Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Manuel Ignácio da Silva Alvarenga (1749-1814)


Marca d'água

SEM TÍTULO

 


Canta o pastor namorado
Da pastora os olhos bellos,
Canta-lhe o rosto nevado,
Os longos, pretos cabellos
Onde amor anda enredado.

Sobre a borda do saveiro,
Canta o terno pescador
Os grilhões do captiveiro,
Bem dizendo o deus d'amor
Por se ver prisioneiro.

Sua linda, ao som da Lyra,
Canta o soldado na guerra
Ora geme, ora suspira,
Nunca lhe esquecendo a terra,
E a última vez que a víra.

Eu também dentro em mim sinto
Igual férvida paixão;
Dos mais eu não sou distincto;
Do meu bem a perfeição

Mil vezes na idéa pinto.
Amor a tudo avassala,
Ninguém delle vive isento:
Alguém há que sofre e cala
Porém o seu fogo lento
Tudo mina, a tudo iguala.

Ao rei no throno sentado,
No inculto monte ao serrano,
A todos fere o vendado:
Ninguém se isenta do damno,
Que faz o farpão doirado.


RIBEIRO, Manoel Joaquim.”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 262-264.

 


Marca d'água

A gruta americana

 


N’um vale estreito o patrio rio desce
De altíssimo rochedos despenhado
Com ruído, que as feras ensuderce

Aqui na vasta gruta sossegado
O velho pai das nymphas tutelares
Vi sobre urna musgosa recostado;

Pedaços d'ouro bruto nos altares
Nascem por entre as pedras preciosas,
Que o céu quiz derramar nestes lugares.

Os braços dão as árvores frondosas
Em curvo amphitheatro onde respiram
No ardor da sesta, as dryades formosa

Os faunos petulantes que deliram
Chorando o ingrato amor, que os atormenta
De tronco em tronco n’estes bosques giram.

Mas que soberbo carro se apresenta?
Tigres e antas, fortíssima Amazona
Rege do alto logar em que se assenta.

Prostrado aos pés da intrepida matrona
Verde, escamos, jacaré se humilha,
Amphibio habitador da ardente zona.

Quem és, do claro céo inclita filha?
Vistosas penas de diversas côres
Vertem e adornam tanta maravilha.

Nova grinalda os gênios e os amores
Lhe oferecem e espalham sobre a terra,
Rubins, saphyras, pérolas e flores.

Juntam-se as nymphas que este vale encerra,
A deusa acena e falla: o monstro enorme
Sobre as mãos se levanta, e a áspera serra
Escuta, o rio pára, o vento dorme:

« Brilhante nuvem d'ouro,
Realçada de branco, azul e verde,
Nuncia de fausto agouro,
Veloz sobe, e da terra a vista perde,
Levando vencedor dos mortaes damnos
O grande rei José d'entre os humanos.

«Quando ao tartareo açoute
Gemem as portas do profundo averno,
Igual á espessa noite
Vôa a infausta discórdia ao ar superno,
E sobre a lusa America se avança
Cercada de terror, ira e vingança;

« És a guerra terrível
Que abala, atemorisa e turba os povos,
Erguendo escudo horrível,
Mostra Esphinge e Medusa e monstros novos;
Arma de curvo ferro o iniquo braço:
Tem o rosto de bronze, o peito d'aço.

«Pallida, surda. e forte,
Com vagaroso passo vem soberba
A descarnada morte.
Com a misérrima triste fome acerba;
E a negra peste, que o fatal veneno
Exhala ao longe, e ofusca o ar sereno.

« Ruge o leão ibero
Desde Europa troando aos nossos mares,
Tal o feroz Cerbero
Latindo assusta o reino dos pezares
E as vagas sombras ao trifauce grito
Deixam medrosas o voraz Cocyto;

« Os montes escalvados,
Do vasto mar eternas atalaias,
Vacilam assustados
Ao ver tanto inimigo em nossas praias.
E o pó sulphureo, que no bronze soa,
O céo, e a terra, e o mar e o abysmo atroa.

« Os echos pavorosos
Ouviste, ó terra aurífera e fecunda,
E os peitos generosos,
Que no seio da paz a glória inunda,
Armados Correm de uma e d'outra parte
Ao som primeiro do terrível Marte.

« A hirsuta Mantiqueira,
Que os longos campos abrazar presume,
Viu pela vez primeira
Arvoradas as quinas no alto cume,
E marchar as esquadras homicidas
Ao rouco som das caixas nunca ouvida.

« Mas, rainha augusta,
Digna filha do céo 'justo e piedoso,
Respiro e não me assusta
O estrepito e tumulto bellicoso,
Que tu lanças por terra n'um só dia
A discordia, que os povos oprimia

«As hórridas phalanges
Já não vivem d' estrago e de ruina
Deixam lanças e alfanjes,
E o elmo triplicado e a malha fina;
Para lavrar a terra o 'ferro torna
Ao vivo fogo e a rigida bigorna.

« Já cahem sobre os montes
Fecundas gottas de celeste orvalho
Mostram-se os horizontes,
Produz a terra os frutos sem trabalho;
E as nuas graças, e os cúpidos ternos
Cantam a doce paz hymnos eternos

« Ide, sinceros votos,
Ide, e levai ao throno lusitano
D' estes climas remotos,
Que habita o forte e adusto Americano,
A pura gratidão e a lealdade,
O amor, o sangue e a própria liberdade

Assim falou a América ditosa,
E os mosqueados tigres n'um momento
Me roubaram a scena majestosa.

Ai, Termindo, rebelde o instrumento
Não corresponde á mão, que já com glória
O fez subir ao estrelado acentto.

Sabes do triste Alcindo a longa história,
Não cuides que os meus dias se serenam,
Tu me guiaste ao templo da memória;
Torna-me ás musas, que de lá me acenam.


ALVARENGA, Manoel Ignacio da Silva. “A gruta americana”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 147-151.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)