Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

 


Marca d'água

Crime na Calle Relator

 


“Achas que matei minha avó?
O doutor à noite me disse:
ela não passa desta noite;
melhor para ela, tranquilize-se.

À meia-noite ela acordou;
não de todo, a sede somente;
e pediu: Dáme pronto, hijita,
una poquita de aguardiente.

Eu tinha só dezesseis anos;
só, em casa com a irmã pequena:
como poder não atender
a ordem da avó de noventa?

Já vi gente ressuscitar
com simples gole de cachaça
e arrancarse por bulerías
gente da mais encorujada.

E mais: se o doutor já dissera
que da noite não passaria,
por que negar uma vontade
que a um condenado se faria?

Fui a esse bar do Pumarejo
quase esquina de San Luís;
comprei de fiado uma garrafa
de aguardente (cazalla e anis)

que lhe dei cuidadosamente
como uma poção de farmácia,
medida, como uma poção,
como não se mede a cachaça;

que lhe dei com colher de chá
como remédio de farmácia:
Hijita, bebí lo bastante,
disse com ar de comungada.

Logo então voltou a dormir
sorrindo em si como beata,
um semissorriso de gracias
aos santos óleos da garrafa.

De manhã acordou já morta,
e, embora fria e de madeira,
tinha defunta o riso ainda
que a aguardente lhe acendera.”


MELO NETO, João Cabral de. “Crime na Calle Relator”. In: Poesia Completa. Organização de Antônio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020, p. 812.

 


Marca d'água

As infundiosas

 


1.

Eram três irmãs andaluzas,
da imensa maioria viúva.
Duas delas eram mães de artistas
(a filha sem dons também vinha).
É Utrera, e andaluza é a tarde
quando a literal irmandade
na casa de uma se reunia
a celebrar a mesma missa.

2.

O introito da missa o inicia
a que não possui filha artista:
“Loucura, soltar por Sevilha
as meninas” (Iam nos trinta).
“Quem sabe, depois de Sevilha,
dá-lhes por Madrid, pelas Índias?
Eu cá não deixo filha minha,
fosse artista, seguir as primas.”

3.

As duas outras, mães de artistas,
com paciência seguem a missa:
“Deixar filhas soltas no mundo!”.
Pensam: mãe de artista, no fundo,
coisa de bem — ou maldição,
coisa ambígua de sim e não,
há que aceitar: é uma em cem mil
essa paralisia infantil.

4.

(Conheci bem as três artistas;
eram todas minhas amigas.
Cantoras geniais todas três,
quando por cantes de Jerez.
Duas eram de ir para o frade
para quem é dura a castidade;
e as más línguas, a que era bela,
faziam correr que era lésbica.)

5.

Após pesar os riscos mis
das meninas pelos Madrids,
a missa das viúvas de Utrera
muda o sermão que se boceja.
“Agora, falar com infúndios;
a verdade é para os defuntos.”
E põem-se a falar faz de conta,
que é a verdade que não tem contras.

6.

não se lembram, nem das am“Agora só vai de Rolls-Royce
meu marido” (do eito da foice).
“Pois o meu chegou de avião,
não sei se da França ou Japão.”
“No almoço, Manolo me disse
que vai de férias ao Recife.”
(Então das filhas ameaçadas,
eaças.)

7.

A inspiração é sempre curta
e tanto mais quando é gratuita.

Esgotam-se os infúndios ricos
que ocorreriam aos maridos;
nem querem infúndios de pobre,
já lhes basta a vida de cobre;
nem maridos têm elas mais,
não mortos de touro, de olivais.

8.

Às vezes, infúndios volviam:
agora a grandeza é das filhas.
“Rocío me escreveu que ela ia
bailar na Arábia dos Sauditas.”
“Isso está afastado da Espanha;
lá não chega a Virgem de Triana.”
“Mas Rocío sabe de golpes
que nenhum mouro desses pode.”

9.

“O contrato da Antônia minha
parece que a leva até Olinda,
depois Rio, Peru, e enfim
Cachoeiro de Itapemirim.”
“E o que querem que assine Regla
leva-a de avião à Inglaterra;
depois, a duas Alemanhas,
quatro Suíças, três Irlandas.”

10.

Ficavam nisso horas sem conta,
na conversa ou missa de pompas.
Visitá-las era ir a um teatro
que o espectador vive do palco.
Tinha a visita de ir à mesa

e tomar parte na conversa,
e quase sempre alimentá-la
com infúndios da própria lavra.


MELO NETO, João Cabral de. “As infundiosas”. In: Poesia Completa. Organização de Antônio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020, p. 816.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista:Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)