Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Auta de Souza (1876-1901)


Marca d'água

Morena

Ó Moça faceira,
Dos olhos escuros,
Tão lindos, tão puros;
Qual noite fagueira!

Criança morena,
Teus olhos rasgados
São céus estrelados
Em noite serena!

Que doces encantos,
No brilho fulgente,
No-brilho dolente
De teus olhos santos!

E eu vivo adorando,
Meu anjo formoso,
O brilho radioso
Que vão derramando,

Em chamas serenas,
Tão mansas e puras,
Teus olhos escuros,
Ó flor das morenas!


SOUZA, Auta de. “Morena”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 79.

 


Marca d'água

A Morte de Helena

“Eu não quero morrer”, dizia a pobre Helena,
E a fronte, a soluçar, caiu no travesseiro...
(Ai! Recordava assim à pálida açucena
Ou, do galho pender, a flor do jasmineiro!)

“Não me deixem morrer assim na Primavera:
Esconde-me no seio, ó minha mãe querida!
A morte como é triste! E o noivo que me espera
Há de chamar por mim... Quem restitui-me a vida?”

E se pôs a chorar: mas, chegando o delírio,
Esqueceu-se da morte e começou a rir...
Pobre noiva do Amor! Pobre folha de lírio!
Ela os olhos cerrou, como quem vai dormir,

Misérrima criança! estava ali bem perto
A morte, a se abeirar de seu leito sagrado,
Para arrastar-lhe o corpo ao túmulo deserto,
Onde não brilha'o Sol e nem o Riso amado.

E, quando despertou daquele doce encanto,
Conheceu que morria e, cheia de pavor,
Suplicou a Jesus, por seu martírio santo,
Que a deixasse na terra ao pé de seu amor.

“Mas, sei que parto sempre; acrescentou chorando.
“Mostrou-se-me da crença o doloroso véu...
Minha mãe vem comigo, a noite vem chegando
E eu talvez possa errar o caminho do Céu!”

E nessa mesma noite escura, tenebrosa,
Deixou a doce Helena a terra, pobre goivo
Mas tinha para ungir-lhe a campa lutuosa
Uma prece de mãe e as lágrimas do noivo.

Angicos — 1896.


SOUZA, Auta de. “A Morte de Helena”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 104.

 


Marca d'água

Morta

 

A Jabel Beltrão


Dos braços da mãe querida
Desceu Laura à sepultura:
Morreu na manhã da vida,
Criancinha ainda é tão pura!

Não viu desabrochar-lhe n'alma
A aurora dos quinze anos;
Fugiu inocente e calma
Do mundo cheio de enganos.

Temeu, pobre mariposa!
O encanto louco das brasas,
Pois, na friez de uma lousa,
O arcanjo não queima as asas.

De todo o choroso dia
Só nos resta na lembrança,
Como visão fugidia
Daquela virgem criança:

Um caixãozinho funéreo;
— Abismo de nossas dores —
Conduzido ao cemitério
Como uma cesta de flores.


SOUZA, Auta de. “Morta”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 93.

 


Marca d'água

Na capelinha

 

Lembrança do colégio


Entrou na igreja sorrindo,
Coberta com um fino véu.
O seu rostinho era lindo
Como o da Virgem do Céu.

Foi ajoelhar-se contrita
Ao pé do sagrado altar.
E, com piedade infinita,
Principiou a rezar.

Um doce sorriso veio
Encher-lhe à boca de luz.
Uniu as mãos sobre o seio,
Fitou os olhos na Cruz.

O que dizia... Alguém pode
Adivinhar o que diz
A prece que o lábio acode
Enquanto a gente é feliz?

Nossa idade, para que
Se reza... (saberei eu?)
À gente reza porque
Também se reza no Céu,

E ela, tão meiga e pura,
Que não conhecia o mal,
E que guardava a ventura
No coração virginal;

Em sua fé de criança
Ingênua e cheia de amor,
Talvez pedisse a esperança
Para os que vivem na dor.

