É a morte que vai chegar da imensidão dos mares
Meu Deus, é a morte que
vai chegar na estranha voz dos velhos sinos,
é a morte que vai chegar das regiões eternas
enquanto eu vigiava as pálidas estrelas.
É a morte que vai chegar da imensidão dos mares,
é a noiva esquecida sob a velha mangueira
que entrou inesperadamente pelas janelas abertas.
Estou sentindo os seus passos ecoando pelos corredores escuros,
estou sentindo as suas mãos geladas pousadas nos meus olhos
e o frio que de repente entrou na minha alma.
Estou sentindo as minhas mãos trêmulas e hesitantes,
a inutilidade das minhas súplicas
e o rosto iluminado da bem-aventurança dos que morreram sem pecados.
Estou sentindo o perfume dos lírios, das rosas encarnadas,
o pavor do silêncio nos olhos das adolescentes,
de vós todas que amei no princípio das cálidas manhãs.
Estou sentindo a casa ensombreada pelas panarias negras,
o choro convulsivo das mulheres piedosas
sob a luz bruxuleante das velas.
Estou sentindo sobre o meu rosto imóvel um bafo de oração,
a ronda dos que amanhã me levarão para o esquecimento
pelos mesmos caminhos onde andei descuidados
à procura de todos os amores.
Meu Deus, é a morte que vai chegar tão cedo das alturas,
é a morte que me vai levar tiritante pela madrugada
na hora em que os amantes se procuram no calor das alcovas.
É a morte que vai chegar com seu manto de trevas
sobre o meu pobre corpo ensanguentado.
BARATA, Ruy Guilherme. “É a morte que vai chegar da imensidão dos mares”.In Anjos dos Abismos. In: Anjos dos Abismos e outras linhas. Belém: Secult-PA, 2021, p. 23.