Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cruz e Sousa (1861-1898)


Marca d'água

Extremos

À minha doce mãe, que desses trilhos vastos
Da vida racional, tem sido o meu bom guia.
Dedico, preso à garra atroz da nostalgia,
O meu bouquet de versos, dentre uns beijos castos.

A ela que, orgulhosa, impávida, resplende,
Seu filho dá-lhe a alma inteira nos olhares.
A ela que aprimora as curvas singulares
Do amor que unicamente a mãe só compreende.

A ela que, dos sonhos flavos que eu adoro,
É sempre esse ideal querido e mais sonoro
Mais alvo que o luar, mais brando que os arminhos.

Embora sob a cúpula azúlea de outros espaços
Dedico os versos meus – atiro-os ao regaço
Assim como um punhado imenso de carinhos.


SOUSA, João da Cruz e. “Extremos”. In: O livro derradeiro. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 64.

 


Marca d'água

Mães

Mães! Sim, as mães são somente aquelas
Que atravessam da vida o mar chorando,
Que vão desamparadas caminhando
Pelo triste calvário das procelas.

Mães! sejam tranquilas, sejam elas
As mães do amor universal e brando,
Tenham o sentimento venerando
Da fé, da crença, celestiais e belas;

Desfraldem elas como um estandarte,
Aqui, ali, além, por toda a parte,
A esperança vital, com todo o brilho;

Que as mães serão as mães da heroicidade
E hão de provar a toda a humanidade
Que só as mães tornam herói um filho!


SOUSA, João da Cruz e. “Mães”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 147.

 


Marca d'água

Os dois

– Minha mãe, minha mãe, quanta grandeza
Nesses palácios, quanta majestade;
Como essa gente há de viver, como há de
Ser grande sempre na feliz riqueza.

Nem uma lágrima sequer – e à mesa
Dentre as baixelas, dentre a imensidade
Da prata e do ouro – a azul felicidade
Dos bons manjares de ótima surpresa.

Nem um instante os olhos rasos d’água,
Nem a ligeira oscilação da mágoa
Na vida farta de prazer, sonora.

– Como o teu louco pensamento expandes
Filho – a ventura não é só dos grandes
Porque, olha, o mar também é grande e... chora!


SOUSA, João da Cruz e. “Os dois”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 90.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)