José Basílio da Gama (1740-1795)
A declamação tragica
TU, qu os costumes nossos melhor que ninguém pintas
Ensina-me o segredo, com que dás alma ás tintas.
Empresta-me as imagens, a quem dão vida as cores,
Quadros, que a tua mão quiz semear de flores.
deixaste as leis dos numeros diversos,
Tu nos deixastes as leis dos numeros diversos,
Despreaux, eu canto a Arte de recitar os versos.
A Dama, qu' em teos muros, magnifica Lisboa,
Esperar ornar a frente co' trágica coroa,
Se quer qu' seos louvores o povo se disvele
Estude o que he Theatro, antes de dar-se á elle.
Aprenda a magoar os insensiveis peitos,
E saiba da sua arte as regras o os preceitos.
Dege pensar, sentir, ou a, balança justa
Do povo ha d’ensinar-lhe hum dia á sua cesta
A Corte De promette conquistas de mil almas,
E para a nobre testa pronta lhe off’rece as palmas.
Do publico o bom gosto segura-lhe a victoria
E abre-lhe hum caminho mais facil para a glória.
Dê nos [ilegível] olhos do seo triumpho efeitos
Tem no Teatro Hum thorono, reta nos nossos peitos.
Vós, que buscaes a gloria, não procureis atalhos,
O placido descanso he filho de trabalhos;
Pizai o ocio vil, que flores tem por leito,
Exercitai a voz, e cultivai o peito.
Lede no coração, sondai a natureza,
Sabei as doces frases da Lingua Portugueza.
Luzir não púde a Dama, que a sua Lingua ignora
A' pezar dos thesoiros, que espallia quem a adóra.
O povo assim que a vê começa a assobiar :
Para fallas em verso, eonvem saber fallar.
Julgai a sangue frio, e examinai por gosto
Que paixões, que caracter exprime o vosso rosto.
N’elle hão de respirar as iras, o furor,
E por seo turno a raiva, o odio, a ambição, o amor
Talvez á enternecer-nos vosso dezejo aspira ?
Fazei com esses olhos, qu' eu na feliz zaira
Veja a cruel batalha de hum peito generoso,
Que perde as esperanças de vir a ser ditoso:
Quando banhando as mãos do pae a quem adora
Prefere ao sco amante hum Deos, que ainda ignoras
Nos papeis furiosos quereis levar a palma:
Pinte o terror dos olhos toda a desordem d'alma
Seja funesta a voz, horrendo e incerto o passo:
vosso rosto o povo leia no breve espaço
Projectos horrorosos, que fórma hu alma impia;
E apenas vos sahis, em vós veja Atalia
Que sobre si ja sente a mao, que chore os raios
Cercada de remórsos entre crueis desmaios.
Uni, se he que quereis arrebatar-nos logo,
A' hum medonho aspecto, hum coração de fogo.
O publico, embebido co a tragica grandeza
Otha pra o vosso estado, nao otha p’ra belleza.
Estatoas, sobre tudo, Melpomene aborrece,
Em cujos trios rostos paixao não apparece.
Cheias d'affectaçao seos insensiveis peitos
Com arte dão suspiros, chorando fazem geitos
A Dama presumida, estuda o dia ínteiro
Hum brando moter d'olhos ao vidro lizongeiro.
Vai hum por hum dispondo, por symnetria os passos
E aplaude o movimento dos ragarosos braços.
Do vidro, que ti engana , não siges o conselho,
Busca, que dentro d’alma, tens o melhor espelhos
Defronte dos cristaes, que adulão a vaidade
Não, à razão não juiza: quem julga he a bondade
Porque feições albeas, por obra do arteficio,
Vos formão da belleza magico edificio ;
Co' a roupa fluctuante azul, e cor de rosa,
Cuidaes que fingis Verus, ou Pallas magestosa?
Não vedes que a soberba vos allucina e céga?
Voss' alma por ventura toda jamais se entrega?
Os vossos olhos mortos nunca dicerão nada?
Moveis-me ao pranto ainda de lagrimas banhada?
Mas vós continuaes com hum doce sorrizo !
Assim assim na fonte se contemplou Narcizo.
