Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Inês Sabino (período)


Marca d'água

A nuvem

À Esmeralda Espiuca


Querida! porque adejas nesse espaço
Tão alva, tão ligeira, e pueril?
Não corras, e não voes tão altiva,
Deixando após de ti rasto subtil.

P'ra onde te diriges, oh formosa?
Não fujas, vou contigo, espera aí!
Amiga, vem prender-me em teu regaço,
Não quero mais, oh nuvem, “star aqui!

Diz a nuvem:— “Não vês como eu te fujo?
Assim foge a ventura, a vida, o amor;
Às pressas, como eu, vem a desgraça
Envolta no cortejo de uma dor!”

E a nuvem me fugiu...fiquei surpresa,
Em duras reflexões eu me engolphei:
A vida é como a nuvem passageira,
Quem pode nela crer? oh quem? dizei!


SABINO, Inês. “A nuvem”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 117.

 


Marca d'água

O Testamento

(Imitação)


Nua estava a senzala! apenas uma tábua
Jazia quasi á tôa, sobre um canto nii !
Ali...O pote d’água, além a pobre arca,
Ah ! que pobreza imensa e que desprezo crû!

Sobre esta dura cama, um pobre negro velho
Estava a expirar, sem ter nem uma luz!
A frouxa claridade que inda ali reinava
Pousando sobre o quarto, o alumiava a flux!

Um filho pequenino foi dizer lá fora
Que o pai estava morrendo, e que ele estava só!
Às pressas vem a esposa, ao peito o conchegara.
Chorando comovida de resabio e dó!

Veio a senhora moça, a sua predilecta,
Pegou nas frias mãos, se ajoelhou ao pé;
Ergueu o moribundo os olhos num sorriso,
Naquela pobre alma ainda restava a fé.

“ Ah minha sinhá moça!... o seu escravo velho
Sentia bem morrer sem ver de Vossemecê...
A morte já me abraça, mas eu vejo ainda
A si, a quem amei! Que boa, aqui, me vê!


Seu preto nada tem p’ra lhe deixar, senhora,
Além de um perto nobre, e que sincero a amou!
Porém, naquela caixa, existem dez moedas,
Premissas que o suor, um dia me legou!

Bem sei que é fraca a oferta, e muito humilde, embora;
Mas, não a despreseis, oh anjo deste lar!
Seja ela a rude paga destas mãos calosas,
Que sentem-se felizes d’entre a vossa estar…

E nada mais dissera! e curva a negra fronte,
As mãos da sinhá moça, aos lábios seus colou!
Ampara o pobre escravo ao colo esbelto, puro.
Por sobre o frio rosto um beijo seu, pousou!

Sublime ação foi esta! o leito mortuário
Abate o poderoso e o faz curvar no chão.
A tábua do captivo, ombreia um fausto leito,
A morte tudo iguala, a ela é tudo irmão


SABINO, Inês. “O testamento”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 61.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)