Cantos Populares do Brasil (1883)
A nau catharineta
Versão do Rio Grande do Sul
Ahi vem a Nau Catharineta,
Farta de navegar:
Sete annos e um dia
Sobre as ondas do mar.
Não tinham mais que comer,
Nem tão pouco que manjar;
Botaram sola de molho,
P'ra no domingo jantar.
A sola era tão dura
Que não podiam tragar;
Botaram sortes em branco
Ao qual havia de tocar.
A sorte cahiu em preto
No nosso capitão-general;
A maruja era tão boa
Que não o queria matar.
« Sóbe, sóbe, Chiquito,
N'aquelle tópe real,
Vê si vês terras de Hespanha,
Areias de Portugal.
— Não vejo terras de Hespanha,
Nem areias de Portugal,
Vejo só tres espadas
Para comtigo batalhar.
« Sóbe, sóbe alli, marujo,
N'aquelle tópe real;
Vê si vês terras de I-Iespanha,
Areias de Portugal.
— Alviçaras, meu capitão,
Alviçaras vos quero dar:
Já vejo terras de Hespanha,
Areias de Portugal ;
Tambem vejo tres meninas
Debaixo de um laranjal.
« Todas tres são minhas filhas,
Todas tres vos dera a ti :
Uma para vos lavar,
Outra para vos engommar,
A mais bonita d'ellas todas,
Para comtigo casar.
Palavras não eram ditas,
Chiquito cahiu no mar.
ROMERO, Sylvio (org.). “A nau catharinineta”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 22-23.
A pastorinha
— Bella Pastorínha,
Que fazeis aqui?
« Pastorando o gado
Qu'eu aqui perdi.
— Tão gentil menina
Pastorando gado ?!
« Já nasci, senhor,
Para este fado.
— Vamos cá, menina,
P'ra aquelle deserto,
Qu'eu pouco me importa
Que o gado se perca.
« Sae d'aquí, senhor,
Não me dê tormento;
Eu não quero vê-lo
Nem por pensamento.
....................................
....................................
Olho, meu senhor,
Cá volte, correndo,
Que o amor é fogo,
Que me vai vencendo.
Olhem para elle
Como vem galante,
Com meias de sêda,
Calção de brilhante!
Si os manos vierem
Trazer a merenda?
— Elles não são bicho
Que a nós offenda.
« E si perguntarem
Em que me occupava?
— N'uma manga d'agua
Que a todos molhava.
« Bem sei que tu queres:
Que te dê um abraço;
É á sombra do mato,
Mas isto eu não faço.
— Eu me sento aqui
Não com má tenção;
Juro-te, menina,
Que seu teu irmão.
« Sae por um monte,
Qu'eu sáio por outro,
A ajuntar o gado
Que é nosso todo.
ROMERO, Sylvio (org.). “A pastorinha”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 27-29.
A velha bizunga
Velha bizunga,
Casai vossa filha,
P'ra termos um dia
De grande alegria.
« Eu, minha filha,
Não quero casar;
Pois não tenho dote
Para a dotar.
Sahiu a Preguiça
De barriga lisa:
— Case a menina,
Que eu dou a camisa.
« Quem dê a camisa
De certo nós temos;
Mas a saia branca,
D'onde a haveremos?
Sahiu a Cabrita
Do matto manca:
— Case a menina,
Darei a saia branca.
« Quem dê saia branca
De certo nós temos;
Mas o vestido,
D'onde o haveremos
Sahiu o Veado
Do matto corrido:
— Case a menina,
Que eu dou o vestido.
« Quem dê o vestido
De certo nós temos;
Mas os brincos,
D'onde os haveremos?
Sahiu o Cabrito
Dando dous trincos:
— Case a menina,
Eu darei os brincos.
« Quem dê os brincos
De certo nós temos;
Mas falta o ouro,
D'onde o haveremos?
Sahiu do matto
Roncando o Bezouro:
— Case a menina,
Qu'eu darei o ouro.
