Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Raimundo Correa (1859-1911)


Marca d'água

Coerulei Oculi

 


CERTA mulher misteriosa,
Que me alucina, costuma
Alanter-se em pé, silenciosa,
Junto ao mar, que ferve e espuma…

No olhar onde o céu se pinta,
Que palheta singular,
Ao amargo azul, a tinta
Glauca mistura do mar?!

Na langorosa pupila
Boia uma tristeza vaga,
E a lágrima que vacila
E rola, o seu lume apaga.

Lembram-me os cílios suaves,
A palpitar, branca e exul
Tribo de aquáticas aves
Sobre o indefinido azul...

Qual d'água no transparente
Prisma, do olhar se devassa
No fundo, nitidamente,
Do rei de Thule a áurea taça;

E, entre a alga e o sargaço., a gemma
Mais rara deslumbra, e estão
De Cleópatra o diadema
E o anel do rei Salomão;

E a irradiação irisada
Das pedrarias se accende;
E a coroa da bailada
De Schiller fulge e resplende.

Mago prestigio me enleia
E ao fundo abismo de luz
Me arrasta, como a sereia,
Que a Harald Harfagar seduz;

Me arrasta à ignota voragem,
Até que eu nela me arroje
Traz da impalpável imagem,
Que, aerea e fatua, me foge...

N'água esconde a ninfa bela
A cauda argentea; e o brancor
Da espáuda lisa revela.
Gorando, da espuma à flôr...

Incha e, como um seio, arqueja
A vaga; em mórbido acento,
Na cava concha solfeja.
Soluça, resona o vento...

Vem, reclinar-te em meu leito
De âmbar, e o saibo de fel
Das ondas verás, desfeito,
Manar-te da boca, era mel;

O pélago estoira e zune
Por cima; e a paz aqui mora,
Sem que o rumor a importune
Das tempestades de fora...

Vem Sem tédio, nem bocejos,
O esquecimento imortal
Bebamos juntos, dos beijos
Pelo copo de coral!

Assim é que a voz me falia,
Desse olhar, que me extasia;
E ao fundo d'água, a escutá-la,
Desço... E o himeneu principia...


CORREIA, Raimundo. “Coerulei Oculi”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 99.

 


Marca d'água

Pelago Invisível”

 


Sentes-lhe, acaso, o soluçoso grito,
Os bravos estos, oguaiar plangente?!
Ali! Ninguém vê, mas todo o mundo sente
A alma—Atlântico intérmino, infinito...]

As bordas dele éurie debruço aflitos.
Não mires a este espelho a alma inocente!
Verto abi, muita vez, meu pranto ardente;
Muita vez, choro ; muita vez, medito..

E elle, ora, inchado, estoura e arqueja e nuta;
Ora, túrgido, a coroa vitoriosa,
De rutilante espuma, aos céus levanta;

Ora, plácido, ofega.. e só se escuta
A saudade—sereia misteriosa,
Que, em suas praias infinitas, canta...


CORREIA, Raimundo. “Pelago Invisível”. In: Aleluias. Rio de Janeiro: Companhia Editora Fluminense, 1891, p. 75.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)