Velha página
Bom tempo aquele, em que do namorado
Volver de uns olhos à carícia amiga,
A alma espraiou na virginal cantiga,
Sob um céu tropical, quente e estrelado.
Do amor nos gestos, que à loucura obriga,
Quanto plano na mente arquitetado,
Quando eu sonhava arrebatá-la ousado,
Como a Lenora da balada antiga!
Hoje, olhando o passado, aberto ao meio
O ementário do amor, sentido e vago,
E'o livro apenas que compulso e leio,
E onde, imitando um bandolim queixoso,
Passa e repassa, em namorado afago,
Das saudades o bando vaporoso.
Quanto há em mim de amor e de bondade,
Quanto à causa do bem me torna affeito,
Quanto alegre me traz e satisfeito,
Alegre e satisfeita a mocidade;
Quanto em minh'alma existe de verdade,
Quanto aspiro, mulher, quanto aproveito,
Devo-te a ti somente, que em meu peito,
Mais que o amor, me infundes a piedade.
E se é dado inda ouvir-te a quem ouvido
Tem sempre a tua voz e recordando
Anda sempre os teus actos comovido:
Fala-me ainda, archanjo venerando!
Fala-me ainda, e o novo bem trazido
Irei por sobre os homens derramando.
OLIVEIRA, Alberto de. “Velha página”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 37.