Origem
Venho do mar! Trago na concha dos
o canto da água quando alcança a areia
e o rumorejo dos corais no fundo.
Sofro a saudade dos bateis perdidos
e, como a vaga que se desenfreia,
leva-me a sede de espraiar-me pelo mundo.
Venho do sol! Trago nos olhos o esplendor
das madrugadas em rebento
quando se acorda do primeiro somno.
Feliz pela manhā, triste ao sol-por,
nestes cabellos, que desfaz o vento,
sinto a noite descer num gesto de abandono…
Venho do azul! Não sou da terra, quando penso.
Trago nas veias enlaçadas a fumaça
do céu, e o céu no sonho em que me agito.
Meu vulto leve, que é um turíbulo de incenso,
a cada dia se adelgaça
como a se preparar para um vôo infinito.
Venho do azul, venho do sol, venho do mar.
Fui nuvem, fui clarão, fui onda. E assim,
esta ânsia de ascender, de fulgir, de cantar,
é a vida universal que arde dentro de mim!
LISBOA, Henriqueta. “Origem”. In: Enternecimento (Versos). Rio de Janeiro: Empreza Graphica Editora - Paulo Pongetti & Cia, 1920, p. 51.