Dentro do vosso peito he que podeis achar
A arte d' internecer, e o modo de agradar.
Depois de hum longo estudo de hum dia e de outro dia,
Sahi, o vosso genio vos servirá guia.
Já o casquilho louco, que he de si mesmo amante
Chega, desaparece, torna no mesmo instante ;
Inficionando o ar co' almiscar qy’ em si deita
O sério Magistrado s’inteza e s’indireita,
O grosso negociante, que o ler tem por desdoiro,
Todos os desejos comprando a peça d'oiro
Pende de vossa boca no curvo amphiteatro:
Fica a platea attenta co' os olhos: no theatro ,
Por vós e que s'espera: está tudo em segredo;
Olhai p'ra a multidão sem enfiar de medo,
Mas nunca os vossos olhos doces e encantadores
Parecao que mendigao do publico os louvores.
Desdenha esse arteficio o publico arrogante,
Zomba da namorada, honra a representante.
Offreça aos nossos olhos hum ar imperioso.
Conforme a agitação seja tambem diverso:
Rapido ou vagaroso, como o pedir o verso.
Que sern affectação na encantadora sala,
Imitem as acções tudo o que a lingua falla,
Cuidai em reprimir-lhe o excesso
Que sirvão as paixões de interprete eloquente,
Não posso ver as maos, que do seo sitio sahem,
Erguem-se por engonços, e por engonços cahem
Por isso as Scenas mudas querem estudo a parte
Então he que o talento chega á maior altura
A gloria das acções be toda da figura.
As vossas narrações mostrem o interno fogo
O publico impaciente quer tudo saber logo
Perca-se embora o verso, mas vagaroso e lento
Da timida Platea não canse o soffrimento.
Quem quer que hum doce engano cause o maior deleite,
Ao severo - Costume — convem que se sujeite.
Rio-me da figura, qu' indigna do seo posto,
sacóde o jugo, e traja, como lhe pede o gosto,
E que he tão atrevida, que por empreza toma
Varrer com hum —donaire — o pó d'antiga Roma.
Fora do seo lugar não affccteis riqueza :
Olhai para o papel, segui a natureza.
Representaes Electra nos criminosos Lares?
Lembrai-vos que he cativa, vive entre pezares.
Nao brihe a sua testa, no resplatdença manto,
Não sofre alegres cores rosto, que offusca o pranto.
O povo que vos julga, e que examina os erros,
Não quer de vos rubins, quer tão sómente ferror.
Abrir a antiga histona, ali vereis dispersas
Pelos diversos Climas truta nações diversas
Examinai-lhe os gostos, à inclinação, os nunes,
Quaes erao seos vestidos, as artes, e os costumes.
A Fabula engenhosa, que uteis enganos tece,
Todos os seos thesoiros liberalmente ofrece.
Ali le que a Verdade, que oruatos sãos repróva
Sendo no fundo a mesma, sempre parece nova.
Aqui encontraes Dido, que a pena não resiste ;
Seo rosto descorado sobre huma nuvem triste.
Forceja o rôto peito luctando com a morte:
Levanta-se trez vezes, e cahe da mesma sórte.
Seos olhos, que expirando guardão de Amor a chamma,
Parece qu'inda pedem aos Ceos o Heroe qu'ell'ama
Chóra de dor e d'ira só com suspiros falla,
Procura a luz do dia; geme depois de achal-a,
Niobe mais alem, mulher soberba e ousada,
A Mãi mais atrevida, e a Mãi mais desgraçada,
Os filhos huns sobr’outros, os filhos seos amados,
Que vista dolorosa! de settas traspassados,
A' força de sentir, parece que não sente,
O rosto descolido, olhando fixamente;
Muda ficou; as mogoas p'ella poderão tanto,
Que se secou nos olhos a fonte do seo pranto.
Aquelle seo silencio nenhuma voe iguala,
A voz da natureza no seo silencio falla.
Quereis que huma Rainha, que tem com sigo guerra,
Que traz no rosto os crimes, que vô rasgar-se a terra,
Que a roupa e todo chão vê do seo sangue asperso,
No ultímo suspiro dê a pancada ao verso?
