Cantos Populares do Brasil (1883)
A mutuca
Hoje eu fui por um caminho
E topei um gavião
Com a mutuca no chapeu,
Moriçoca no calção.
Encontrei um persevejo
Montado n'um caranguejo,
Caranguejo de barrete,
Moriçoca de balão.
Homem velho sem ceroulas
Não se trepe em bananeira;
Mulher velha alcoviteira,
Toda gosta de funcção.
Arrepia sapucaia,
Sambam baia;
Manoel Pereira
Macacheira,
Manipeira.
O teu pai era ferreiro,
O meu não era ;
Tua mãi toca folles,
Meu amor,
Para tocar alvorada
Na porta do trovador.
ROMERO, Sylvio (org.). “A mutuca”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.47.
A polka
Quem quizer que danse a porca
Com seus quartos arrufados ;
Os amantes gostam d'isto,
Ficam todos derrotados.
A saudade do toucinho
Fez matar a minha po1·ca;
Choram, choram bacorinhos,
Que a sua mãe já está morta.
ROMERO, Sylvio (org.). “A polka”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 205.
Décima grande da obra do firmamento
Quando o Senhor formou
A obra do firmamento,
Obra de tanto talento
E juizo;
Formou também um paraíso,
De árvores e flores composto,
Tudo de summo gosto
E perfeição.
E para guarda fez Adão,
E de sua cósta a mulher;
E Deus depois lh' arefere
Assim:
-Fica-te n'este jardim,
De delícias guarnecido,
E olha bem que és o marido
De Eva. -
Adão todo se enleva
Por se vêr acompanhado ;
Logo foi aconselhado ·
Pelo Senhor:
-Tudo fl ca a teu dispôr,
Tudo te ha-ele ter respeito,
Porém, guarda o preceito,
E escuta:
Comerás ele toda a fruta,
Sem que haja prejuízo;
Mas agora é bem preciso
Que te explique,
Para qJ!I e em tua memória fique,
E gozes com previnencía :
Só da arvore da sciencia
Do bem e mal;
Olha que é culpa mortal
Se te tal acontecer …
Olha que has-de morrer
Na verdade. -
A serpente com maldade
Eva foi logo atentar,
E ella facil foi pegar
No pomo;
E do qual partiu um gomo
E ao seu marido offereceu;
E Adão da fructa comeu
Também.
Ambos jgual culpa teem,
Eva e ') seu consorte;
Ficaram sujeitos á morte
Chorando.
Apparece o Senhor bradando:
-Adão! onde estás metido? -
«Senhor, estou escondido
Com vergonha.
-Oh! que terrível, medonha,
Foi tua culpa commettida!
Acabou-se a boa vida
Que ti vestes.
<<Senhor, a mulher que me déstes
Cá me veiu enganar ...
-Vem cá, oh Eva, explicar
De repente.
- «Senhor, a maldita serpente
De certo me enganou!>>-
E o Senhor por ella bradou
Devéras:
- Oh maldita entre as feras!
Eu te deito a maldição ...
Andarás tu pelo chão
De rastos,
Comendo hervas e pastos,
E a terra para alimento ;
Ella será teu sustento,
Malvada!
Tu, Adão, com tua enxada
A terra cultivarás;
E tu, Eva, parirás
Com dôr.
Nada fica ao teu favor,
.lá que a vontade fizeste;
Assim perdeste o celeste
Agasalho.
Tu, Adão, com teu trabalho
Ganharás para comer,
E Eva te ha-cle obedecer,
A rasão direita.
Aqui ficarás sujeita;
Tu, Adão, a dorminarás,
E te multiplicarás
Com ella. -
Perderam, pois, a cape lia
Qu e o Senhor lhe houve guardado,
Tudo causa elo peccado ·
Horrendo.
Alli ficaram vivendo
E o seu peccado chorando,
Ambos supplicando
Perdão.
Aqui abateram então.
Logo Eva concebeu,
Foi quando o Senhor lhe deu
Caim. Este foi um filho ruim,
Muito tyranno e cruel;
Ao depois lhe deu Abel,
Pastor.
Este foi um resplendor
De voto e de castidade;
Porém Caim com falsidade
O matou.
E o Senhor p'ra elle olhou,
Depois que elle fez o mal,
Pondo-lhe logo um signal
De preto.
Portanto, ficou sujeito
A eterna escuridão,
Negro como um tição
De lume.
Acabou-se-lhe o ciume
Que tinha com seu irmão;
E augmentou-se a geração
Dos peccadores.
