Alberto de Oliveira (1859-1937)
Galatéa
Foi, rompendo o mirtal de verde manto,
— Morria a tarde, além, tonitruosa,
Boreas soprava — que uma voz maviosa
Feriu-lhe o ouvido, em prolongado encanto.
Dizia a voz: — O’ deusa, ó cobiçosa
Alva espádua do mármore mais santo,
Não seres minha!... E era mais doce o canto,
Quando de prompto a ninfa, de amorosa,
Surge. E, com os beiços grossos aplicados
À flauta, um monstro vê cantando. Espreita...
Foge... E ao fugir com os passos apressados:
Ah! que tão doce música que escuto
Não coubesse a uma boca mais bem feita
Que a boca de um gigante horrendo e bruto!
OLIVEIRA, Alberto de. “Galatéa”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 119.
Sabor das lágrimas
A bela grega Hermé, que vai captiva,
Não chora, não, — mas seu olhar revê de:
Vereis que dele amor brota e deriva,
Amor que a prende na inefável rede.
Quando o deserto vem e a vista o mede
Tão grande! Hermé, que a voz dos mais se esquiva,
— Dá-me tu de beber, que eu tenho sede —
Diz ao que perto tem, que amor lhe aviva.:
Filho da mesma terra, o prisioneiro,
Bello como ela, — em roda olha o caminho...
Água não vê, mas chora, e o derradeiro
Pranto dá-lhe a beber na mão tomado...
E ella ao sorveu-o: Inda é melhor que o vinho
Bebido em grego cyathus dourado!
OLIVEIRA, Alberto de. “ Sabor das lágrimas ”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 20.
Á um artista
Ouvindo o peito popular que estoura,
O bravo, o aplauso, o ruído, os murmurinhos,
Palmas e palmas em redemoinhos
Saudando-te, oh! mulher encantadora!
Parece-me que vejo, entre os caminhos
Do mar, que a luz da Grécia antiga doura,
Amphitrite de pé na concha loura,
Arrebatada por dragões marinhos;
Surgem tritões que aos monstros voadores
Tomam a rédea, um turbilhão de flores
Brota a espuma que bufa o sorvedouro;
Roda o carro nas águas, e a formosa
Deusa sorri, na pompa majestosa,
Impondo às ondas o seu espectro de ouro.
OLIVEIRA, Alberto de. “Á um artista”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 24.
Última Deusa
Foram-se os deuses, foram-se, em verdade;
Mas das deusas alguma existe, alguma
Que tem teu ar, a tua majestade,
Teu.porte e aspecto, que és tu mesma, em suma.
Ao vêr-te com esse andar de divindade,
Coma cercada de invisível bruma,
A gente à crença antiga se acostuma,
E do Olympo se lembra com saudade.
De lá trouxeste o olhar sereno e garço,
O alvo colo onde, em quedas de ouro tinto,:
Rutilo róla o teu cabelo esparso…
- Pisas alheia terra... Essa tristeza .
Que possuis é de estátua que ora extincto
Sente o culto da forma e da beleza.
OLIVEIRA, Alberto de. “Última Deusa”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 140.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)