Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

Júlia Cortines (1868-1948)


Marca d'água

A Estátua

 

(Paráfrase)


Maravilhosamente bela, a grega
Vênus: de pé, o corpo nu surgindo
Da túnica, que a mão sustenta, e achega
À anca, num gesto gracioso e lindo.

E, se a vista se eleva, então surpresa
Para perante o rosto que ela inclina,
E admira dessa esplêndida beleza
A expressão diabólica e tigrina

E estranho sentimento nos tortura,
– Misto de dor, de cólera e piedade,
Ao ver-lhe na divina formosura
Impresso o cunho da ferocidade.

1890.


CORTINES, Júlia. “A Estátua”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 46.

 


Marca d'água

Anfitrite

 

(Sobre uma página de Fénelon)


Tinta a escama de azul e de oiro, solevando
Em seus brincos a vaga espúmea, pelo bando
Dos alegres tritões, que os búzios retorcidos
Sopram, enchendo o ar de músicos ruídos,
Acompanhados, vão os ligeiros golfinhos
Seguindo de Anfitrite o carro, que marinhos
Corcéis, – que têm na cor cetinosa do pelo
A brancura da neve e o polido do gelo,
O olhar esbraseado, a boca fumegante, –
Levam, abrindo a onda, em rota triunfante,
Deixando após, no mar tranquilo e bonançoso,
Como um rastro de luz, um sulco luminoso…

A concha de marfim, de admirável feitura,
Em que se assenta a deusa, esplêndida fulgura,
E parece voar, com as rodas doiradas,
À superfície azul das ondas acalmadas,
Seguida de um tropel de ninfas, a que o vento
Desenrola na espalda o cabelo opulento.
Ela tem a serena e fria majestade
Que afrouxa o vendaval e afrouxa a tempestade.
E, enquanto, com uma mão, empunha o cetro de oiro,

Co’a outra, sobre o joelho ampara o filho, o loiro
E tenro Palemon, de seu seio pendente.
Como um pálio, no azul se destaca, fremente,
A púrpura de um véu, que sobre o carro esplende,
E que o brando soprar dos zéfiros suspende.
Vê-se Éolo no ar, com o aspecto severo,
O semblante enrugado, o olhar sombrio e austero,
Retendo os aquilões, e rápido afastando
Para longe de si as nuvens... Transformando
A lisura do mar em prainos ondeantes
Ao crebro palpitar das narinas aflantes,
Emergem prontamente os monstros da voragem,
Para verem da deusa a brilhante passagem.

1887


CORTINES, Júlia. “Anfitrite”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 58.

 


Marca d'água

Paisagem

 

(A Narcisa Amália)


Na fulva luz crepuscular da raia
Do horizonte, onde avulta a cordilheira,
Imerge a crista azul e sobranceira,
Em ríspida ereção, o Itatiaia.

O Paraíba, rútilo, se espraia,
Desenrolando a serpentina esteira,
Que, arrufada à carícia da ligeira
Asa da brisa, marulhosa guaia…

Vésper pontilha o espaço fulgurante,
Se apaga e reacende, e enfim persiste
Trêmula e branca, solitária e triste…

Descora a luz, descora... e do Levante
Rolam da noite as ondas lutuosas,
Espumando o branco das nebulosas...

1890.


CORTINES, Júlia. “Paisagem”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 83.

 


Marca d'água

Um pedaço de Céu

 

(À Júlia de Mendonça)


O horizonte rasgado; a serra escura
Esbate-se nas flamas; a janela
Abre-se em amplo quadro que emoldura
Essa soberba e luminosa tela.

A nuvem, que arde ao sol, se transfigura,
E ao longe, em largas cintas, a amarela
Luz do Ocaso se encontra, e brune a bela
Curva ideal da célica planura…

Vão descrevendo sinuosas linhas
Na luz, que cortam, leves andorinhas,
Apressuradas e a sumir-se em bando

No azul do céu, que súbito esmorece,
Enquanto Vênus, trêmula, aparece,
A violácea curva ponteando...

1887.


CORTINES, Júlia. “Um pedaço do céu”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 57.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)