E já isto, meus senhores,
Tem durado de tal sorte
Que só finda quando a Morte
Vem.
Ella não respeita a ninguem,
Leva a todos por parelha,
Nós temos bem o espelho
A vista.
Não ha pessoa que resista
Nem o mesmo padre santo,
Que ella leva a quanto
Tópa.
Todos que estão na Europa,
As mesmas pessoas reaes,
Os bispos e cardeaes
Vai levando.
E também de quando em quando
Reis, príncipes e monarchas;
Até mesmo os patriarchas
Levou.
Pois um Deus que nos creou
Quiz pela morte passar,
Corno havemos de escapar
Á espada?
Ella é certa e pouco esp'rada,
Da morte tudo se esquece;
Mas por fim tudo padece
Este lance.
Todos passamos o transe
Da morte com afflicções,
Que os mais santos corações
Padeceram.
Aquelles perfeitos morreram :
Em vizo de santidade,
Um Larné, um na verdade
Que é:
O pai do grande Noé,
Um Abrahão glorioso,
Seu filho prodigioso
Isaac;
Os habitantes de Israc,
Paes e irmãos de Luc1im,
Aquelle Labal Caim
Trabalhador ;
Um Nabucodonosor,
Mais aquelle santo Job,
Um admiravel Jacob
De Israel; ·
Adão, seu filho Ijabel,
O grande Melchisecleque,
E aquelle bom Ab-Meleque
E eu isto tudo direi,
Certifico e assim é :
Lá tambem morreu José
No Egypto.
Tudo isto está escripto;
E nada pode faltar :
Tambem morreu Putifar
Sacerdote.
Morreu aquelle justo Loth,
E tudo que era egyptano,
Morreu o rei soberano
Pharaó.
E não foram esses só :
Também morreu Batuel,
Agar, mais Ismael
Seu filho .
De nada eu me maravilho:
também morreu lzacar,
E o seu filho Soar
Tambem;
Filhos, irmãos de Rubem,
Os moradores ele Babel,
E os fundadores ele Batel
Passaram .
Nenhuns do transe escaparam
Da vil morte com destreza . . .
Ella vem com subtileza
E mata.
Segundo a Escriptura relata,
De certo que a ninguém perdôa :
Leva o sceptro e leva a corôa,
E tudo mais.
Não respeita cabedaes,
Tudo leva por igual ,
Tambem leva o general
E o brigadeiro.
E morre quem tem dinheiro,
P'r'a morte não ba penhor;
também morre o governador
Na praça .
Morre tudo quanto passa
Esta vida com rigores;
Morrem padres, confessores,
Que esLão
Lá em sua religião
Orando a Sam Miguel;
Tambem morre o coronel
Do regimento ;
Morrem alferes, sargento,
O soldado e o capiLão ;
Morrem aquelles que estão
Na enxovia
Morre toda a fidalguia;
Morre o pobre e o abonado,
E o ser muito endinheirado .
Não faz;
Morre o velho e o rapaz ;
Morre tudo sem remissão ;
Tambem morre o guardião
No convento.
Morrem no acampamento
Tambores e mais soldados;
Morre nos mares salgados
Marinheiro;
Tambem morre o escudeiro,
O medico e o surgião;
Tambem morre o escrivão
E o juiz.
Segundo a Escriptura diz,
Só dois foram escapados,
Elias e Enoc chamados
De certo.
Tem morrido no deserto
Aquelles santos levitas,
E o povo dos israelistas
Fallece.
A morte ninguem conhece:
Morreu o sabio Salomão
E o valoroso Samsão
Gigante;
Morre o leigo e o estudante,
Tambem morre o embaixador;
Morre aquelle lavrador
Que anda
De uma para outra banda
A lua vida girando,
De modo que vá ganhando
P'ra passar,
Sem a morte lhe lembrar,
E ella já batendo á porta,
Que de repente lhe bota
A mão.
Muitos leva sem confissão,
Pois isto me faz tremer,
Vendo podermos morrer
Sem sacramento,
Nem signaes de arrependimento,
Sendo a morte de repente ...
Pois valei-me o omnipotente
Deus.
Tudo são peccados meus
De que eu tenho de dar conta
A Deus, e sempre com prompta
Vontade.
Pois Deus é de piedade;
Aquelle doce Jesus,
Está c'os braços na cruz
Pregados!
Tudo por nossos peccados
Padeceu morte e paixão!
