Manoel Ignácio da Silva Alvarenga (1749-1814)
Canção
EGREGIA dor da Lusitana Gente,
Nobre inveja da estranha,
D'antigos Reis preclaro descendente,
Luiz, a quem se humilha quanto banha
Do grão tridente o largo senhorio,
Desd’o Amazonio, até o argento rio
Em quanto concedeis repouso breve
A's redeas do Governo,
Ouvi a Musa, que a levar se atreve ,
Ao som da Lyra de ouro, em canto eterno,
vosso a ser brilhante Estrella,
Onde habita immortal a Gloria bella.
Só às Filhas do Ceo foi concedido
Do Lethes frio, e lasso
Os Heroes libertar; calça atrevido
Tempo devorador, com lento passo,
Tudo quanto os mortaes edificárão;
Nem deiaxa os, écos das acções, que obrárão.
Receba o vasto Mar no curvo seio
Os marmores talhados;
O amoroso Delfim, o Trisião feio
Respeitem temerosos, e admirados
A Muralha, onde Theris québra a furia;
Do maritimo Jove eterna injúria.
Ao ar se eleve Torre magestosa,
T'hesouro amplo, e profundo
Das riquezas, que envia a populosa
Europa, e Asia grande ao Novo Mundo;
Por quem soberbo, ó Rio, ao mar te assomas,
Tu, que do Mez primeiro o nome tomas.
Lago triste , mortal, no abysmo esconda
Pestiferos venenos ;
E o leito, onde dormia a esteril onda,
Produza os Bosques, e os Jardins amenos,
Que adornando os fresquissimos lugares,
Dem sombra a terra, e dem perfume aos ares
O vosso invicto Braço os bons proteja,
E os soberbos opprima:
Modêlo sempre illustre em Vós se veja
De alma grande, a quem bella gloria anima; .
Regendo o Sceptro respeitado, e brando;
Digno da Mão, que Vos confia o Mando.
Os justos premios de emula Virtude
Da vossa não excitem
Ao nobre, ao generoso, ao fraco, e rude:
As Artes venturosas resuscitem ;
E achando em Vós hum inclito Mecenas,
Nada invejei de Roma, nem de Athenas.
A Paz, a doce Paz contemple alegre
As Marciaes bandeiras:
Prudente a justo o vosso arbitrio regre,
E firme a sorte das nações inteiras
Derramando por tautos meios novos
A ditosa abundancia sobre os Póvos.
Cresça a próspera Industria, que alimenta
Os solidos thesouros:
O Ocia torpeo e a ambição violenta
Fujão com funestissimos agouros;
Fuja a céga Impiedade; e por castigo
Negue-lhe o Mar, negue-lhe a Terra abrigo,
Acções famosas de louvor mais dignas,
Que as de Cesar, e Mario!
Vós não sereis ludibrio das malignas
Revoluções do Tempo iniquo, e vario:
Ja vos case o apolíneo templo
Lá se erge mais solida calumna,
Que o marmore de Paros ;
E longe dos teus golpes, o fortuna,
la vive a imagem dos Heroes preclaros;
Assim respeita o tempo os nomes bellos
De Scipiões, de Emilios, de Marcellos,
Entre estes vejo o Achilles Lusitano,
Que prodigo da vida.
Foi o açoute do barbaro Africano
'E exemplo raro d'alma esclarecida,
De que são testemunhas nunca mortas
D'Ourique o campo, de Lisboa as portas.
O grande Vasconcellos vejo armado,
Que arranca, despedaça
O alheio ferreo jugo ensanguentado;
E os soberbos Leões forte ameaça:
Da guerra o raio foi, da paz a leme
America inda o chora, Espanha o teme.
Quem he o que entre todos se assinála
No próvido conselho ?
E no valor, e na prudencia iguala
Da antiga Pylos o famoso velho?
He Pedro, que com hombros de diamante
Foi d'hum, e d'outro Ceo robusto Atlante.
Mas que lugar glorioso Vos espera
Inclyto heroe, na scintillame esfera?
Eu vejo o Busto, que entre resplendores
As Virtudes, e as Musas vos levantão
Ao som dos lymoos, que alteroadas cantto
Luiz, Luiz a abobeda deleste
Por toda a parte soa ;
E tu, ó Clio, tu que lhe teceste
Co’ a propria mão a nitida coroa,
A voz levantas, entornando as Graças
O nectar generoso em aureas taças.
Delicia dos humanos, clara fonte
De Justiça, e Piedade,
Não sentiras do. pallido Acheronte
Ferreo somno, nem densa escuridade.
Cantou a Musa: a Inveja. se devora,
E o Tempo quebra a fouce cortadora.