Talvez tivesse gemidos
Para quem vive a chorar,
Para os que vagam perdidos
Nas frias ondas do mar.

E enquanto o lábio querido
Otava piedoso assim,
Do negro olhar comovido
O pranto rolou por fim.

E deslizaram sem calma
Às bagas por sua tez,
No desconsolo de uma alma
Que chora a primeira vez,

Su'alma santa onde moram
A Luz, a Inocência é o Bem,
Pedindo pelos que choram
Foi soluçando também.

E compreendendo o segredo
Daquela doce emoção,
Eu disse baixinho, a medo,
Falando ao meu coração:

Benditos nós que sofremos
Varados por mágoa atroz...
Enquanto assim padecemos
Os anjos pedem por nós.


SOUZA, Auta de. “Na Capelinha”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 90.

 


Marca d'água

Mimos de anos

 

Á pequenita Maurina Gomes


Pensei ao acordar:
Faz anos Sinhazinha,
À minha afilhadinha
Que mimo posso dar?

E, d'alma nos refolhos,
Alguém disse-me, então:
Leva-lhe o coração
E a benção de teus olhos.

E logo, ó flor celeste!
Corri a abençoar-te...
Mas, antes de abraçar-te,
A minha mão vieste

Beijar tão docemente,
Com tão gentil carinho,
Como o de um pobrezinho
Beijando a mão clemente

Daquele que o consola
Lançando-lhe no seio,
Cheio de humilde enleio,
A pequenina esmola!

E eu cismo, então, com pejo:
Benção e coração,
Acaso valerão
O mimo desse beijo?

Um beijo de criança,
Caindo em minhas dores,
É como o Sol nas flores.
O pálio da esperança.

E enquanto, é lírio, voa
À tí meu coração,
Beijando a minha mão,
És tu quem me abençoa…

Ó doce inocentinha,
Guarda a sonhar, contigo,
O coração amigo
E a benção da madrinha.

26 de agosto de 1899

SOUZA, Auta de. “Mimos de anos”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 211.

 


Marca d'água

Meu pai

 

A Eloy


Desce, meu Pai, a noite baixou mansa,
Nenhuma nuvem se vê mais no Céu;
Alinharam-se aqui no peito meu,
Onde, chorando, a negra dor descansa.

Quando morreste eu era bem criança,
Balbuciava, sim, o nome teu,
Mas deste rosto santo que morreu
Já não conservo a mínima lembrança:

A noite é clara; e cu, aqui sentada,
Tenho medo da lua embalsamada,
Cortar-me o frio a alma comovida.

Se lá no Céu teu coração padece,
Vem comigo rezar à mesma prece:
Tua benção, meu pai, me dará


SOUZA, Auta de. “Meu pai”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 219.

 


Marca d'água

Flor do Campo

 

A meu irmão Eloy


Moça ingênua e formosa,
Ó doce filha do sertão agreste!
O teu olhar celeste
Tem o fulgor da noite luminosa,

Guarda a mesma doçura
O mesmo encanto feito de esperanças
Dos olhos das crianças,
Ninho de sonho e ninho de ternura.

A luz do Paraíso,
Quando a Alegria tua boca enflora, -
Resplende como a aurora
Na graça-virginal de um teu sorriso.

És inocente e boa
Como a quimera que em teu seio canta
Tens a beleza santa
Da pomba amiga que no Espaço voa.

Jamais alguém te disse
Que tens o rosto branco como o gelo,
A Noite no cabelo
E o sorriso tão cheio de meiguice.

Por isso ainda é mais bela
A tua fronte cândida e tranquila,
E o fogo que cintila
No teu olhar é como o de uma estrela

Angélica é suave,
É tua voz que as almas adormece,
Um ciciar de prece,
Embalando a saudade de alguma ave.