E nós com ingratidão
O tratamos!
Assim é que lhe pagamos
Todo o bem que elle nos faz ;
Mas, lá no Val de Josaphaz
Veremos
As contas que cada um demos,
Lá no dia universal,
Quando o Senhor der a final
Sentença.
Os bons com gloria immensa,
E os máos sentenciados,
Para serem abrazados
No inferno!
Eu peço ao Padre Eterno…
Valha-me todo o christão
N'esse dia de afllicção
E amarguras.
Abriram-se as sepulturas
C'os corpos resuscitados,
Sendo de novo formados
Como d'antes!
E as boas obras brilhantes
Na presença do Salvador;
E os máos serão com rigor
Tratados.
Ali darão, Senhor, brados,
Bradando só por Elias,
Segundo as prophecias
Rezam.
Ali veremos como prezam
Boas obras que fizemos,
E os peccados que commettemos
N'esta vida.
Mas oh! que terrível lida!
Oh! que cegueira fatal !
Sendo este mundo um val
De enganos? !
Vive um homem tantos annos
N'esta vida engolfado,
Muitas vezes só obrigado
Se confessa.
Não se lhe dá que se esqueça
D'aquella santa doutrina,
Que a egreja sempre ensina
Aos fieis.
São os homens tão crueis .. .
Só se enlevam em modiças .. .
Só ouvem algumas missas
Por comprazer.
Ás vezes vão lá p'ra 'êr
Moças da sua affeição,
Se levam trajo ou não
A seu gosto.
Se levam lenço bem posto,
Boa meia e bom sapato,
Se tem capote e mais fato
À moda.
E outros mettem-se na roda,
Que estão de quando em quando,
E vão sempre murmurando
Dos mais.
Vão os filhos com os paes
Beber vinho a uma adega,
Se o dinheiro lhes não chega
Pedem fiados.
'Stando os paes embebedados
Dizem, a cambalear,
Aos filhos:- Vamos jogar
Ao Vento .
Oh! que máo educamento !
Oh! que triste creação!
Eis porque os filhos são
Malcreados.
Mas se estes são casados,
Teem filhos p'ra governar,
Teem-lhes por certo a faltar
Co'o sustento.
Tudo serve de tormento
Ás mulheres, se são honradas,
Muitas vezes já cançadas
De bradar.
Apparece para o jantar,
Sabe Deus quando Deus quer,
Uma côdea p'r'a mulher,
Se lh'a dão.
Os maridos, sem discrição,
As levam aos encontrões,
Quando não lhes dão bofetões
Pela cara.
Amigo do jogo, repara,
Mette a mão n'este painel,
E recolhe-te ao quartel
Da saude.
E pede a Deus que te mude
Essa terrível cegueira,
Que é saude p'r'a algibeira
Do cobre.
Tudo que a mão descobre,
E esse vicio infernal,
Fazem perder o signal
Do céo.
Isto vae ele déu em déu,
E assim domingos passemos,
De modo que sempre busquemos
Divertimentos.
Vai-se tempo e sentimentos
Nos dias santificados,
Que Deus deixou destiuados
P'r'o descanço.
P'ra adorar o cordeiro manso
Na sua santa egreja;
Mas a ira de Deus peleja
Com razão
Contra a pouca devoção
Que tem á casa sagrada;
Tanto monta como nada
Rezar.
Não póde a Deus agradar
Esta pouca desciencia:
Devemos com reverencia
Adorai-o.
Devemos todos abraçai-o
E a seus santos mandamentos,
P'ra livrar-nos dos tormentos
Que passou.
P'lo sangue que derramou
Pela rua da amargura,
Tudo para a creatura
Remir.
Devemos todos pedir
Á virgem Nossa Senhora
Seja a nossa protectora
Em morrendo;
Em quanto formos vivendo
N'este mundo desgraçado,
Tenha sempre o seu cuidado
Em nós.
Pois ouvi, Senhor, a voz
D'este vosso filho ingrato,
Cuja ingratidão relato
Agora!
Valei-me n'aquella hora
Da morte que ha-de chegar,
Valei-me em quanto viver,
Valei-me depois de morrer,
E esta vida findar.
ROMERO, Sylvio (org.) “Décima grande da obra do firmamento”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p.143-155.
Fragmento do cabelleira
- Fecha a porta, gente;
Cabelleira ahi vem,
Matando mulheres,
Meninos Lambem.
Corram, minha gente,
Cabelleira abi vem,
Elle não vem só,
Vem meu pai tambem.