Quereis que huma Donzella, que creo em fé perjura,
Afflicta abandonada no horror da noite escura,
Gritando se resolva ao temerario effeito,
Que se lembre da Arte, quando traspassa o peito ?
Rainha, que o Theatro por breve tempo adóra,
Esse orgulhoso fasto não conserveis cá fora.
Deixai na Scena o Sceptro, a raça illustre e nobre,
E a pomba, que meos olhos vos rouba e vos encobre
Tirou, dentre ruinas, Ferreira á Apollo acceito hum punhal no peito.
Os velhos seos altares, junto do Tejo erguidos,
Cobrio arêa e herca. Ainda mal cingidos
(Seculos infelices, e tanto em fim podestes?)
Murchãrão sobre a frente os funebres ciprestes.
Appareceo C***, a voz, que move e encanta,
O corpo sobre o braço Melpomene levanta,
A ignorância, a inveja, chorem de dor e d'ira;
He ella, eu ouço, eu vejo a tímida Palmira
Que aos pés do velho Pae, inda constante e forte,
De hum crime involuntário pede em castigo a morte.
Ah! Quando ao ver o Irmão nos últimos desmaios,
Lança do peito fogo, lança dos olhos raios,
O' alma grande e rara, eu mesmo, eu mesmo o vi
O Genio de Voltaire erra ao redor de ti.
Mas eu dou-yos lições inuteis, e infeis,
E a minha Musa irada arroja seos pinceis ;
Se elles vos-não infundem soberba, que se estima,
Soberba creadora, fogo que nos-anima
Não, não temais a afronta de publico insolente;
Abrio, abrio os olhos a Lusitana gente.
Se já vos-chamou vis, chora de telo feito;
Não, não despreza as artes, que adora no seo peito.
Eu sei que hum Sabio illustre, a quem venera a Fama,
Hum que aborrece o mundo todo ama, verdade nua,
Troveja sobre vós dom a eloquência sua :
E no seu ocio triste, cercado de desgostos
Quiz corromper com fel todos os nossos gostos.
Eu tremo, e a minha Musa por mais que se disvele
Respeita este Demosthenes., inda queixosa d'elle,
Mas contra as suas iras vos-devo consolar;
Hum Sabio em fim he homem, podia se engana
Se elle de todo o mundo forma huma imagem feia,
Nós porque não faremos huma formosa ideia?
Dos credulos humanos, Censores rigorosos
Para que he ter inveja do que nos faz ditosos?
Deixa-nos esta ao menos fantastica belezza:
Hum engenhoso engano adorna a natureza.
Roubar-nos dos talentos os dons encantadores,
He despojar a terra de fructos e de flores.
Sabei pois rechaçar seos frivolos intentos:
Lá vão os seos quixumes levados pelos ventos
Elle assim mesmo austero, bem pode ser vencido,
Fazei-vos estumar, e tendes respondido.
Lá n'huma região á nós desconhecida,
Sobre huma nuvem alta de purpura vestida
Levanta aos Ceos hum Templo a soberba faxada
Com temerosa mão prohibe o genio a entrada
A' criticos pedantes, estupidos Autores,
Que em vão forçar pretendem do seculo os louvores
Mostra-se ali sem veo a candida verdade,
N'este Palacio habita a imortalidade.
A preccupação, a quem o vulgo incensa,
Sem máscara, bramindo lhe foge da presença.
As palmas, que das artes são prêmios verdadeiros,
S'enlação orgulhosas có as palmas dos guerreiros.
Neste lugar Virgilio passêa igual á Augusto,
Homero ao pé de Achilles, não sente horror nem susto.
Mistura a terna Sapho ornada de mil flores,
As murtas amorosas aos loiros vencedores.
Ovidio alli parece que Julia a amar ensine,
Chapenele inda chora nos braços de Racine.
A irada de Conoreur desgrenha a trança bella,
Pára Corneillo attento, e fixa os olhos n’ella
Vós outras, a, quem cinge Melpomene de flores,
Tendes asseio do pé dos immortaes Autores;
Da horrivel Dumesnil o tempo não consome
Junto ao de Crébillon. com sangue escrito o nome
Cluiroz, a quem nenhuma se póde comparar;
Por junto de Fulluire a Glorio o seo lugar,
Preparão lá triumplos para C*** bella
Assim não só resolver a recebê-los ella.
