Alberto de Oliveira (1859-1937)
Borboleta morta
A uma senhora que se lembrou de enviar-me uma borboleta azul
I
Abrindo as azas, — leve phantasia
Da primavera quando despontava,
Sonho dos campos, — ao nascer do dia
De trecho em trecho a borboleta voava.
Voava. — Que tanta flor! vamos às flores!
Quanto raio de sol! como isto agrada!
E abelhas a zumbir! e multicores
Rosários d'água a sacudir a geada!
Ramos verdes! rosas de ardentes rosas!
Lírios de prata! Moitas de violetas!
E eu, toda azul, nas ondas luminosas
Voando — inveja das outras borboletas!
Ja-é vinha, pairava no ar, arfando,
Descia às flores e, num torvelinho
De pétalas e pólen doidejando,
Riçava as asas como um passarinho.
E voava. Os vossos olhos, entretanto,
Viam-na, e quando junto da janella
Passava acaso, enchendo-se de espanto:
— Lá vai! — disseram, todos presos nella.
Lá vai! tão grande! tão azul! tão linda!
Apanhem-a! — Assim foi que a tivestes;
E, vendo que ela batalhava ainda,
Dilacerando as pequeninas vestes,
Mão bárbara e cruel, mão feminina,
De atro estylete segurando na haste,
Como quem vibra a lâmina assassina,
O peito, sem piedade, lhe varaste.
II
E ella aqui está, morta, no extremo alento,
— Phantasma azul de uma ilusão da aurora;
As duas asas, que do firmamento
Mostrava à luz, exanimes agora.
Como num êxtase ante o céu sereno
A alma do infante: jaz-lhe o corpo frio,
Como a dormir, de seu caixão pequeno
No fofo leito de algodão macio.
E, sem saber que ella aqui dorme, e um poeta
Vela-lhe o somno e scisma a contemplar-a,
Em seu túmulo, pobre borboleta!
O vento e as flores não virão chorar.
Não sabereis, raios de sol, o caso
Triste de vossa miséria phalena
Que, como a essência na prisão de um vaso,
A Mão feminina encarcerou sem pena.
Em vão dos campos sobre a mesa flórea,
Dos claros rios sobre o vítreo manto,
Indagareis da dolorosa história,
Raios de sol, raios que a amaveis tanto!
‘Em vão também, rosas sanguíneas, quando
Romperdes frescas nas manhãs cheirosas, |
Acenareis com um movimento brando,
Supondo vê-la sobre as outras rosas.
Ela parou na súbita carreira,
Cansou no espaço.., não! quando fugia,
Mão gentil, mas cruel, mas traiçoeira,
Vibrou-lhe o golpe que a matar devia.
Ela está morta; guarda esquife estreito
Seu cadáver de virgem dolorida ;
A aguda ponta que lhe vara o peito,
Como um punhal, mostra-lhe o fim da vida.
Ella aqui está, morta, no extremo alento,
— Phantasma azul de uma ilusão da aurora;
As duas asas, que do firmamento
Mostrava à luz, exanimes agora.
III
Maldita a mão que na maior loucura
Imploramos um dia e, se mais grata, .
Como num calix, serve a desventura,
Serve o veneno... e as borboletas matam.
Mata-as com a mesma sem piedade como
As ilusões que mais na vida amamos,
Matando o coração, que arido pomo
Lembra, esquecido entre esfolhados ramos.
Mão de mulher! mixtura extravagante
De velludo, de rosas e de espinhos,
Coneha em que o amor nasceu, taça brilhante
De helleboro, de fel e de carinhos!
Deus ao fazê la, na divina graça
De que a cercara, pôs um beijo eterno,
Mas fazendo-a para iman da desgraça,
Juntou-lhe após uma porção de inferno.
Esse calor que lhe sentisse a toca.
Vosso lábio, a junção negra revela;
Raro a parte de: Deus vos chega à boca,
Quando a mulher sobre ser moça é bela.
Esta deve esplendor de tal maneira
Na formosura que encarar-a fôra
Ser victima do assombro, na cegueira
De estar a vê-la tão encantadora.
Por isso a mão, cujo rosado vivo
Provoca os beijos, na maldade inata
Treme-lhe um dia e, a um gesto convulsivo,
Pega de um lenço e as borboletas matam.
IV
Beijo, entretanto, a mão que amaldiçõo,
Porque, sustando a trêfega doudice
Do insecto azul no palpitante voo,
O seu cadáver quis que eu possuísse.
Negou-se à aragem, que lhe suplicava,
Dá lo, e ao sol que o pedia, e à natureza
Que p'ra enterral-o os círios preparava,
Do orvalho erguendo a pedraria acesa.