« Quem nos dé o ouro
De certo nós temos;
Mas a cozinheira,
D'onde a haveremos?
Sahiu a Cachorra
Descendo a ladeira:
— Casai a menina,
Serei cozinheira.
« Quem seja a cozinheira
É certo já temos;
Porém a mucama,
D'onde a haveremos?
Sahiu a Trahira
De baixo da lama;
— Casai a menina,
Serei a mucama.
« Quem seja a mucama
De certo nós temos;
Porém o toucado,
D'onde o haveremos?
Sahiu o Coelho
Todo embandeirado:
— Casai a menina,
Darei o toucado.
« Quem dê o toucado
É certo que temos;
Porem o cavallo,
D'onde o haveremos?
Sabiu do poleiro
Muito teso o Gallo:
— Casai a menina,
Que eu dou o cavallo.
« Quem dê o cavallo
De certo nós temos;
Mas o sellim,
D'onde o haveremos?
Sabiu um burro
Comendo capim:
— Casai a menina,
Eu darei o sellim.
« Quem dê o selim
É certo que temos;
Porém falta o freio,
D'onde o haveremos?
Sabiu uma Vacca,
Pintada pelo meio:
— Casai a menina,
Eu darei o freio.
« Quem nos dê o freio
Sim, senhores, temos;
Porém a manta,
D'onde a haveremos?
Sabiu a Onça,
Co'a bocca que espanta:
— Casai a menina,
Qu'eu darei a manta.
« Quem nos dê a manta,
É verdade, temos;
Mas quem será o noivo?
D'onde o haveremos ?
Sahiu o Tatú
Com o seu casco goivo:
— Casai a menina,
Que eu serei o noivo.
« O noivo tratado
De certo nós temos;
Porém o padrinho,
D'onde o haveremos?
Sahiu o Ratinho
Todo encolhidinho:
— Casai a menina,
Eu serei o padrinho.
« Quem seja o padrinho
De certo nós temos;
Porém a madrinha,
D'onde a teremos ?
Sabiu a Cobrinha,
Toda pintadinha:
— Casai a menina,
Eu serei a madrinha.
« Quem seja a madrinha
De certo nós temos;
Mas quem pague o padre,
D'onde o haveremos?
Sahiu a Cobrinha,
Que era a comadre:
— Casai a menina,
Eu pagarei ao padre.
Cada um dando o que pôde
Todos se arrumaram:
Chamado o padre,
Logo se casaram.
Cahindo o sereno
Por cima da gramma,
Debaixo da pedra
Fizeram a cama,
Se divertiram,
Cantaram, dançaram;
E diz o Lagarto
Que tambem tocaram.
Si é verdade ou não,
Isso lá não sei;
O que me foi contado
Eu tambem contei.
O que sei só é
Que tanto brincaram,
Que todos Lambem
Se embebedaram.
Até eu tambem
Me achei na funcção,
E p'ra casa truce
De dôce um buião.
ROMERO, Sylvio (org.). “A velha bizunga”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.117-122.
Fui eu que plantei a palma
Fui eu que plantei a palma
No caminho pelo sertão ;
Nasceu-me a palma na mão
E a raiz no coração.
Abaixai-vos, limoeiro,
Quero tirar um limão,
Para tirar uma nodoa
Que trago no coração.
A malvada cozinheira,
Com sua fita amarella,
Com sentido nos amantes,
Deixou queimar a panella.
Você diz que não ha cravo
Na Villa de Paraty,
Inda hontem vi um cravo
No peito de Joaquim.
Fui eu que errei o verso,
Minha cabeça virou ;
Virei p'r'a banda das moças
E o tiro me acompanhou.
Eu já fui mestre de campo
E campeiro na campina;
Quem é mestre tambem erra,
Quem erra tambem se ensina.
