Auta de Souza (1876-1901)
Flor do Campo
A meu irmão Eloy
Moça ingênua e formosa,
Ó doce filha do sertão agreste!
O teu olhar celeste
Tem o fulgor da noite luminosa,
Guarda a mesma doçura
O mesmo encanto feito de esperanças
Dos olhos das crianças,
Ninho de sonho e ninho de ternura.
A luz do Paraíso,
Quando a Alegria tua boca enflora, -
Resplende como a aurora
Na graça-virginal de um teu sorriso.
És inocente e boa
Como a quimera que em teu seio canta
Tens a beleza santa
Da pomba amiga que no Espaço voa.
Jamais alguém te disse
Que tens o rosto branco como o gelo,
A Noite no cabelo
E o sorriso tão cheio de meiguice.
Por isso ainda é mais bela
A tua fronte cândida e tranquila,
E o fogo que cintila
No teu olhar é como o de uma estrela
Angélica é suave,
É tua voz que as almas adormece,
Um ciciar de prece,
Embalando a saudade de alguma ave.
Hoje tu'alma ignora
Toda a magia deste rosto puro;
Mas, olha, no futuro
Lembrar-te-ás do que não vês agora,
E então, com que saudade
Recordarás esse passado morto
Em triste desconforto,
Chorando os sonhos da primeira idade.
Ó lindo malmequer,
Anjo que vives a sonhar com Deus...
Pje os olhos nos meus é
Ouve bem séria o que te vou dizer;
Um dia, talvez cedo,
Teu coração palpitará inquieto
E transbordando afeto,
Há de afagar um íntimo segredo.
Para tu'alma honesta
Ó Céu inteiro, iluminado, ó flor!
Com a luz de um puro amor
Há de brilhar como uma Igreja em festa.
E assim, risonha é calma,
Conduzirá ao porto da aliança,
Na barca da Esperança,
Como um troféu, o noivo de tu'alma.
E Deus há de baixar
Sobre estas duas mãos que o padre estreita,
A bênção mais perfeita,
O seu mais doce e mais divino olhar.
Feliz, muito feliz,
A tua vida correrá de manso
No plácido remanso
De quem adora o Céu e o Céu Bendiz.
Depois, do Paraíso,
Jesus há de enviar-te uma filhinha,
Formosa criancinha
Que embalarás cantando num sorriso.
Ela há de ser bonita
E boa como tu, anjo terrestre,
Ó linda flor silvestre,
Minha singela e casta margarida!
E após anos e anos,
Quando ela ficar moça e no teu rosto,
A sombra do sol-posto
For desdobrando o manto dos enganos,
Num dia de verão,
Sentado à porta, à hora do descanso
Sorrindo bem de manso,
Há de dizer, pegando-te na mão,
O velho esposo amigo:
— Repara como é linda a nossa filha!
Seu riso como brilha!
Eras assim quando casei contigo.
E tu hás de evocar,
Entre saudades trêmulas e ais,
Aquele tempo que não volta mais!
E no gracioso olhar
De tua filha os olhos mergulhando,
Deixarás a tu'alma ir Autuando
Sobre a onda bendita
Daquele mar puríssimo e dolente…
E, então, murmurarás saudosamente:
Ah! Como fui bonita!
Alto da Saudade
SOUZA, Auta de. “Flor do Campo”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 164.
No Horto
Oro de joelhos, Senhor, na terra
Purificada pelo teu pranto...
Minh'alma triste que a dor a terra
Beija os teus passos, Cordeiro santo!
Eu tenho medo de tanto horror.
Reza comigo, doce Senhor!
Que noite negra, cheia de sombras.
Não foi a noite que aqui passaste? .
Ó noite imensa... por que me assombras,
Tu que nas trevas me sepultaste?
Jesus amado, reza comigo...
Afasta a noite, divino amigo!
Eu disse... e as sombras se dissiparam.
Jesus descia sobre o meu Horto...
Estrelas lindas no céu brilharam,
Voltou-me o riso, já quase morto.
E a sua boca falou tão doce,
Como se a corda de um'harpa fosse:
“Filha adorada que o teu gemido
Ergueste m'asa de uma oração,
Na treva escura sempre envolvido,
Por que soluça teu coração?
Levanta os olhos para o meu rosto,
Que à vista dele foge o Desgosto.
Não tenhas medo do sofrimento.
Ele é à escada do Paraíso...
Contempla os astros do firmamento,
Doces reflexos de meu sorriso.
Não pensa em dores nem canta mágoas;
À garça nívea fitando as águas.
Sigo-te os passos por toda parte,
Vivo contigo como um irmão.
Acaso posso desamparar-te
Quando me trazes no coração?
Nas oliveiras do mesmo Horto,
Enquanto orares,terás conforto.
Olha as estrelas... No céu escuro
Parecem sonhos amortalhados...
Assim, nas trevas do mundo impuro,
Brilham as almas dos desolados.
Mesmo das noites a mais sombria
Sempre conduz-nos à luz do dia”
Ergui os olhos para o céu lindo:
Vi-o boiando num mar de luz...
E, então, minh'alma num gozo infindo,
Chorando e rindo, disse a Jesus:
“Guia o meu passo, nos bons caminhos,
Na longa estrada cheia de espinhos.
Dá-me nas noites, negras de dores,
Uma cruz santa para adorar,
E em dias claros, cheios de fores,
Uma criança para beijar.
Junta os meus sonhos, no azul dispersos,
Desce os teus olhos sobre os meus versos…
E vós, amigos tão carinhosos,
Irmãos queridos que me adorais
E nos espinhos tão dolorosos
De minha estrada também pisais…
Velai comigo, longe da luz,
Que já levantam a minha Cruz.
A hora triste já vem chegando
De nossa longa separação...
Que lança aguda vai transpassando
De lado a lado meu coração!
Não adormeçam, meus bem-armados,
Já vejo os cravos ensanguentados.
Longe, bem longe, naquele monte,
Não brilha um astro de luz divina?
É o diadema de minha fronte,
É a esperança que me ilumina!
A cruz bendita, que aterra o vício,
Fogueira ardente do sacrifício.
Adeus, da vida sagrados laços...
Adeus, ó lírios de meu sacrário!
A Cruz, no monte, mostra-me os braços...
Eu vou subindo para o Calvário.
Ficai no vale, pobres irmãos,
Da vovozinha beijando as mãos.
E se ela, inquieta, com a voz tremente,
Ouvindo as aves pela manhã,
Interrogar-vos ansiosamente:
“Que é do sorriso de vossa irmã?”
Dizei, alegres: “Foi passear...
Foi colher flores para o Altar”
E, quando a tarde vier deixando
Nos lábios todos saudosos ais,
Ea pobre santa falar chorando:
“A minha neta não volta mais?”
Dizei, sem prantos:“A tarde é linda...
Anda nos campos, brincando ainda”
Livrai su'alma do frio açoite
Das ventanias que traz o Inverno...
Cerrai-lhes os olhos, na grande noite,
Na noite imensa do sono eterno.
Anjo da guarda, de rosto ameno;
Mostra-me o trilho do Nazareno…
E... Adeus, ó lírios do meu sacrário,
Que eu vou subindo para o Calvário.
SOUZA, Auta de. “No Horto”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 41.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)