«Meu pai me pediu
Por sua benção
Que eu não fosse molle,
Fosse valentão.
Lá na mínha terra,
Lá em Santo Antão,
Encontrei um homem
Feito um guaribão,
Puz-lhe o bacamarte,
Foi pá, pi, no chão.
Minha mãi me deu
Contas p'ra rezar,
Meu pai deu-me faca
Para eu matar.
Quem tiver seus filhos
Saiba-os ensinar;
Vejo o Cabelleira
Que vai a enforcar.
«Meu pai me chamou:
- Zé Gomes, vem cá;
Como tens passado
No cannavial?
<<Mortin ho de fome,
Sequinho de sêde,
Só me sustentava
Em canninhas verdes.
- Vem cá, José Gomes,
Anda-me contar
Como te prenderam
No cannavial?
<<Eu me vi cercado
De cabos, tenentes,
Cada pé de canna
Era um pé de gente.
ROMERO, Sylvio (org.). “Frangmento do cabelleira ”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.70-71.
Fui eu que plantei a palma
Fui eu que plantei a palma
No caminho elo sertão ;
Nasceu-me a palma na mão
E a raiz no coração.
Abaixai-vos, limoeiro,
Quero tirar um limão,
Para tirar uma nodoa
Que trago no coração.
A malvada cozinheira,
Com sua fita amarella,
Com sentido nos amantes,
Deixou queimar a panella.
Você diz que não ha cravo
Na Villa de Paraty,
Inda hontem vi um cravo
No peito de Joaquim.
Fui eu que errei o verso,
Minha cabeça virou ;
Virei p'r'a banda das moças
E o tiro me acompanhou.
Eu já fui mestre de campo
E campeiro na campina;
Quem é mestre tambem erra,
Quem erra tambem se ensina.
Ja fui pasto, ja pastei
Pasto de muitas ovelhas,
D'aquellas que vestem saias,
Botam brinco nas orelhas:
O meu peito está fechado,
A chave está em Lisboa;
O meu peito não se abre
Se não a vossa pessoa.
Abaixai-vos, serras altas,
Quero vêr Guaretinguetá,
Quero vêr o meu bemzínho
Nos braços de quem está.
Appareça, não se esconda,
Sua cara bexigosa ;
Cada bexiga seu cravo,
Cada cravo sua rosa.
A laranja tem dez gomos
Todos debaixo da casca ;
Amor, não me deis mais penas,
Que as que tenho já me basta.
Me pediste uma laranja,
Meu pai ·não tem laranjal;
Si queres um limão doce,
Abre a bocca, toma lá.
O annel que vós me déstes
Era de vidro, quebrou-se;
O amor que tu me tinhas
Era pouco, já acabou-se.
Minha mãe, case-me logo,
Casadinba quero ser,
Eu não sou sóca de cana,
Que morre e torna a nascer.
Minha mãe, case-me logo
Em quanto sou rapariga;
Depois não venha dizendo
Que estou com o peito cabido.
Encontrei com meu benzinho
Encostado n'uma pedra.
Uma mão chega não chega,
E a outra péga não péga
Os meus olhos ele chorar
Já perdeu claridade,
De chorar continuamente,
Bemzinho, a tua saudade.
Eu fui que nasci no ermo
Entre dois cravos mirantes,
Dai-me uma gota ele leite
D'esse vosso peito amante.
Eu nasci sem coração,
Não sei como hei-de viver;
Menina, me dai o vosso
P'ra no meu peito trazer.
Os gallos estão cantando,
Os passarinhos também;
Já ahi vem o claro dia
E aquella ingrata não vem.
ROMERO, Sylvio (org.). “Fui eu que plantei a palma”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 263.
Juliana
-Deus vos salve, Juliana,
No teu estrado assentada.
«Deus vos salve, rei Dom Jóca,
No teu cavallo montado.
Rei Dom Jóca, me contaram
Que tu estavas p'ra casar?
Quem t'o disse, Juliana,
Fez bem em te desenganar.
«Rei Dom Jóca, se casaes
Tornai ao bem querer,
Poderás enviuvar
E tornar ao meu poder.
-Eu ainda que enviuve
E que torne enviuve
Acho mais facil morrer
Do que comtigo casar.
« Espera ahi, meu Dom Jóca,
Deixa subir meu sobrado,
Vou vêr um copo de vinho
Que p'ra ti tenho guardado.