Ja fui pasto, ja pastei
Pasto de muitas ovelhas,
D'aquellas que vestem saias,
Botam brinco nas orelhas:
O meu peito está fechado,
A chave está em Lisboa;
O meu peito não se abre
Se não a vossa pessoa.
Abaixai-vos, serras altas,
Quero vêr Guaretinguetá,
Quero vêr o meu bemzínho
Nos braços de quem está.
Appareça, não se esconda,
Sua cara bexigosa ;
Cada bexiga seu cravo,
Cada cravo sua rosa.
A laranja tem dez gomos
Todos debaixo da casca ;
Amor, não me deis mais penas,
Que as que tenho já me basta.
Me pediste uma laranja,
Meu pai ·não tem laranjal;
Si queres um limão doce,
Abre a bocca, toma lá.
O annel que vós me déstes
Era de vidro, quebrou-se;
O amor que tu me tinhas
Era pouco, já acabou-se.
Minha mãe, case-me logo,
Casadinba quero ser,
Eu não sou sóca de cana,
Que morre e torna a nascer.
Minha mãe, caze me logo
Em quanto sou rapariga;
Depois não venha dizendo
Que estou com o peito cabido.
Encontrei com meu benzinho
Encostado n'uma pedra.
Uma mão chega não chega,
E a outra péga não péga
Os meus olhos ele chorar
Já perdeu claridade,
De chorar continuamente,
Bemzinho, a tua saudade.
Eu fui que nasci no ermo
Entre dois cravos mirantes,
Dai-me uma gota ele leite
D'esse vosso peito amante.
Eu nasci sem coração,
Não sei como hei-de viver;
Menina, me dai o vosso
P'ra no meu peito trazer.
Os gallos estão cantando,
Os passarinhos também;
Já ahi vem o claro dia
E aquella ingrata não vem.
ROMERO, Sylvio (org.). “Fui eu que plantei a palma”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 261-264.
Menina, minha menina
Menina, minha menina,
Quem pergunta quer saber:
Sahindo d'aqui agora
Onde irei amanhecer?
Menina do lenço branco,
Vinde-me dar um conselho:
Dizei si posso amar
A moça do lenço vermelho.
Aqui tens um lenço branco
Para limpar o teu rosto;
Queira Deu que isto não seja
Entre nós algum gosto.
Aqui tens um lenço branco
Com dois raminhos floridos,
Dentro d'elle achareis
Nossos corações unidos.
Minha laranja da China,
Quem te comeu a metade ?
Foi o passarinho verde,
Jurador da falsidade.
Tenho meu tinteiro d'ouro
Com penna de avoador
Para escrever saudades
No peito de Lianor
Fui no matto tirar lenha,
Metti um espinho no pé;
Amarrei com fila verde
Cabellinho de Têlé.
Me puz a contar estrellas
Com a ponta da minha espada;
Peguei á bocca da noite,
Acabei de madrugada.
O sabão, para ser bom,
Ha-de ser da bassourinha,
D'aquella que tem no campo
A folhinha miudinha.
ROMERO, Sylvio (org.). “Menina, minha menina”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 267.
Menina, quando te fôres
Menina, quando te fôres,
Escreve-me do caminho;
Si não tiveres papel
Nas azas de um passarinho.
Do bico faze tinteiro,
Da Língua penna aparada,
Dos dentes letras miudas,
Dos olhos carta fechada.
ROMERO, Sylvio (org.). “Menina, quando te fôres”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 231-232.
Menina, você não sabe
Menina, você não sabe
De um amor que tenho agora!
Qu'eu havéra de comprar
Para ser sua senhora?
Para ser minha senhora
No mundo não vejo quem;
O Deus que formou a ella
Me formou a mim tambem.
Individuo, tu cuidavas
Qu'haveras ser meu amor?
Achei um outro tão bello
Capaz de ser teu senhor.
ROMERO, Sylvio (org.). “Menina, você não sabe””. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 231-232.
Meu benzinho, diga, diga…
-Meu bemzinbo, diga, diga,
Por sua bocca confesse
Si vossê nunca já teve
Quem tanto bem lhe quizesse.