Que magoas causaria o caso seo fatal!
Perdião muito os homens se a vissem immortal
GAMA, José Basílio da. “A declamação trágica”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.3-8.
Canto único
De ti, a Lira e o loirola Archadia fia
Nao invilecas nunca o dom sagrado,
Canta do Pai da Patria assim dizia.
Com a tremula voz o Velho honrado
Quando junto do Tibre, que o ouvia:
Sobre tropheos antigos reclinado,
Cingio na minha frente o verde loiro,
E poz nas minhas mãos a Lira d'oiro.
Amada Lira, se o teo doce accento
Abala troncos, e levanta muros,
Eufrea as ondas , adormece o vento
E abranda os corações dos Tigres duros:
Acompanha o meo novo atrevimento,
Faze-te ouvir nos seculos futuros,
Se te assusta hir com migo aos pés do Thronio,
Instrumento infeliz, busca outro dono.
Pôde hum Heroe no berço recostado
Despedarar co’ as maos Dragoes torcidos
Romper da eterna noite o horror sagrado
Mostrar a luz ao cão dos trez batidos o soy con/
E hum dos joelhos sebre o chao firmado,
Os braços pelas nuvens estendidos,
Sustentar elle só cheio de assombros
Todo o pezo do Ceo sobre os seos hombros.
Pode depois de longa resistência
Ver á seos pés o susto do Erimanto,
Dar bum asilo á timida inocencia
Na terra, e o crime encher de horror e espanto;
Possuir os thesoiros da eloquência,
Quem cuidou que os mortaes podião tanto?
Pôde Pombal... O Grecia, não duvides;
E tu cuidavas cantava Aluides?
Afóga as serpes Indiano ousado,
E os feroces Leões co' agarra erguidas
De curto ferro e de destreza armado.
lanca por terra o CaçadorvNumida;
Porém contra as Estinges, que rasgado
Tem no seio da Europa alta feridas
Deo o Ceo hum Herne aos Portuguezes,
Dadiva, que o Ceo dá bem raras vezes
Europa, envo've o rosto em negro mantos
Ti viste o crime nos altares posto,
E viste o Irmão, da Irmã, banhado em pranto
O peito virginal rasgar com gosto;
Consagrar o punhal no Templo Santo
Para depois ferir. voltando o rosto
De velhos Paes, os filhos innocentes
Tanto a superstição pode nas gentes!.
Infama agora hum povo de guerreiros,
Vomita essas injurias, que tens prontas,
Porque entornava o sangue dos cordeiros,
Ou porque á branca res dourava as pontas,
Os barbaros do mundo derradeiros
Se a Lusitania diz em seo abono
Que não teme que a guerra hoje a destrúa:
Se são a Fé, e o amor guardas do Throno,
Grande Marquez, a gloria he toda tua.
Ninguem perturba da inocencia o sono,
povos a verdade nua
O Sacerdote em candidos restidos,
As mãos, e os olhes para os Ceos erguidos.
O Lavrador co' as uvas enlaçadas
Entóa em teo louvor alegre o hymnos
Responde o cégador co às nãos doiradas
De seo nobre suor tributo dino,
Aos gelos Boreaes, ao Ponto Euxino,
Fogem de nós as guerras sanguinosas,
Detestadas das Mães e das Esposas.
No capacete a abelha os favos cria,
Curva-se em fouce a espada reluzeute,
O insecto industrioso as roupas fia,
Outras fia a Serrana diligente;
Manda ao Tejo brilhante pedraria
ultimo Occaso, o ultimo Oriente
Ao lejo manda perolas redondas
Arbitro antigo das ceruleas ondas
Formoso Tejo, que do Patrio assento.
Respeitado das Tropas do inimigo,.
Vês ondear á discrição do vento
No Elmo as plumas, na Seara o trigo:
Reconhece do Throno o firmamento
ao Grande Marquez, e os pés lhe beja..