- Juliana, eu te peço
Que não faças falsidade.
Vejaes que somos parentes,
Prima minha da minha alma.
Que me déste, Juliana,
N'este copinho de vinho,
Que estou com a rédea na mão,
Não conheço o meu caminho?
A minha mãi bem cuidava
Que tinha seu filho vivo.
<<A minha tambem cuidava
Que tu casavas commigo.
- ó meu pai, senhora mãi,
Me bote sua benção,
Abrace bem apertado
O meu maninho João.
Meu pai, senhora mãi,
Me bote a sua benção;
Lembranças á Dona Maria,
Tambem á Dona Cellerencia.
A minha alma entrego a Deus,
O corpo á terra fria,
A fazenda e o dinheiro
Entregue a Dona Maria.
- « Cale a bocca, meu Dom Jóca,
Ponde o coração em Deus,
Que este copo de veneno
Quem te ha de vingar sou eu.
-Já acabou-se, já acabou-se,
ó flôr de Alexandria !
Com quem casará agora
Aquella moça Maria?
Já acabou-se, já acabou-se,
Já acabou-se, já deu fim.
Nossa Senhora da Guia
Queira se lembrar de mim;
ROMERO, Sylvio (org.). “Juliana”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 36-37.
Na praia da itatinga”
Na praia da Itatinga
Eu ia morrendo á sêde,
Uma moça me deu agua
No ramo da salsa verde.
Salsa verde na panella
É um tempêro natural;
Quem tem seu amor mulato
Tem gosto particular.
Na outra banda do rio
Não chove, nem faz orvalho ;
Si vós tendes de ser minha
Não me deis tanto trabalho.
Quando meus olhos te viram
Meu coração se alegrou;
Na corrente de teus braços
Minha alma presa ficou.
Lenço branco é apartamento,
Eu que digo é porque sei;
Me vejo apartada hoje
De um lenço branco que dei.
Sapatinho bole, bole,
Na fôrma do sapateiro;
Assim bolem os meus olhos
Quando vêem moço solteiro.
O sol quando vem sahindo
Pede licença ao amor
Para estender os seus raios
Por cima da bella flôr.
O sol quando vai entrando
Leva o seu relogio dentro;
Elle vai marcando as horas
D'este nosso apartamento.
Fui na fonte beber agua
Por baixo de urna ramada,
Sómente para te vêr,
Que a sêde não era nada.
Fui no rio lavar roupa
Me sahiu o sol por engano;
Tanto lava a mulatinha,
Que até no lavar tem fama.
Não me atíres com pedrinhas
Qu'eu estou lavando loiça ;
Atira devagarzioho
Que papai, mamãi não oiça .
O capitão cheira cravo,
Marinheiro cheira canella ;
Mais Yale um filho de fóra,
Do que dozentos da terra.
ROMERO, Sylvio (org.). “Na praia da itatinga ”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 254.
O bernal francez
<<Quem bate na minha porta,
Quem bate, quem está ali?
-É Dom Bernaldo Francez
A sua porta mande abrir.
No descer da minha cama
Me cahiu o meu chapim ;
No abril da minha porta
Apagou·se o meu candil.
Eu levei-lhe pelas mãos,
Levei-o no meu jardim;
Me puz a lavar a elle
Com agua de alecrim ; .
E eu como mais formosa
Na agua de Alexandria.
Eu lhe truxe pelas mãos,
Levei-o na minha cama.
Meia noite estava dando.
Era Dom Bernaldo Francez ;
Nem sonava, nem movia,
Nem se virava p'ra mim.
<<O que tendes, Dom Bernaldo,
O que tendes, que imaginas ?
Si temes de meus irmãos,
Elles estão longe de ti;
Si temes de minha mãi,
Ella não faz mal a ti ;
Si temes de meu marido,
Elle está na guerra civil.
-Não temo dos teus irmãos,
Qu'elles meus cunhados são;
Não temo de tua mãi,
Qu'ella minha sogra é;
Não temo de teu marido,
Qu'elle está a par comtigo.
<<Matai-me, marido, matai-me,
Qu’eu a morte mereci;
Si tu eras meu marido
Não me dava a conhecer.
-Amanhã de p’ra manhã
Eu te darei que vestir;
Te darei saia de ganga,
Sapato de berbatim;
Trago-te punhal de ouro
Para te tirar a vida…
…………………………………..
O tumulo que a levav
Era de ouro e marfim;
As tochas que acompanhavam
Eram cento e onze mil,
Não fallando de outras tantas
Que ficou atraz p’ra vir.
