Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cecília Meireles (1901-1964)


Marca d'água

Canção do menino que dorme

 


Quente é a noite,
o vento não vem.
E o menino dorme tão bem!

Menino de rosto de tâmara,
tênue como a palha do arroz,
os bosques da noite vão tirando sonhos
de dentro de cada flor.

Águas tranqüilas, com búfalos mansos,
elefantes de arco-íris na tromba.
Pássaros que cantam nas varandas verdes
das mangueiras redondas.

Ah, os macaquinhos do tempo de Rama
constroem rendadas pontes de bambu,
menino de luz e colírio,
são de ouro e de açúcar os pavões azuis!

Passam como deusas noivas escondidas
em cortinas de seda encarnada:
em volta são grades e grades de música,
de dança, de flores, de véus de ouro e prata.

Quente é a noite,
o vento não vem.
E o menino dorme tão bem!

Oh, a monção que levanla as nuvens,
que faz explodir os trovões,
não leva os meninos de retrós e sândalo,
tênues como a palha do arroz!

MEIRELES, Cecilia. “Canção do menino que dorme”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 14

 


Marca d'água

Ceres abandonada

 


As árvores, secas,
descuidadas plantas.
E a deusa esquecida,
sem mais esperanças,
entre pedras fuscas
e galinhas brancas.

Ruivo pó do tempo
na remota fronte.
Veio de outras eras,
trazida de longe:
— na sombra a deixaram.
Partiram para onde?

O elmo é de Minerva:
— mas, com o Sol no peito,
chamam-na de Ceres.
E seu lábio meigo
sorri sobre o nome,
falso ou verdadeiro.

Cheia de silêncio,
contempla e medita.
E há campos e festas
e feixes de espiga
na pequena cova
de sua pupila.

Seus vellios poderes
ninguém mais recorda.
O modesto plinto
mão nenhuma adorna.
Para os homens vivos,
é uma deusa morta.

Mas o grão dourado
e a olorosa terra
e o boi que desliza
e o sol que se eleva
e o céu sobre-humano
não se esquecem dela.

Fazem-se e refazem-se
os volúveis dias.
No mármore, imóvel,
sempre a deusa é viva,
muito além dos homens
e de suas cinzas.


MEIRELES, Ceres abandonada”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 85.

 


Marca d'água

Deusa

 


Todos queremos ver a Deusa.

Venceremos o exaustivo perfume,
a multidão sofredora,
o êxtase de enfermos e devotos,
perdidos, envolvidos,
embebidos neste calor, neste mormaço,
entre abafados colares de flores inebriantes.

Arde a areia em nossos pés
e o suor desce em franjas pelo nosso rosto.

Entraremos na Mitologia.
Queremos ver a Deusa.
Entre sol e fumaça,
queremos ver Aquela que reina entre os paludes,
a do tenebroso cólera,
a das alastrantes febres.

E ela brilha entre chamas lanceoladas,
com dentes triangulares que ameaçam o mundo.
Balançam-se danças extenuantes, em redor,
flácidas, pesadas.

Ela resplandece em lugar inviolável,
entre enormes chamas também triangulares:
altos dentes de fogo.

Queremos ver a Deusa.

Estamos todos comprimidos, ofegantes,
promíscuos,
de sinal vermelho na testa,
erguidos nas pontas dos pés.

Todos seremos destruídos por ti,
Deusa!
Somos todos irmãos. Em ti, afinal, irmãos!

Somos agora tristes, dóceis, filiais,
deixando-nos devorar por tua fome,
ó Deusa! ó Morte!

Mas pairamos com asas inolvidáveis
acima de tuas chamas.


MEIRELES, Cecilia. “Deusa”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 36.

 


Marca d'água

Mulheres de Puri

 


Quando as estradas ficarem prontas,
mulheres de Puri,
alguém se lembrará de vossos vultos azuis
entre os templos e o mar.

Alguém se lembrará de vosso corpo agachado,
deusas negras de castos peitos nus,
de vossas delgadas mãos a amontoarem pedras
para a construção dos caminhos.

Quando as estradas ficarem prontas,
mulheres de Puri,
alguém se lembrará que está passeando sobre a sombra
de vossos calmos vultos azuis e negros.

Alguém se lembrará de vossos pés diligentes,
com pulseiras de prata clara.
Alguém amará, por vossa causa, o chão de pedra.

E vossos netos falarão de vós,
mulheres de Puri,
como de ídolos complacentes,
benfeitores e anônimos,

e entre os ídolos ficareis, inacreditáveis,
mudas, negras e azuis.


MEIRELES, Cecilia. “Mulheres de Puri”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 42.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)