Depois ao mar, que vio o caso triste
Que a cinzas reduzio Lisboa inteira,
Pinta a nova Lisboa, e que lhe ouviste.
Que nao tinha saudades da primeira;
Conta-lhe a doce paz, dize que a viste..
De Carvalho e pacifica Oliveira
Enramadas as torres, e altos muros,
Ir pôr as mãos sobre os altares puros.
GAMA, José Basílio da. “Canto único”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.31-34.
Quitubia
Tu, deosa de cem bocas, que nos pintas
As ondas do Mar Negro em sangue tintas
E o Niester incerto, e irresoluto
Sem saber a quem pague o seu tributo,
Eterno assumpto de doiradas liras;
Agora que dos Reis dormem as iras,
Teus olhos sobre a escura Africa estende;
Depois, alada Deosa, os ares fende,
E entoa, ao som de barbara trombeta,
O forte Capirao da Guera Preta.
Esforçado Quitubia, o Téjo sabe
Quanto valor dentro em teo peito cabe.
Herdaste de teu Pai o nome, e o brio,
Que fol terror do perfido Gentio:
Fez-lhe sentir da nossa espada o pezo;
E levando nas mãos o raio acezo Rainha
Queimou a Corte da feroz Rainha
Novo Direito d imortalidade
He teo brazão a tua lealdade.
O titulo, que tens, deo-te a victoría:
C' o teo sangue compraste a tua gloria,
Que ainda que essa côr escura o encobre
Verteste-o por teo Rei; he sangue nobre.
Em vão o Pai te quiz ás letras dado:
Estava o bravo Eucogy acastellado
No fragoso rochedo ao Ceo vizinho;
Qual Aguia pendurada do seo nisho
Quando a córagem, que teu peito encerras
Gritou a teus ouvidos guerra, guerra.
Fugiste a Paz, correste aos inimigos;
Foste buscar a gloria entre os perigos:
Nem tornaste sem ver sobre ruinas
Tremular da alta Pedra as Laisas Quinas
Depois atravessando o negro mundo,
Duas vezes de incognito Balundo
O Sertão penetiaste valoroso :
Lá he que nasce o Gangu tortuoso
Que desce até perder no Cuanza o nome
Aonde o Crocodilho no pretos come.
Tentaste então, em guerra trabalhosa;
A barbara Quiçama sequiosa ;
Terra vil, de tostados horizontes,
A quem negou o Ceo rios, e fontes:
Mas no ventre das arvores sombrias
Resguardao do calor as agoas frias
Da chuva, com que mal se apaga a sede,
que a ti, e aos: teus ir mais avante impede
Apenas da fadiga descansado,
Para diversa empreza nomeado,
A estrada do valor de novo trilhas:
Lá te vejo abrazar as ferteis Ilhas
Que a Cuanza em torno serpeando lava:
Que inda que as defendia gente brava,
Evitar nao poderao a ruina ,
Que a dura Lei da guerra lhes destina.
Já passavas os dias em socego,
Quando os réos Dembos, com orgulho cégo,
Rompem a guerra: a Guarda retrocede;
É socorro, e vingança a hum tempo pede.
O grande General te chama, e ordena
Que os Dembos desleaes paguem a pena,
Tu levantaste a voz, e o braço invieto:
Conhecerão os Povos o teu grito;
Longe de si o vil terror sacodem:
Os Valentes de Ambaça á guerra acodem;
Ambaça, que teu Pai regeo hum dia;
Que rega da Lucalla a enchente fria:
Pelas margens cubertas. de palmeiras
Vem terçando a Azagaya as maos guerreiras.
Arma os Valeutes seus com igual brio
Combambe ao longo do espraiado rio,
Já d'entre tanto arco, e frexa tanta,
O Mancebo Cabôco se adianta;
O valor pelos annos não espera:
He timido inda mais que brava féra
E he seu deito, em que ninguém o iguala,
Ser juem primeiro exponha o peito á bala,
O Bengo, que se humilha ao Gram Tridente,
Da arenora boauda a pram ardente:
Mas angano, que a Lis prumo o Sol recebe,
E que da Cuanza, e na Lucalla bebe;
Todos é causa Publica concorrem ;
E Moxima, e Calumbo ás armas correm,
Já perdilo de vista o patrio Pungo,
Cortavas as campinas de Goingo;
Já longe estara a cente valorosa:
quando instruido em guerra cavilosa,
Com temeragio pé pizando as raias
O Mossuio d'os seus, cobrem as praias;
E a Capital assa tão, pondo logo
Toda a margem do Bengo a ferro e fogo.