<<Aonde vai, cavalleiro,
Tão apressado no andar?
- Eu vou vêr a minha dama
Que já ha dias não a vejo.
«Volta, volta, cavalleiro,
Que a tua dama já é morta,
É bem morta que eu bem vi,
Si não quereis acreditar
Vai na capella de São Gil.
-Abre-te, terra sagrada,
Quero me lançar em ti.
<< Pára, pára, Dom Bernaldo,
Por mode ti já morri>>
-Mas eu quero ser frade
Da capella de São Gil;
As missas que eu disser
Todas serão para ti
<< Não quero missas, Bernaldo,
Que sãó fogo para mim :
Nas filhas que vós tiver
Botai nome como a mim ;
Nos filhos que vós tiver
Botai nome como a ti.
ROMERO, Sylvio (org.). “O bernal francez”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p.5-7.
O boi-espacio
Eu tinha meu Boi-Espacio,
Qu'era meu boi cortelleiro,
Que comia em tres sertão,
Bebia na cajazeira,
Malhava lá no oiteiro,
Descançava em Riachão
Eu tinha meu Boi Espacio,
Meu boi preto carauna;
Por ter a ponta mui fina,
Sempre fui, botei-lhe a unha.
Estava na minha casa,
Na minha porta assentado;
Chegou seu Antonio Ferreira,
Montado no seu rução,
Com o irmão de Damião,
Montado no seu lazão,
Dizendo de coração:
-Botai-me este boi no chão.
Gritei pelo meu cachorro,
Meu cachorro Tubarão :
«Agora, meu boi, agora,
Faz acto de contrição !
Êcô, meu cachorro, êcô
No curral da Piedade
Eu dei r.om meu boi no chão.
Ao depois do boi no chão,
Chegou o moleque João,
Se arrastando pelo chão,
Fazendo as vezes de cão,
Pedindo o sebo do boi
P'ra temperar seu feijão.
A morte d'este meu boi
A todos fizera pena;
Ao depois d'este boi morto,
Cabou-se meu boi, morena.
<<No anno em que eu nasci,
No outro que me criei,
No outro que fui bezerro,
No outro que fui mamote,
No outro que fui garrote,
No outro que me caparam
Andei bem perto da morte.
«Minha mãi era uma vacca,
Vaquinha de opinião;
Ella tinha o ubre grande
Que arrastava pelo chão.
Minha mãi era uma vacca,
Vaquinha de opinião;
Emquanto fui bari.Jatão
Nunca entrei em curralão.
Estava no meu descanço
Debaixo da cajazeira,
Botei os olhos na estrada,
Lá vinha seu Antonio Ferreira…
Estando n'uma malhada
Já na sombra recolhido,
Logo que vi o Ferreira
Alli achei-me perdido.
Foi-me tudo ao contrario,
E sempre fui perseguido;
Já me conhecem o rasto,
O Boi-Espacio está perdido.
Não tem a culpa o Ferreira,
Que não me pôde avistar,
Foi o caboclo damnado
Que parte de mim foi dar.
O seu Antonio Ferreira
Tem tres cavallos damnados:
O primeiro é o ruço,
O segundo é o lazão,
O terceiro é o Piaba ...
Tres cavallo endiabrados!
Mas eu não temo cavallo,
Que se chama o Deixa-fama;
Tambem não temo o vaqueiro
Que derrubei lá na lama.
Me metteram no curral,
Me trancaram de alçapão ;
E bati n'um canto e n'outro,
Não pude sahir mais não!
Adeus, fonte onde eu bebia,
Adeus, pasto onde comia,
Malhador onde eu malhava;
Adeus, ribeira corrente,
Ad eus, caraíba verde,
Descanço de tanta gente!...
O couro do Boi-Espacio
Deu cem pares ,de surrão,
Para carregar farinha
Da praia de Maranhão.
O fato do Boi-Espacio
Cem pessoas a tratar,
Outras cem para virar ...
O resto p'ra urubusada.
O cebo do Boi-Espacio
D'elle fizeram sabão
Para se lavar a roupa
Da gente lá do sertão.
A língua do Boi-Espacio,
D'ella fizeram fritada;
Comeu a cidade inteira,
Não foi mentira, nem nada.
Os miolos do Boi-Espacio,
D'elles fez-se panellada;
Comeu a cidade inteira,
O resto p'ra cachorrada.
