José Eloy Ottoni (1764-1851)
Gloza
Dos Sceptros, que arrancou, rives de Roma
A infame, a prostituta, ergueo-se ditares,
Dragao do Uriente ao rito assoma,
De veneno e de homor salpica os ares.
O colosso se ergueu, mortal simprtoma
Unio virtude ao continente, e aos mares
E ao rebombo da gloria Lusitana
Deo sinal à trombeta Castelhana.
Se guerreira, ou cruel, a Hespanha hom dia
Deo leis ao mundo inteiro, a Hespanha agora
Pune o roubo, a traição, alevozia,
Rebate ao mostro á fura a usurpadora
Das cavernas e tumulos se erguia,
Clarão nocturno, que brilhava outr'hora!
No Panthon se ouvio écco ruidoso,
Horrendo, féro, ingente, e temeroso.
De Província em Província o raio acceso
Vinga o damno, a pertala, o dolo, o estrago
Da Hespanha e odio, que transcende illeso
Te avisa, infame, a sorte de Casthago;
Não manxa a gloria de hun solar defeso
Perjurio antigo na aparencia afago:
Retumba o Ebros… e a voz da theria ufana
Ouvio o monte Artabro e Guadiana
O Algarve sacudindo o arnez e a malha
Que a mão da morte enxovalhados tinha,
Euruga a testa, os esquadrões retalha,
Entoa o nome da immortal rainha
Rebomba ao Norte a guerra! hum Genio atalha
O golpe, que o furor desembainha,
Neptono vendo em furia o Tejo iroso,
Atraz tornou as oudas de medroso.
Lisia a frente gentil ergueo vaidosa
O Pae, os filhos de prazer chorando
Virão como em fugida vergonhosa
As Aguias sobre o Tejo estorcendo;
Sem honra escapa a gente bellicosa,
Os meninos e os velhos esmagandos
A carnagem feroz e desumana
Ouvio o Douro e a tera Trastagana
Ne ardor de illustre e fervido combate
Marulha o Tejo, o Mançanares brame,
Remonta o vôo, que sem pejo abate!
D' ingenuas aguias o brioso enxame:
Libitina cruel, raivosa Hecate
Os loiros murchao da victoria infame :
A instavel urna contemplando ancioso,
Correo ao mar o Tejo duvidoso.
Anjo terrivel desfechando a espada,
De novo ensópa em amargura o Douro:
Descobre a não depois de ensanguentada,
Do riso inerme o placido tesouro.
Reçuma de prazer do Rio a entrada,
A fronte cingem de Oliveira e Louro
E as Maes, que que o som terrivel escutarão.
O raio d'Albion nas grutas sôa
Retumba o ferro nas lipares ilhas
O cujo Bronte arregaçado atrôa,
Batendo notas da cadencia 6lhas.
Predice o fudo a gloria de Lisboa:
E os heroes de tao altas maravilhas,
Depois que eu nobre ardor as Mães beijaram
Aos peitos os filhintos apertarão.
OTONI, José Eloi. “Gloza”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.54-56.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)