Hoje tu'alma ignora
Toda a magia deste rosto puro;
Mas, olha, no futuro
Lembrar-te-ás do que não vês agora,

E então, com que saudade
Recordarás esse passado morto
Em triste desconforto,
Chorando os sonhos da primeira idade.

Ó lindo malmequer,
Anjo que vives a sonhar com Deus...
Por os olhos nos meus é
Ouve bem sério o que te vou dizer;

Um dia, talvez cedo,
Teu coração palpitará inquieto
E transbordando afeto,
Há de afagar um íntimo segredo.

Para tu'alma honesta
Ó Céu inteiro, iluminado, ó flor!
Com a luz de um puro amor
Há de brilhar como uma Igreja em festa.

E assim, risonha e calma,
Conduzirá ao porto da aliança,
Na barca da Esperança,
Como um troféu, o noivo de tu'alma.

E Deus há de baixar
Sobre estas duas mãos que o padre estreita,
A bênção mais perfeita,
O seu mais doce e mais divino olhar.

Feliz, muito feliz,
A tua vida correrá de manso
No plácido remanso
De quem adora o Céu e o Céu Bendiz.

Depois, do Paraíso,
Jesus há de enviar-te uma filhinha,
Formosa criancinha
Que embalarás cantando num sorriso.

Ela há de ser bonita
E boa como tu, anjo terrestre,
Ó linda flor silvestre,
Minha singela e casta margarida!

E após anos e anos,
Quando ela ficar moça e no teu rosto,
A sombra do sol-posto
For desdobrando o manto dos enganos,

Num dia de verão,
Sentado à porta, à hora do descanso
Sorrindo bem de manso,
Há de dizer, pegando-te na mão,

O velho esposo amigo:
— Repara como é linda a nossa filha!
Seu riso como brilha!
Eras assim quando casei contigo.

E tu hás de evocar,
Entre saudades trêmulas e ais,
Aquele tempo que não volta mais!

E no gracioso olhar
De tua filha os olhos mergulhando,
Deixarás a tu'alma ir Autuando

Sobre a onda bendita
Daquele mar puríssimo e dolente…

E, então, murmurarás saudosamente:
Ah! Como fui bonita!

Alto da Saudade


SOUZA, Auta de. “Flor do Campo”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 164.

 


Marca d'água

Angelina

 

Brilhante como uma estrela,
Criança e já numa cova

J. Eustachio de Azevedo


Ter doze anos somente
E nesta idade sofrer!
Sonhar um porvir ridente
E nesta aurora morrer!

Eis o que foi-te a existência,
Ó desditosa Angelina!
Doce lírio de inocência,
Pobre floco de neblina.

Como dois botões pequenos,
Duas Hores orvalhadas,
Teus olhos dormem serenos,
Sob as pálpebras cerradas.

Voaste, meiga criança,
Tão feiticeira e mimosa, a
Como um riso de esperança
Como uma folha de rosa.

É triste morrer no fim
De Uma manhã de esplendores...
A fronte a ocultar, assim,
Numa grinalda de flores.

E sentir, por entre a dor
Da derradeira agonia,
De mãe um beijo de amor
Roçar a fronte já fria…

Quando num suspiro leve,
Envalma que o corpo encerra,
— como uma pomba de neve
A desprender-se da terra

Num voo suave e franco,
Fugiu para o céu de anil...
Vestiram-te, então, de branco,
Como uma noiva gentil.

No cetíneo caixãozinho,
Mais puro que as alvoradas,
Depuseram seu corpinho,
Entre as cambraias nevadas,

Ai, no funéreo leito,
Toda coberta de tosas,
Tendo cruzadas ao peito
Duas mãozinhas formosas;

Pareces um anjo santo,
Envolto em gélido véu,
Transpondo azulado manto,
Como em procura do Céu.

Eu sigo-te o voo alado,
Pela esfera diamantina,
Ó meu anjo imaculado,
Ó minha santa Angelina!


SOUZA, Auta de. “Angelina”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 63.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)