Raul Bopp (1898-1984)
Mãe Muiraquitã
Contam La Condamine e outros que as Amazonas, uma vez por ano, se entregavam aos homens de uma tribo, no leito escuro da selva.
Antes, porém, cheias de horror pela culpa sexual, iam se ciliciar na lagoa sagrada, onde havia um palácio verde de muiraquitã. Hoje,
sobre a água sombria do Yaci-Uarúa, entre o rumor queixoso da floresta, vive apenas o prestígio da lenda.
Água soturna e morta... Erguem-se, à toa,
As velhas sombras dessa moradia.
É a alma tapuia a errar, no adeus do dia,
No ermo sem fim que a solidão povoa.
Quando a flor do luar desabotoa
Dentro da noite, na neblina fria,
A Mãe Muiraquitã paira, sombria,
Sobre a água encantada da lagoa.
Entre os juncais, um vulto verde treme...
Mas, nesta noite de pecado e glória,
As Icamiabas nuas onde estão?
Dentro da selva imensa, a noite geme.
— É a alma da raça triste, sem história,
Que anda chorando pela solidão.
BOPP, Raul. “Mãe Muiraquitã”.In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 87.
Mãe Preta
— Mãe-preta conte uma história.
— Então feche os olhos filhinho:
Longe muito longe
era uma vez o rio Congo…
Por toda parte o mato grande.
Muito sol batia o chão.
De noite
chegavam os elefantes.
Então o barulho do mato crescia.
Quando o rio ficava brabo
inchava.
Brigava com as árvores.
Carregava com tudo, águas abaixo,
até chegar na boca do mar.
Depois...
Olhos da preta pararam.
Acordaram-se as vozes do sangue,
glu-glus de água engasgada
naquele dia do nunca-mais.
Era uma praia vazia
com riscos brancos de areia
e batelões carregando escravos.
Começou então
uma noite muito comprida.
Era um mar que não acabava mais.
... depois…
— Ué mãezinha,
por que você não conta o resto da história?
BOPP, Raul. “Mãe Preta”. In: Urucungo: Poemas Negros .In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 194.
História
Nossa história é assim:
Vamos pras Índias!
Dias e dias os horizontes se repetem.
— Olha! Melhor mesmo é buscar vento mais pro fundo.
Uma tarde um marujo disse:
— Ué! que terra é essa?
Velas baixaram. E desembarcaram.
— Terra como é teu nome?
Cortaram pau. Saiu sangue.
— Isso é Brasil!
No outro dia
o sol do lado de fora assistiu missa.
Terra em que Deus anda de pés no chão!
Outros chegaram depois. Outros. Mais outros.
— Queremos ouro!
A floresta não respondeu.
Então
eles marcharam por uma geografia-do-sem-lhe-achar-fim.
Rios enigmáticos apontavam o Oeste.
A água obediente conduziu o homem.
Começou daí um Brasil sem-história-certa.
A terra acordou-se com o alarido de caça
de animais e de homens.
Mato-grande foi cúmplice nas novas plantações de sangue.
Mulher foi espremer filho no escondido.
E veio o negro.
Trouxe o sol na pele
e uma alma de nunca-mais carregada de vozes.
Foi desbeiçar terra.
Alargaram-se as lavouras.
Brasil encheu-se de queixas de monjolo.
Sol espalhou verão nos canaviais das fazendas.
O mato escondeu escravos
com inscrições de chicote no lombo.
Em noite rural
Os bruxos reuniram-se para experimentar forças contra o branco.
Deus montou num trovão que se quebrou na floresta.
Árvores tinham medo que o céu caísse.
Brasil-nenê foi crescendo...
O sol cozinhou o homem
e a geografia determinou os acontecimentos.
Um dia
O capitão Pedro Teixeira com 1000 canoas ô ô
entrou águas-arriba no Amazonas
acordando aquela imensidão sem dono.
O Brasil embarrigou para o Oeste.
BOPP, Raul. “História”. In: Poemas Brasileiros. In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 233.
Drama Cristão
Os pais da moça facilitaram...
Ela, de noite, ficou sozinha
com o namorado, num caramanchão.
Um dia estourou a história.
Veio gente da vizinhança.
A mãe teve um chilique.
O pai esbravejava na varanda:
— Agora tem que casar!
— Quem é que bate na porta?
— São os homens do exame pericial.
O telefone não parava.
O escândalo ferveu depressa em todo o bairro.
Depois correu o boato
que o rapaz já estava preso.
Mas em poucos dias
a situação virou toda em rosas.
Com as bênçãos do padre e presença da polícia
realizou-se o ato de união indissolúvel.
Houve bolo de noiva e quindins pela vizinhança.
Estava salva a honra da família.
O pai como de costume
continuou a ler o Jornal do Commercio
A mãe fazia tricô
para o futuro bebê.
BOPP, Raul. “Drama Cristão”. In: Diábolus .In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 269.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)