Inês Sabino (1853-1911)
A Caprichosa
A sala é esteirada... os móveis, de Remígio,
Dunkerques, porta-flores, álbuns de charão;
As rendas das cortinas pelo chão se espargem,
Alli, um mimo de arte, atoa, sobre o chão!
N’um Pleyel luxuoso, sob a capa verde
Se vê modesta jovem, que das teclas vai
Tirando sons plantivos, divinais lamentos
De um’alma toda artista, que a gemer descaí.
N’um quarto pequenino, em leito d’alvas rendas
Se envolve uma menina; as faces são romãs,
Ouvira o meigo accorde, e adormeceu de novo,
Temendo ver o sol das tropicais manhãs!
Um beijo sobre a fronte a custo a despertara,
— “Meu Deus,para que me acordam, deixem-me dormir!
— “Desperta, Esther, a mestra a muito que te aguarda.
Arranca do piano arpejos, vai ouvir.
— Que Importa? ela que espere, ou antes, vá embora,
Massante, que tão cedo vem me despertar
A mim, que pago caro, a quem você se curva,
Tirar-me assim de prompto desse bem-estar?!”
— “Mas não, filhinha, t'ergue e vai saudar-a ao menos,
Pedir uma desculpa, ou dar tua lição.”
—Não quero ! eu já detesto vel-a tantas vezes,
Agora estou deitada, eu não me ergo, não!”
— “Senhora, nos desculpe, a minha filha hoje
No leito inda se envolve, adormecida está;
Bem vê que o despertar-la é ser cruel, teimosa,
Não ouso incomodá-la, agora vim de lá!...”
É a jovem, num sorriso, se levanta prestes,
Às peças que levava, calma, as enrolou:
“Oh quanto é caprichosa uma menina rica!'
Descendo a escadaria, a sós, o murmurou,
SABINO, Inês. “A Caprichosa”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 78.
Amor
À uma Ingênua
Amor, é o vago arrulo d’avesinha em threnos,
Amor, é o ninho artista, que só Deus creou!
Amor, é nota argentea das canções terrenas,
Que a virgem natureza em graça a modulou!
Amor, nos diz o echo desses sons longínquos.
Trazidos pela brisa, em ais, ao coração,
Com arte murmurando em laranjal florido,
Que as boças do sentir o abraça em efusão.
Os raios d’alva lua vêm descendo lentos,
Quem ama se embevece ante o seu doce alvor;
Artista, se arrebata ante a paisagem d’alma,
Nas sombras, nos contornos, é pincel amor!
Cuidado, que és bem moça! amor é mero brinco,
N'um rio de topázio em ondas desiguaes;
Occulta a dor intensa no brilhar sereno,
No voo horripilante, abismos infernais.
E' meiga fada, a uns, com as roupagens breves,
À outros é cicuta, esse veneno atroz;
A ti será talvez essa ambrosia d'alma,
Superficial sustento, que envenena a nós!
SABINO, Inês. “Amor”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 82.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)