Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Auta de Souza (1876-1901)


Marca d'água

No Horto

Oro de joelhos, Senhor, na terra
Purificada pelo teu pranto...
Minh'alma triste que a dor a terra
Beija os teus passos, Cordeiro santo!

Eu tenho medo de tanto horror.
Reza comigo, doce Senhor!

Que noite negra, cheia de sombras.
Não foi a noite que aqui passaste? .
Ó noite imensa... por que me assombras,
Tu que nas trevas me sepultaste?

Jesus amado, reza comigo...
Afasta a noite, divino amigo!

Eu disse... e as sombras se dissiparam.
Jesus descia sobre o meu Horto...
Estrelas lindas no céu brilharam,
Voltou-me o riso, já quase morto.

E a sua boca falou tão doce,
Como se a corda de um'harpa fosse:

“Filha adorada que o teu gemido
Ergueste m'asa de uma oração,
Na treva escura sempre envolvido,
Por que soluça teu coração?

Levanta os olhos para o meu rosto,
Que à vista dele foge o Desgosto.

Não tenhas medo do sofrimento.
Ele é à escada do Paraíso...
Contempla os astros do firmamento,
Doces reflexos de meu sorriso.

Não pensa em dores nem canta mágoas;
À garça nívea fitando as águas.

Sigo-te os passos por toda parte,
Vivo contigo como um irmão.
Acaso posso desamparar-te
Quando me trazes no coração?

Nas oliveiras do mesmo Horto,
Enquanto orares,terás conforto.

Olha as estrelas... No céu escuro
Parecem sonhos amortalhados...
Assim, nas trevas do mundo impuro,
Brilham as almas dos desolados.

Mesmo das noites a mais sombria
Sempre conduz-nos à luz do dia”

Ergui os olhos para o céu lindo:
Vi-o boiando num mar de luz...
E, então, minh'alma num gozo infindo,
Chorando e rindo, disse a Jesus:

“Guia o meu passo, nos bons caminhos,
Na longa estrada cheia de espinhos.

Dá-me nas noites, negras de dores,
Uma cruz santa para adorar,
E em dias claros, cheios de fores,
Uma criança para beijar.

Junta os meus sonhos, no azul dispersos,
Desce os teus olhos sobre os meus versos…

E vós, amigos tão carinhosos,
Irmãos queridos que me adorais
E nos espinhos tão dolorosos
De minha estrada também pisais…

Velai comigo, longe da luz,
Que já levantam a minha Cruz.

A hora triste já vem chegando
De nossa longa separação...
Que lança aguda vai transpassando
De lado a lado meu coração!

Não adormeçam, meus bem-armados,
Já vejo os cravos ensanguentados.

Longe, bem longe, naquele monte,
Não brilha um astro de luz divina?
É o diadema de minha fronte,
É a esperança que me ilumina!

A cruz bendita, que aterra o vício,
Fogueira ardente do sacrifício.

Adeus, da vida sagrados laços...
Adeus, ó lírios de meu sacrário!
A Cruz, no monte, mostra-me os braços...
Eu vou subindo para o Calvário.

Ficai no vale, pobres irmãos,
Da vovozinha beijando as mãos.

E se ela, inquieta, com a voz tremente,
Ouvindo as aves pela manhã,
Interrogar-vos ansiosamente:
“Que é do sorriso de vossa irmã?”

Dizei, alegres: “Foi passear...
Foi colher flores para o Altar”

E, quando a tarde vier deixando
Nos lábios todos saudosos ais,
Ea pobre santa falar chorando:
“A minha neta não volta mais?”

Dizei, sem prantos:“A tarde é linda...
Anda nos campos, brincando ainda”

Livrai su'alma do frio açoite
Das ventanias que traz o Inverno...
Cerrai-lhes os olhos, na grande noite,
Na noite imensa do sono eterno.

Anjo da guarda, de rosto ameno;
Mostra-me o trilho do Nazareno…

E... Adeus, ó lírios do meu sacrário,
Que eu vou subindo para o Calvário.


SOUZA, Auta de. “No Horto”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 41.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)