Em caixa de cetim com laivos de ouro
Pôl-o cuidosa, e, na paixão secreta
Do seu desejo, quiz que este thesouro
Viesse a guardar-o um coração de poeta..
— Que ele, entre as ilusões mortas, occulte.
Está morta ilusão, e a mesma campa
Que as mais sepulta a misera sepulte,
Disse, ao cofre gentil cerrando a tampa.
E adivinhou que sobre o corpo inerme
Que me enviava no gracioso empenho,
“Eu deixara das pálpebras correr-me
A mais pura das lágrimas que tenho.
Porque é um culto p'ra mim, do pingo d'água
Á estrella de ouro que no espaço vemos,
Tudo o que sofre, e cujo amor ou mágoa
Nós nesta vida nunca entenderemos.
OLIVEIRA, Alberto de. “Borboleta Morta”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 250.
Fim de um conto
-..E por ali nos fomos... — prosseguia
O ancião — Lúcia, mais pallida do medo
Da noite, as mãos tomando-me — em segredo,
Baixo, uma prece, trêmula dizia.
Alta era a serra e íngreme; sombria
A cena a taes deshoras. O arvoredo
Crescido e espesso, estava mudo e quedo...
Nem uma aragem de redor se ouvia.
De repente, meu Deus! ouço naquela
Noite o ouvido ferir-me um som medonho...
Róla um corpo na escarpa: o vulto é dela!
Acompanha-me ainda esta saudade....
Dorme no abismo o meu primeiro sonho...
Dos outros não me lembro nesta idade.
OLIVEIRA, Alberto de. “Fim de um conto”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 141.
Morta
Enquanto ao pé do leito em que Emma adormecida
Jaz no sono final, a mãe que se desvaira
Palpa do coração a angustiosa ferida, —
A alma, a força que há pouco a animara na vida,
De azas abertas no ar sobre o cadáver paira.
Enche-a, fala vibrar num secreto arrepio
O assombro que lhe causa o ter de, só, talvez,
Ir bater do mistério ao penetral sombrio;
E antes de remontar lança a esse corpo frio
O seu saudoso olhar pela última vez.
— Carne que tanto amei, doce prisão! — murmura,
Adeus! sozinha vou deixar-te no abandono.
Eis a hora fatal em que a serena altura
Sobe o espírito, e desce o corpo à sepultura,
Onde há de apodrecer no derradeiro sono.
Inda um momento, — e em seu subterrâneo esconderijo
Onde a espreitar quem vem há séculos estão,
Os vermes sentirás, no insano regozijo,
Aos cardumes ferver sobre teu peito rijo,
Da matéria operando a decomposição.
E nessa hora, talvez, de minha eternidade,
(Console-te isto) a voar no turbilhão fecundo
Dos seres, eu terei uma vaga saudade,
Lembrando que feliz a tua mocidade!
Que ânsia de rir ao sol em teu olhar profundo!
De lá, repetirei, — como a canção magoada
Com que alguém se distrai, longe de seu país,
Este eco de mim mesma — a voz! que, apaixonada,
Como um sopro, agitava a rosa ensanguentada
De teus lábios, que abrir a um movimento eu fiz.
De lá, como é de crer a delicada essência,
Que do espaço através leva a aragem comsigo,
Anda a flor a lembrar onde teve a existência:
Eu me recordarei, em minha eterna ausência,
Dos momentos da terra em que vivi contigo.
Era eu que ao pôr do sol, pelas tardes saudosas,
Fazia de teu seio a curva palpitar,
Eu te esculpi do tronco as linhas flexuosas
E às faces te accendi aquellas duas rosas
Que-ora ao frio da morte acabam de esmaiar.
[...]
Se então, da luz do oriente à agonia da tarde,
Tu te estorceste em vão entre angústias mortais,
Se eu não te satisfaz a ânsia rebelde que arde,
É que por uma lei, — que eu respeitei covarde
E é contra a natureza, — era impossivel mais!...
E assim vieste a morrer, virgem do humano tacto,
Entre arrancos de dor abafando o teu hino...
— Tal nasce ao pé da noite e á noite mesmo, intacto,
Murcha, unindo num feixe as pétalas, o cacto,
E a essência virginal entrega ao seu destino.
E ora... Mas com que fim dar a este corpo inerte
Tanto apreço?! Demais, ó carne, onde vivi,
Vais tomando outra cor, entras a desfazer-te,
E doi-me a confissão — já me repugna ver-te,
Cheiras mal, e é mister que eu me afaste daqui.
Mãe, angustiada mãe! foi nessa hora suprema
Que, a prece interrompendo onde o sofrer transvazas,
Ouviste perpassar — como a harmonia extrema
De uma extincta canção — sobre o cadáver de Emma,
Nas cortinas do leito, um movimento de asas…
OLIVEIRA, Alberto de. “Morta”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 338.