Os cascos do Boi-Espacio,
D'elles fizeram canôa,
Para se passar Marôtos
Do Brazil para Lisboa.
Os chifres do Boi-Espacio,
D'elles fize'ram colhér
Para temperar banquetes
Das moças de Patamuté.
Os olhos do Boi-Espacio
D'elles fizeram botão
Para pregar nas casacas
Dos moços lá do sertão.
Costellas do Boi-Espacio,
D'ellas se fez cavador
Para se cavar cacimbas;
De duras não se quebrou
O sangue do Boi-Espacio
Era de tanta excepção
Que afogou a tres vaqueiros,
Todos tres de opinião.
Canellas do Boi-Espacio,
D'ellas se fizera mão
Para se pizar o milho
Da gente lá do sertão.
E da pá do Boi- Espacio,
D'ella se fez tamborete
Para mandar de presente
A nosso amigo Cadete.
Do rabo do Boi-Espacio,
D'elle fizeram bastão
Para as velhas lá de cima
Andar com elle na mão.
ROMERO, Sylvio (org.). “O boi espacio ”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.79-81.
O jaburu
Quando eu vim do Jaburú
Fui á noite passear,
Encontrei com cirysinho
Carregado de araçá ;
E fallei para comprar
Para dar á mãi Thereza.
Como foi maracareza
Engordar o meu vintem …
As meninas do Bugio
Não comem sinão feijão?
Meus senhores e senhoras,
Desculpai a minha acção.
ROMERO, Sylvio (org.). “O jaburú”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.62.
O josé do valle
- Minha mãi, assuba,
Falle como gente ;
Assuba a palacio,
Falle ao presidente.
Pegue na cabocla,
Dê-lhe com bordão,
Qu'ella foi a causa
Da minha prisão.
A minha prisão
Foi ao meio dia,
Nas casas extranhas
Com grande agonia .
Morto á fome,
Morto á sêde,
Só me sustentava
Em caninha verde.
–<< Dona, por aqui?
Grande novidade ...
<<Vim soltar um preso
Cá n'esta cidade …
Senhor presidente,
Que dinheiro vale?
Tenho duzentos contos
Por José do Valle .
–<<Dona, vá-se embora,
Qu'eu não solto, não;
Que seu filho é mau,
Tem ruim coração;
Matou muita gente
Lá n'esse sertão;
Da minha justiça
Não faz conta, não.
«Tenho meu lacaio
De minha estimação,
P'ra seu presidente
Não tem preço, não.
Senhor presidente,
Pelo incontinente
Solte Zé do Valle,
Pelo Sacramento !
Senhor Presidente, -
Não abra a porta, não;
' Si eu cahir na rua,
Faço escalação. . .
-Minha mãi, vá-se embora,
Deixe de cegueira,
Qu'eu hei de ser solto
No Rio de Janeiro.
Quem tiver seu filho
Dê -lhe ensinação,
P'ra nunca passar
Dôr de coração ;
Quem tiver seu filho
Dê-lhe todo o dia,
Ao depois não passe
Dôres de agonia.
Adeus, minha mãisinha,
Mãi do coração ;
Dê lembrança á Anninba,
E a meu mano João;
Mana, vá-se embora,
Guarde o seu dinheiro,
Qu'eu vou me soltar
No Rio de Janeiro.
ROMERO, Sylvio (org.). “O José do valle”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.165-167.
O lobishome e a menina
-Menina, você onde vai?
«Eu vou na fonte.
- Que vai fazer ?
«Vou levar ele comer
Á minha mãesinha >>.
- O que leva nas costas?
<<É meu irmãosinho.
- O que leva na bocca?
<<É cachimbo de cachimbar …
Ai! meu Deus do céo,
O bicho quer me comer,
O gallo não quer cantar,
O dia não quer amanhecer,
Ai, meu Deus do céo! »
ROMERO, Sylvio (org.). “O lobishome a a menina”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 258-259.
O sapo do cariri
No sertão do Càriri
Havia um sapo casado;
Na sêcca de oitenta e quatro
Quasi que morre torrado.
Determinou a mudar-se,
Levando comsigo a Gia,
De cabeça para baixo
Em procura da Bahia.
Segurando a sua trouxa,
Seguiu por Caruarú ;
Logo alli á tardesinha
Deu na casa do teyú.
Sapo: Deus vos salve,· meu senhor,
Dá-me um rancho, por favor?
Teyú: Um rancho não posso dar,
Que o senhor não vem só;
Traz em sua companhia
A sua tataravó.