Então, d'entre segredos tenebrosos
Erguendo o braço augusto,
Que vio nascer os Orbes luminosos,
Dá vida a Eternidade ao novo. Busto.
Hum chuveiro de luz sobre elle desce,
E nova Estrella aos homens apparece.
Astro benigno! Eu te offereço a Lyra
De louros epramada
Recebe…ella ja voa, e sóbe, e gira,
Rompendo os ares de esplendor cercada;
Já Satellite adorna o Firmamento,
E te acompanha la no Ethereo Assento,
Canção, quanto te invejo!
Vai, e ao feliz habitador do Téjo
Conta que a nova Estrella,
Banbada em luzes da Rainha Augusta,
Reflecte ao Novo Mundo a Imagem delta
ALVARENGA, Manoel I. da Silva. “Canção”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p. 52-54.
Quintilhas
MUSA, não sabes louvar,
E por isso neste dia,
Entre as vozes d'alegria,
Nao pertendo misturar
Tua rustica armonia.
Tens razao, mas não escuto
Os teus argumentos bellos:
Por mostrar novos disvellos
Demos o annual tributo
Ao illustre Vasconcellos.
Vamos pois a prepararg
Que eu te darei as licões:
Folheando no Camões,
Bem podemos remendar
Odes, Sonetos, Canções.
Poremos fingir hum sonho
Por methodo tal e qual,
Se o furto for natural,
Eu delle não me envergonho,
Todos furian, bem ou mal
Ve se lhe podes grudar
Que muila gente barbada
Aplaude sem lhe importar
A razão, por que lhe agrada.
Feita assim a introducção
Passemos ao elogio,
Não te escape o patrio Rio
Sahindo nesta ocasião
Lá de aigum lugar sombrio.
Coroado de mil flores
Venha a torto e a direito ;
E se fizer hum tregeito,
Clamarão logo os leitores:
Viva, bravo, isto be bem feito
Co' as virtudes, co as acções
Do nosso Heroe não te mates.
Bastar que a obra dilates,
Dividida em pelotoes ,
Por sonoros disparates,
Quero ver a mão robusta
D’Alcidis, encaixe, ou não
E alguma comparação.
Ainda que seia á costa
D’ Anibal, ou scipião.
Hao de vir de Jove as filhas,
Marte horrendo furibundo,
E com saber mais profundo,
Traze as sete matavilhas,
Que ninguem achou no mundo.
Se acaso a Ode te agrada,
Para atterrar teus rivaes,
Tece em versos desiguaes,
Crespa frase entortilhada
Palavras sesquipedaes.
Crepitantes, denodadas,
Enchem ber de hum verso as linhas,
E eu me lembro que já tinhas
N'outro tempo bem guardadas,
Muitas destas palavrinhas.
Se de Soneto és amante,
Seja sempre pastoril,
Que sem cajado e rabil,
O Soneto mais galante
Não tem valor de hum ceitil.
Venha sempre o adejar,
Que he verbinho, de que gosto,
E já me sinto disposto
Para o querer engastar
N'hum Idilio de bom gosto.
E pois que aqui nos achamos,
Tão longe de humano trato,
Que inda o velho Perpalo
Por toda a parte encontramos,
Com respeito, e apparato
Dois trocadilhos formemos
Sobre o nome de Luiz,
Seja luiz, ou seja Liz,
O epigramma feito temos,
E só lhe falta o nariz.
Acrosticos isso he flor
'hum engenho singular;
Quem os soubera formar,
Que certo tinha o penhor
Para a muitos agradar!
Agudissimos Poetas,
Gento bem aventurada,
Que estudando pouco, ou nada,
Tem na cabeça essas petas,
E outra muita farfalhada!
Mas, oh Musa, o meo desgoste
tal que já tenho pejo
De ti mesma quando vejo
O teu animo indisposto
Para cumprir meu dezejo.
Não tive dias bastantes..
Basta, basta, isso he enganos
Sobeja o tempo de hum anno,
E he muito seis estudantes
Para hun só Quintilianno.
Sei que ha nesta occasião
Poetas, filhos, e Paes:
Porem sejão taes ou quaes?
Compre tua obrigação,
Deixa cumprir os demais.
Vinte quintithas ja sao,
Nos annos nao se fallou,
Mas á margem sendo estou
Ler no Livro da razao.
- Foi omisso, nao pagou.
Eis aqui como se ganha
O labéo de caloteiro,
Mas eu não sou o primeiro
Que tive esta boa manha,
Nem serei o derradeiro.
ALVARENGA, Manoel I. da Silva. “Quintilhas”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p. 65-69.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)