiu o meu chapim ;
No abril da minha porta
Apagou·se o meu candil.
Eu levei-lhe pelas mãos,
Levei-o no meu jardim;
Me puz a lavar a elle
Com agua de alecrim ; .
E eu como mais formosa
Na agua de Alexandria.
Eu lhe truxe pelas mãos,
Levei-o na minha cama.
Meia noite estava dando.
Era Dom Bernaldo Francez ;
Nem sonava, nem movia,
Nem se virava p'ra mim.

<<O que tendes, Dom Bernaldo,
O que tendes, que imaginas ?
Si temes de meus irmãos,
Elles estão longe de ti;
Si temes de minha mãi,
Ella não faz mal a ti ;
Si temes de meu marido,
Elle está na guerra civil.

- Não temo dos teus irmãos,
Qu'elles meus cunhados são;
Não temo de tua mãi,
Qu'ella minha sogra é;
Não temo de teu marido,
Qu'elle está a par comtigo.
<<Matai-me, marido, matai-me,
Qu’eu a morte mereci;
Si tu eras meu marido
Não me dava a conhecer.
-Amanhã de p’ra manhã
Eu te darei que vestir;
Te darei saia de ganga,
Sapato de berbatim;
Trago-te punhal de ouro
Para te tirar a vida…

O túmulo que a levava
Era de ouro e marfim;
As tochas que acompanhavam
Eram cento e onze mil,
Não fallando de outras tantas
Que ficou atraz p’ra vir.
<<Aonde vai, cavalleiro,
Tão apressado no andar?
- Eu vou vêr a minha dama
Que já ha dias não a vejo.
«Volta, volta, cavalleiro,
Que a tua dama já é morta,
É bem morta que eu bem vi,
Si não quereis acreditar
Vai na capella de São Gil.
-Abre-te, terra sagrada,
Quero me lançar em ti.
<< Pára, pára, Dom Bernaldo,
Por mode ti já morri>>
-Mas eu quero ser frade
Da capella de São Gil;
As missas que eu disser
Todas serão para ti
<< Não quero missas, Bernaldo,
Que sãó fogo para mim :
Nas filhas que vós tiver
Botai nome como a mim ;
Nos filhos que vós tiver
Botai nome como a ti.


ROMERO, Sylvio (org.) “O bernal francez”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova
Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 5-7.

 


Marca d'água

O casamento mallogrado

<<Estava em minha janella
Casada com oito dias,
Entrou uma pombinha branca
Não sei que novas trazia.

«São novas ruins de chorar;
Teu marido está doente
Nas terras de Portugal;
Cahiu de um cavallo branco
No meio de um areial,
Arrebentou-se por dentro,
Corre o risco de finar.


ROMERO, Sylvio (org.). “O casamento mallogrado”. In: Cantos Populares do Brazil.
Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.52.

 


Marca d'água

Os versos de chiba

Minha gente, folguem, folguem,
Que uma noite não é nada;
Si não dormires agora
Dormirás de madrugada.
O senhor dono da casa
Mande vir a aguardente,
Que sinão eu vou-me embora,
Levo toda a mioba gente.
Minha gente não inore
Este meu cantar baixão,
Que estou co'o peito serrado
Do malvado catarrhão.

Senhóra, minha senhóra
Da minha veneração,
Cachaça custa dinheiro,
Agua tem no ribeirão.
Tenho minha viola nova
Feita de pau de colher
Para mim dançar com ella,
Já que não tenho mulher.
Esta viola não é minha,
Si eu a quizer minha será ;
Si eu fizer intento n'ella,
Meu dinheiro a pagará !
Tenho minha viola nova
Com seu buraco no meio ;
P'r' amô' d'este buraco
Mataram meu companheiro.
Na Villa de Pracatú
A mulher matou o marido,
Cuidando que era tatú.
Na Villa de Sabará
A mulher matou o marido
Pensando que era gambá.
Chicolate, café, birimbau,
Uma correia na ponta de um páo
Nas suas cadeiras não era máo!


ROMERO, Sylvio (org.). “Versos de chiba”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova
Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.172-173

 


Marca d'água

Quadras de chiba

Fui no matto tirar côco,
firei côco de yodayá .
Para quebrar no dentinho
De minha amante yayá.

Não quero ser conde d'Arcos,
Nem tenente-general;
Só quero me vêr nos braços,
De minha amante yayá.

Seja muito bem chegada
A senhora archiduqueza;
Inda o céo me deixou vivo
P'ra gozar d'esta belleza.

Novos ares, novos climas
Bem longe vou respirar;
'Lá mesmo serei ditoso,
Si meu bem nunca mudar.

Esta noite, meia noite
Vi cantar um gavião,
Parecia que dizia:
- Vinde cá, meu coração.

Oh! que moça tão bonita,
Que parece meu amor,
Com seu corpinho de penna,
Seu ramilhete te flôr.

Canna verde, canoa secca,
Canna do cannavial,
Tenho pena de te vêr
Pena de não te gozar.

Maria, minha Maria,
Minha flôr de melancia,
Um suspiro que eu te dou
Té sustenta todo o dia.

Já lá vem amanhecendo,
As folhas tremem com o vento ;
Meu amor que já não vem
É que está fechado dentro.

Minha Maria, o tempo corre
Perguntando á natureza,
A nossa paixão gozemos,
Que o tempo murcha a belleza.

Quem possue um bem que adora
Não tem mais que desejar;
Si elle cumpre o juramento,
Não tem mais que suspirar.

Aprendei a temperar
Que o tocar não tem sciencia;
A sciencia do amor
É fazer a diligencia.


ROMERO, Sylvio (org.). “Quadras de chiba”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova
Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.182-184.

 


Marca d'água

Sarabanda

- Aqui estou, minha senhora,
Com dôr no meu coração,
Bem contra a minha vontade
Fazer-lhe esta citação.
<<Tambem tenho minha casa
Mui da minha estimação ;
Tudo darei á penhora,
Porém as cadeiras não.
« Tambem tenho· minha cama
Coberta de camelão,
A barra de setirn nobre,
O forro de camelão;
Tudo darei á penhora,
Porém as cadeiras não.
« Tambem tenho cinco escravos,
Tres negros e dois mulatos,
Mui da minha estimação;
Tudo darei á penhora,
Porém as cadeiras não.
- Venha cá, minha senhora,
Deixe-se de tantas besteiras,
Que no mundo não falta ourives
Que lhe faça outras cadeiras.


ROMERO, Sylvio (org.). “Sarabanda”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova
Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.127-128.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)