Sapo : A minha tataravó
Ha muito que já morreu ;
Trago em minha companhia
A mulher que Deus me deu.
E venho muito vexado,
Dona Gia está pejada;
'Stou vendo que dão-lhe as dores
Antes que chegue ao riacho.
Teyu Visto isto, meu senhor,
Entremos cá para dentro;
Eis aqui está um quarto,
Faça ahi seu aposento. >>
Logo alli á madrugada
Deu a dôr em Dona Gia;
Descendo escadas abaixo,
Pariu um sapinho macho.
ROMERO, Sylvio (org.). “O sapo do cariri”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.116-117.
Oh ciranda, oh ciranda
Oh ciranda, oh ciraodinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar;
Vamos dar a volta inteira,
Cavalleiro, troque o par.
Rua abaixo, rua acima,
Sempre com o chapéo na mão,
Namorando as casadas,
Que as solteiras minhas são.
Aqui estou na vossa porta
Feito um feixinho
de lenha,
Esperando pela resposta
Que da vossa bocca venha.
Caranguejo não é peixe,
Caranguejo peixe é ;
Caranguejo só é peixe
Na vasa o te da mar é.
Dá-ri -rá-Já-lálá-lá.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lé. ..
Caranguejo só é peixe
Na vasante da maré.
Atirei com o limãosinho
Na mocinha da janella;
Deu no cravo, deu na rosa,
Bateu nos peitnbos d'ella.
Craveiro, dá-me um cravo,
Roseira, dá-me um botão;
Menina, me dá meu beijo
Qu'eu te dou meu coração.
Minha mãi bem que me disse
Que eu não fosse a função,
Qu'eu tinha meu nariz tórto,
Servia de mangação.
ROMERO, Sylvio (org.). “Oh ciranda, oh cirandinha”. In: _Cantos populares do Brazil|. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 248-249.
Prima pulga
Prima Pulga está doente,
Muquirana está parida,
Meu compadre percevejo
'Stá de espinhela cahida.
Batata. não tem caroço,
Bananeira não tem nó;
Pae e mãe é muito bom,
Barriga cheia é melhor.
ROMERO, Sylvio (org.). “Prima pulga”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 208-209.
Uma moça me pediu
Uma moça me pediu
Um vestido de filó ;
Eu mandei-lhe por resposta:
-Si o couro não é melhor.
Tú-tú-rú-tú-tú
Lá de traz do murundú ...
Teu pai e tua mãi
Que te comam com angú ..
ROMERO, Sylvio (org.). “Uma moça me pediu”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 265.
Xacara de dom Jorge
Dom Jorge se namorava
D'uma mocinha mui bella;
Pois que apanhando servido
Ousou logo de ausentar-se
Em procura d'outra moça
Para com ella casar.
Juliana que d'isto soube,
Pegou logo a chorar,
A mãi lhe perguntou :
-De que choras, minha filha?
«É Dom Jorge, minha mãi,
Que com outra vai casar.
-Bem te disse, Juliana,
Que em homens não te fiasses;
Não era dos primeiros
Que as mulheres enganasse .
- << Deus te salve, Juliana,
No teu sobrado assentada!
«Deus te salve, rei Dom Jorge,
No teu cavallo montado.
Ouvi dizer, rei Dom Jorge,
Que estavas para casar?
-<< É verdade, Juliana,
.Já te vinha desenganar.
« Esperai, rei Dom Jorge,
Deixa eu subir a sobrado;
Deixa buscar um copinho
Que tenho p'ra ti guardado.
-<<Eu lhe peço, Juliana,
Que não haja falsidade ;
Olhe que somos parentes,
Prima minha da minha alma.
<< Eu lhe juro por minha mãi,
Pelo Deus que nos creou,
Que rei Dom Jorge não logra
Esse seu novo amor.
- << Que me deitas, Juliana,
N'este seu copo de vinho?
Estou com as rédeas nas mãos,
Não enxergo meu rucinbo?
Ai, que é do meu paisinho,
Por elle pergunto eu?
Eu morro, é de veneno
Que Juliana me deu.
-Morra, morra o meu filhinho,
Morra contrito com Deus,
Que a morte que te fizeram
a quem vinga sou eu.
- <<Valha-me Deus do céo,
Que estou com uma grande dôr;
A maior pena que levo
É não vêr meu novo amor.
ROMERO, Sylvio (org.). “Xacara de dom Jorge”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.38-39.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)