«Si eu nunca tive
Quem tanto bem me quizesse,
Também nunca tive
Quem tantos trabalhos me désse.
-Os trabalhos qu'eu te dei,
Vossê mesmo o os procurou,
Que da casa do meu pae,
De lá vossê me tirou.
– Si de lá eu te tirei
Foi por me vêr perseguido:
Quantas e quantas vezes
Não me tenho arrependido!
<< De que te arrependes, amor?
D’este teu genio tão forte?
Não prometteste ser firme
Até na hora da morte?
Até na hora da morte?
Sentirei ingratidão,
Sendo eu a dona
Roubada d’este ladrão!
Nunca comi de ladrão,
Nem pretendo comer;
Poderei comer agora
Debaixo de seu poder.
– Debaixo de meu poder
Tu terás grande valia;
Saindo d’elle p’ra fóra,
Não terás mais fidalguia.
<< Esta fidalguia minha
Nunca ha-de se acabar;
Qu’eu com gente mais somenos
Nunca hei de me pegar.
– Pega, então, meu amor,
Procurando opinião;
Que estas meninas de agora
Não procurem estimação.
<< Não procura estimação
Só aquella que é pobre;
Uma dôna, como eu,
Só procura gente nobre.
-Goza, meu bem, da vida,
Qn'eu, á noite, vou-te vêr,
Dando suspiros e ais
P'ra não te vêr padecer.
ROMERO, Sylvio (org.). “Meu benzinho, diga, diga…”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 128-129.
O lobishome e a menina
-Menina, você onde vai?
«Eu vou na fonte.
- Que vai fazer ?
«Vou levar ele comer
Á minha mãesinba >>.
- O que leva nas costas?
<<É meu irmãosinho.
- O que leva na bocca?
<<É cachimbo de cachimbar …
Ai! meu Deus do céo,
O bicho quer me comer,
O gallo não quer cantar,
O dia não quer amanhecer,
Ai, meu Deus do céo! »
ROMERO, Sylvio (org.). “O lobishome a a menina”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 258-259.
O passarinho
Menina, seu passarinho
Toda a noite eu vi piar;
Eu, como compadecido,
Tive dó do seu penar.
Menina, seu passarinho
Toda a noite me attentou;
Quando foi de madrugada
Foi-se embora e me deixou.
Os passarinhos que cantam
De madrugada com frio,
Uns cantam de papo cheio,
Outros de papo vazio.
Passarinho, que cantaes
No olho do dicury,
Quem por mim perdeu seu somno,
Ja hoje póde dormir.
Passarinho, que cantaes
No olho do majaricão;
Não estou prompta, meu bemzinho,
P'ra soffrer ingratidão.
Passarinho , que cantaes
Alegre aos pés de quem chora,
Si teu canto dá-me allivio,
Não cantes mais, vai-te embora.
Eu comparo o meu viver
Com o viver dos passarinhos,
Presos nas suas gaiola ,
Assim mesmo alégresinhos.
Passarinho, que cantaes,
Repete o canto sonoro;
Uns cantam de papo cheio,
Outros cantão quando eu choro.
Passarinho prêso canta
E preso deve cantar;
Corno foi preso em culpa
Canta para alliviar.
Quem se foi para tão longe
E deixou seu passarinho,
Quando vier não se anoje,
Si achar outro no ninho.
Si eu achar outro no ninho,
Hei-de fazel-o voar;
Qu'eu não fui fazer meu ninho
Para outro se deitar.
Passarinho do capim,
Beija-fulor da limeira,
Não ha dinheiro que pague
Beijo de moça solteira.
ROMERO, Sylvio (org.). “O passarinho”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 128-129.
Oh ciranda, oh ciranda
Oh ciranda, oh ciraodinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar;
Vamos dar a volta inteira,
Cavalleiro, troque o par.