Nocturno
Como a noite está fria! A quando e quando
Dobram-se fora as árvores com o vento;
Crescentes nuvens, em compacto bando,
Correm no firmamento.
Arde em meu quarto a lâmpada tardia.
Os meus livros me esperam... mas que importa...
Quero sonhar, ouvindo a ventania,
— Espectro errante a soluçar-me á porta.
Meu amor! Meu amor! em que abandono
Dormes! que pedra aterradora em cima
Te puseram, que em vão no eterno somno
A minha voz te anima?!
Levaram-te: um caixão com taxas de ouro,
Um carro de ouro e crepe... horror infindo!
E no caixão deitado um vulto louro,
Postas as mãos, dormindo.
— Acorda! Acorda! A noite está tão fria!
Mas escuto uma voz... é a voz da morta.
É a voz da noite! é a voz da ventania,
— Espectro errante a soluçar-me á poria.
OLIVEIRA, Alberto de. “Nocturno”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 391.
O interior da câmara
Ontem, passando junto à sua porta,
Quiz vel-a e, taciturno acompanhando
Alguém, no quarto entrei onde ela estava,
Onde o clarão da lâmpada beijava,
Entre os níveos lençóis, seu rosto brando.
A mesma costumada singeleza
Notei em tudo que outra vez fitara,
Quando, naquela câmara elegante
Entrando, vi-a pálida, ofegante,
Aos mornos raios de uma tarde clara;
Aberto sobre a mesa o mesmo livro;
Jarras com flores, rosas em grinaldas
No toucador, — o espelho reflectindo,
Como um fundo de luz, côncavo e lindo,
Seu diadema e seu broche de esmeraldas.
Junto ao leito, suspenso o mesmo quadro
De uma serena e livida gravura...
Nada alterara o toque delicado,
Leve e sutil, aquelas cousas dado
Por sua mão acetinada e pura.
E, atentando em tudo o que ali via,
Ninguém, acaso estacionando à porta,
Diria, o olhar lançando contristado
Sob o flóreo dossel do cortinado,
Que aquela criatura estava morta.
OLIVEIRA, Alberto de. “ O interior da câmara”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 16.
Saudade da estátua
Morreste! mas, mulher, o que ora invade
Meu ser inteiro, súbito ferido,
É a saudade do ídolo partido,
Não a vulgar e pálida saudade:
É a saudade do mármore, a ansiedade
De quem contempla um torso, em mudo olvido,
Roto do tempo em fúria ao pulso erguido,
Da estátua em ruína à morta majestade.
Sim! que mesmo ajoelhado, a rósea espuma
Beijando dos teus pés, bem que o sábias!
Nunca te amei como se amar costuma;
Nunca! e ainda agora o que me punge e traz
De estranho afecto lágrimas tardias
E um reflexo do marmor, — nada, mais.
OLIVEIRA, Alberto de. “Saudade da estátua”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 33.
Serenata no rio
Desce a corrente do rio
O barco sem remadores.
Que secreto murmúrio
Da ribanceira entre as flores!
O barco sem remadores
Oscilla á tôa, fluctua,
Da ribanceira entre as flores,
Aos frios raios da lua.
Oscilla a toa, fluctua...
Que figura inteiriça,
Aos frios raios da lua,
Vai nesse caixão deitada!
Que figura inteiriçada!
— Vêde-lhe os olhos sem vida!
Vai nesse caixão deitada,
Toda de branco vestida.
Vêde-lhe os olhos sem vida!
Que visão: que forma estranha!
Toda de branco vestida,
É um marmor que a lua banha.
Que visão! Que forma estranha!
Que neve desmaiada aquela!
E um marmor que a lua banha...
Soluça alguém junto dela:
Que neve desmaiada aquela!)
— Ninha pallida neblina,
Soluça alguém junto dela)
Dorme. que a noite é divina!
Minha pállida neblina,
A morte ao seio te estreita;
Dorme que a noite é divina,
E em breve estarás desfeita.
A morte ao seio te estreita,
Tua essência se evapora;
Em breve estarás desfeita,
Como as neblinas da aurora.
Tua essência se evapora...
Cala-se a voz de repente.
Como as neblinas da aurora
Roxeia o clarão do oriente!
Cala-se a voz... De repente
Surge o dia esplendoroso;
Roxêa o clarão do oriente
O barco silencioso.
Surge o dia esplendoroso...
— Como um fantasma sombrio,
O barco silencioso
Desce a corrente do rio.
OLIVEIRA, Alberto de. “Serenata no rio”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 387.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)