O impavido Barão, que tanto póde,
Arma o rosto da gente, e a tudo acóde,
Tu passas sera que a nobre tra se abrande,
O turvo Zenza: o emaranhado Dande;
E vencedor dos asperos caminhos
Lhes vas fazer a guerra nos seus ninhos.
Nem os rebeldes Dembos te esperárão ;
Que as casas com a preza abandonarao.
Hum frio susto o peito lhes congela
Vendo diante a meie, lhes conge dellas
A vida vao salvar nas suas brenhas;
Outros se acolhem ás nativas penhas ;
Cahe a idade inocente, a curva idade
Ah que eu sinto gemer a humanidade!
Põe debalde a razão á ira o freio.
Correndo vai a Mãi c’o Filho ao seio
Os fructiferos troncos escachados;
Os toscos edifícios arrazados;
E em severo castigo de seo erro
Devora a chamma o que escapou ao ferro,
Com o exemplo aterrada a infel gente,
E, Africa assim submissa, e obediente,
Já o illustre Barão, c'o a espada ao lado,
As vélas solta para o Téjo amado.
Tu com elle nas azas vens do vento,
Té ver fugir de instável Elemento
Coma frente torreada a gram Lisboa ,
De quem tão alta fama ao longe sôa.
Que ha muito teu sensivel peito encobre
A ancia que tens, e o pensamento nobre
De ver inda huma vez na Patria bella
A alma grande, que viste longe dela
E que te fez sentir na adversidade
O raro dom do Ceo, doce amizade,
Que une as distancias, e que iguala as sortes,
Mais seguro nos bosques, que nas Cortes.
Nas mãos lhe achas as redeas do Governos
E o mesmo coração, e peito terno
Lágrimas doces, lágrimas saudosas
Viste cahir das faces generosas
De quem olhou constante, e resoluto,
Para a desgraça com o rosto enxuto:
Quando o viste maior foi na desgraça,
Com a poderosa mão te ergue, e te abraça,
E te encaminha aos pés do Thorono Augusto.
Gozaste então entre prazer, e susto,
Quanto a toa alma suspirado tinha,
Tu viste com teus olhos a Rainha
De seus Povos felizes adorada :
Tu puzeste a seus pés a invicta espada :
E cheio do respeito ronis profundo
Beijaste a mão, que faz, feliz o Mundo:
Ouviste o doce som da voz suave,
Que tem dos nossos corações a chave.
Porém leva gravado na memória,
Que ao contar as batalhas, e a victoria ;
Os crucis golpes; as mortaes feridas;
As cabeças dos corpos divididas,
E em sangue, e pó revoltos os cabellos;
Tu viste enternecer seus olhos bellos,
Não pódes desejar honras maiores,
Firmou a Mão Real os teus louvores:
Declarou que se dá por bem servida,.
Único preço, por que arrisca a vida
Nação leal de glória cobiçosa.
Agora torna aos teus: chama-te a esposa,
Que com agudos ais rompe o ar denso,
E estende os olhos pelo espaço immenso,
Contando os longos dias da saudade:
A razão, e o dever to persuade;
Torna aos teus, que te esperão cuidadosos,
Que á guerra te seguirão valorosos;
Mostra-lhe o prêmio, que a virtude anima:
Conta da bella Europa o doce clima;
Os usos, os costumes diferentes
Cheios de inveia os Souvas teus Parentes
Na Corte o ouviráo da Real Tia.
F em quanto a Augusta, a Immortal Maria,
Manda do alto do Throno em paz, em guerra,
Seus raios, e seus dons ao fim da terra;
E com a vermelha Cruz te adorna o peito.
Com este loiro a tua testa enfeiço.
GAMA, José Basílio da. “Quitubia”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.3-8 .
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)