Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

 


Marca d'água

Uma bailadora sevilhana

 


Como e por que sou bailadora?
Quando era entre menina e moça

tinha comprida cabeleira,
que me vinha até as cadeiras.

Me diziam: com essas tranças
não pode não votar-se à dança.

Então, me ensinam a dançar.
Sou? O que não pude decorar.

Vendo famosa bailadora:
ei-la apagada, quase mocha.

“Não te agrada F... de Tal,
que todo dia sai no jornal?”

“Não gosto: dança repetido;
dança sem se expor, sem perigo;

dançar flamenco é cada vez;
é fazer; é um faz, nunca um fez.”


MELO NETO, João Cabral de. “Uma bailadora sevilhana”. In: Poesia Completa. Organização de Antônio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020, p. 733.

 


Marca d'água

Dois sonhos onde Dandara

 


1.
Dandara calada: pergunto:
minha neta, tua mãe me disse
que falas pelos cotovelos
(como se diz no Recife):
E ela, como o avô, de voz pouca:
Eu falo, mas pela boca.
2.
Dandara me viu pequena
mas não me identificou;
depois, diante de um retrato
aprende a dizer: Vovô.
No Galeão: ela me vê.
Lhe apontam: Vovô! E ela: É!


MELO NETO, João Cabral de. “Dois sonhos onde Dandara”. In: Poesia Completa. Organização de Antônio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020, p. 961.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista:Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)