Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Alberto de Oliveira (1859-1937)


Marca d'água

Morta

Enquanto ao pé do leito em que Emma adormecida
Jaz no sono final, a mãe que se desvaira
Palpa do coração a angustiosa ferida, —
A alma, a força que há pouco a animara na vida,
De azas abertas no ar sobre o cadáver paira.

Enche-a, fala vibrar num secreto arrepio
O assombro que lhe causa o ter de, só, talvez,
Ir bater do mistério ao penetral sombrio;
E antes de remontar lança a esse corpo frio
O seu saudoso olhar pela última vez.

— Carne que tanto amei, doce prisão! — murmura,
Adeus! sozinha vou deixar-te no abandono.
Eis a hora fatal em que a serena altura
Sobe o espírito, e desce o corpo à sepultura,
Onde há de apodrecer no derradeiro sono.

Inda um momento, — e em seu subterrâneo esconderijo
Onde a espreitar quem vem há séculos estão,
Os vermes sentirás, no insano regozijo,
Aos cardumes ferver sobre teu peito rijo,
Da matéria operando a decomposição.

E nessa hora, talvez, de minha eternidade,
(Console-te isto) a voar no turbilhão fecundo
Dos seres, eu terei uma vaga saudade,
Lembrando que feliz a tua mocidade!
Que ânsia de rir ao sol em teu olhar profundo!

De lá, repetirei, — como a canção magoada
Com que alguém se distrai, longe de seu país,
Este eco de mim mesma — a voz! que, apaixonada,
Como um sopro, agitava a rosa ensanguentada
De teus lábios, que abrir a um movimento eu fiz.

De lá, como é de crer a delicada essência,
Que do espaço através leva a aragem comsigo,
Anda a flor a lembrar onde teve a existência:
Eu me recordarei, em minha eterna ausência,
Dos momentos da terra em que vivi contigo.

Era eu que ao pôr do sol, pelas tardes saudosas,
Fazia de teu seio a curva palpitar,
Eu te esculpi do tronco as linhas flexuosas
E às faces te accendi aquellas duas rosas
Que-ora ao frio da morte acabam de esmaiar.

[...]

Se então, da luz do oriente à agonia da tarde,
Tu te estorceste em vão entre angústias mortais,
Se eu não te satisfaz a ânsia rebelde que arde,
É que por uma lei, — que eu respeitei covarde
E é contra a natureza, — era impossivel mais!...

E assim vieste a morrer, virgem do humano tacto,
Entre arrancos de dor abafando o teu hino...
— Tal nasce ao pé da noite e á noite mesmo, intacto,
Murcha, unindo num feixe as pétalas, o cacto,
E a essência virginal entrega ao seu destino.

E ora... Mas com que fim dar a este corpo inerte
Tanto apreço?! Demais, ó carne, onde vivi,
Vais tomando outra cor, entras a desfazer-te,
E doi-me a confissão — já me repugna ver-te,
Cheiras mal, e é mister que eu me afaste daqui.

Mãe, angustiada mãe! foi nessa hora suprema
Que, a prece interrompendo onde o sofrer transvazas,
Ouviste perpassar — como a harmonia extrema
De uma extincta canção — sobre o cadáver de Emma,
Nas cortinas do leito, um movimento de asas…


OLIVEIRA, Alberto de. “Morta”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 338.

 


Marca d'água

Pobre mãe!

Olhos fitos na altura, — enquanto morre.
A tarde, enquanto à flor do firmamento
Correm as nuvens, — como as nuvens, corre.
Até junto de Deus teu pensamento.

Ao filho enfermo, nesse atroz momento,
Pedes que ele socorra; e enquanto escorre...
O pranto, da oração no exaltamento,
Mãe sublime, supõe que ele o socorre.

Mas um grito de súbito no centro
Ouves do coração pressago. Ansiando
Entras em casa. O filho está lá dentro

Morto, e ao beijá-o lhe ouves ainda, ó louca!
De teu nome saudoso o rumor brando
Das derradeiras syllabas à boca.


OLIVEIRA, Alberto de. “Pobre mãe!”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 124.

 


Marca d'água

À Minha mãe

Talvez se abriu com a luz da tua aurora.
Um sol de amor, teu santo olhar dourando;
Foste bella, talvez, — triste e pensando,
És hoje a mãe que em desespero chora.

Nessa adorada face, que descora
Hoje a vigília e as rugas vão sulcando,
Viu meu púe essa luz que ainda agora
Vae seu pallido inverno alumiando.

E amaste e foste amada, e mãe na vida
Não houve nunca que as feições maternas
Mais elevassem, desse amor nascida;

Pois com teu sábio exemplo nos governas,
E nós beijamos essa face ungida
E orvalhada de lágrimas eternas.


OLIVEIRA, Alberto de. “À minha mãe”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 22.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)