Os seus seios são como búzios
Longos braços, longos olhos perdidos na solidão das águas.
Meu Deus, será a doce e langue morta do janeiro chuvoso
ou é apenas a Iracema do Guerreiro Branco?
Seu rosto está escondido pela bruma matinal,
mas sinto seus pés acariciados pelas espumas,
os olhos alongados para o mar
e os braços delirantes como asas inquietas de borboletas.
Vejo a sua verde cabeleira flutuando nas águas revoltas
como enormes plantas marinhas.
Vejo nascer nos seus seios transbordantes de ruídos do mar
palavras alegres, canções de marinheiros,
tristes mensagens dos que repousam na tranquilidade dos abismos.
Ah, porque os seus seios são como búzios
que nos falam do amor e das ilhas sonhadas.
São navios encantados que retornam aos mares,
brancas velas das heroicas fragatas,
estrelas pendentes do grande céu marinho
prestes a descer à carícia das águas.
Os seus seios na noite são faróis dos navegantes,
são montanhas de gelo onde brincam os peixinhos
e o primeiro sinal da pátria da Poesia.
BARATA, Ruy Guilherme. “Os seus seios são como búzios”.In Anjos dos Abismos. In: Anjos dos Abismos e outras linhas. Belém: Secult-PA, 2021, p. 29.