Uma bailadora sevilhana
Como e por que sou bailadora?
Quando era entre menina e moça
tinha comprida cabeleira,
que me vinha até as cadeiras.
Me diziam: com essas tranças
não pode não votar-se à dança.
Então, me ensinam a dançar.
Sou? O que não pude decorar.
Vendo famosa bailadora:
ei-la apagada, quase mocha.
“Não te agrada F... de Tal,
que todo dia sai no jornal?”
“Não gosto: dança repetido;
dança sem se expor, sem perigo;
dançar flamenco é cada vez;
é fazer; é um faz, nunca um fez.”
MELO NETO, João Cabral de. “Uma bailadora sevilhana”. In: Poesia Completa. Organização de Antônio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020, p. 733.
Dois sonhos onde Dandara
1.
Dandara calada: pergunto:
minha neta, tua mãe me disse
que falas pelos cotovelos
(como se diz no Recife):
E ela, como o avô, de voz pouca:
Eu falo, mas pela boca.
2.
Dandara me viu pequena
mas não me identificou;
depois, diante de um retrato
aprende a dizer: Vovô.
No Galeão: ela me vê.
Lhe apontam: Vovô! E ela: É!
MELO NETO, João Cabral de. “Dois sonhos onde Dandara”. In: Poesia Completa. Organização de Antônio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020, p. 961.