Anacreonte
De teu canto a graça pura,
E a ternura não consigo;
Pois comigo a doce lyra
Mal respira os sons do amor.
Quando as cordas lhe mudaste
O feliz Anacreonte
Da meónia viva fonte
Esgotaste o claro humor.
O ruído lisonjeiro
Dessas águas não escuto,
Onde geme dado a Pluto
O grosseiro habitador.
De teu canto a graça pura,
E a ternura não consigo;
Pois comigo a doce lyra
Mal respira os sons de amor.
Neste bosque desgraçado
Mora o odio, e vil se nutre
Magra inveja, negro abutre
Esfaimado e tragador.
Não excita meus afectos
Guida, Paphos, nem Cythéra:
Vejo a serpe, ouço a panthéra...
Oh que objectos de terror!
De teu canto a graça pura,
E a ternura não consigo;
Pois comigo a doce lyra
Mal respira os sons de amor.
Cruel setta passadora
Me consome pouco a pouco,
E no peito frio e rouco
A alma chora e cresce a dôr.
Surda morte nestes ares
Enlutada, e triste vejo,
E se entrega o meu desejo
Dos prazeres ao rigor.
De teu canto a graça pura,
E a ternura não con. igo ;
Pois comigo a doce lyra
Mal respira os sons de amor.
Dos heróes te despediste,
Por quem musa eterna sôa;
Mas de flores na corôa
Inda existe o teu louvor.
De agradar-te sou contente:
Sacro loiro não me inflamma:
Da mangueira a nova rama
Orne a frente do pastor.
De teu canto a graça pura,
E a ternura não consigo
Pois comigo a doce lyra
Mal respira os sons de amor.
ALVARENGA, Manoel Ignacio da Silva. “Anacreonte”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 155-157.