Rua abaixo, rua acima, S
empre com o chapéo na mão,
Namorando as casadas,
Que as solteiras minhas são.
Aqui estou na vossa porta
Feito um feixinho
de lenha,
Esperando pela resposta
Que da vossa bocca venha.
Caranguejo não é peixe,
Caranguejo peixe é ;
Caranguejo só é peixe
Na vasa o te da mar é.
Dá-ri -rá-Já-lálá-lá.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lé. ..
Caranguejo só é peixe
Na vasante da maré.
Atirei com o limãosinho
Na mocinha da janella;
Deu no cravo, deu na rosa,
Bateu nos peitnbos d'ella.
Craveiro, dá-me um cravo,
Roseira, dá-me um botão;
Menina, me dá meu beijo
Qu'eu te dou meu coração.
Minha mãi bem que me disse
Que eu não fosse á fonçào,
Qu'eu tinha meu nariz tórto,
Servia de mangação.
ROMERO, Sylvio (org.). “Oh ciranda, oh cirandinha”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 248-249.
Pinheiro
Pinheiro, me dá uma pinha
Qu'eu te darei um pinhão,
Menina, dá-me os teus braços,
Qu'eu te dou meu coração.
Quem tem pinheiro tem pinha,
Quem tem pinha tem pinhão,
Quem tem amores tem zelos,
Quem tem zelos tem paixão.
Oh que pinheiro tão alto,
Que de alto se envergou!
Que menina tão ingrata,
Que de ingrata me deixou!
Que pinheiro tão baixo
Com tamanha galharada !
Nunca eu vi moça solteira
Com tamanha filharada.
ROMERO, Sylvio (org.). “Pinheiro”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 257-258.
Quadras popularisadas
Menina, sáia da janella,
Que a janella não' é sua :
<< Ó chente, senhor tenente,
Deixe a gente vêr a rua.
-Menina, sáia da janella,
Vá p'ra dentro da cozinha :
<< Ó chente, senhor tenente, '
Deixe a gente vêr a visinha.
ROMERO, Sylvio (org.). “Quadras popularizadas”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 259.
Variante do Rio Grande
-Meu bemzinho, diga, diga,
Por tua boca confessa
Si algum dia tu tiveste
Amor que mais eu quizesse .
Mas confesso que não tive
Quem mais trabalho me desse.
<<Si mais trabalho lhe dei,
Por tua mão procuraste,
Que de casa de meus paes
Bem raivosa me tiraste.
Si raivosa te tirei,
Por me vêr perseguido,
Quantas e quantas vezes
Bem me tenho arrependido !
- ·Porque te arrependes, ingrata,
Tendo eu um genio doce?
Prouvéra que eu fosse amoroso,
Não andavas tão desgostosa.
Que desgostosa vossé vive,
Vivendo d'esta sorte;
Te prometto lealdade,
Lealdade até á morte.
« Pois eu sinto e sentirei,
Sinto mil ingratidões ;
Sinto ser uma dôna
E roubada dos ladrões.
Eu dos ladrões nunca fui,
E de juro de não ser,
Enquanto viver sujeita
Debaixo de seu poder.
- Debaixo de meu poder
Foi que tiveste valia;
Que sahindo para fóra
Acabaes a fidalguia.
<<Fidalguia sempre tive,
Que d'isto me hei de gabar,
Que com gente d'outra esphera
Não me hei-de misturar.
-Misturar hei-de por força,
Que isto vem de geração;
Que as meninas d’estes tempos
Não se dão á estimação.
«Estimação não se dão
Aquellas que são pobres ;
Que uma rica como eu
Só procura gente nobre.
-Gente nobre hei de por força,
Que isto vem por festejar ;
Que o peor é dar-lhe um couce,
E o melhor vem a ficar.
Já sei que queres dizer .. .
Queres dominar o meu corpo,
Isto me daes a entender.
ROMERO, Sylvio (org.). “Variante do Rio Grande”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.130-131.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)