Infância
E volta sempre a infância
com suas íntimas, fundas amarguras.
Oh! por que não esquecer
as amarguras
e sòmente lembrar o que foi suave
ao nosso coração de seis anos?
A misteriosa infância
ficou naquele quarto em desordem,
nos soluços de nossa mãe
junto ao leito onde arqueja uma criança;
nos sobrecenhos de nosso pai
examinando o termômetro: a febre subiu;
e no beijo de despedida à irmăzinha
à hora mais fria da madrugada.
A infância melancólica
ficou naqueles longos dias iguais,
a olhar o rio no quintal horas inteiras,
a ouvir o gemido dos bambús verde-negros
em luta sempre contra as ventanias!
A infância inquieta
ficou no mêdo da noite
quando a lamparina vacilava mortiça
e ao derredor tudo crescia escuro, escuro…
A menininha ríspida
nunca disse a ninguém que tỉnha mêdo,
porém Deus sabe como seu coração batia no escuro,
Deus sabe como seu coração ficou para sempre diante da vida
- batendo, batendo assombrado!
LISBOA, Henriqueta. “Infância”. In: Prisioneira da noite. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1941, p. 15.
Romance
E' Maria Flor de Maio
o nome de uma menina.
Procurai nesta cidade
a mais delicada e linda:
é Maria Flor de Maio.
Sempre de branco vestida,
tem os olhos côr de hortênsia.
Manhã cedo vai à missa,
de dia cuida de crianças
- Maria que é flor de maio.
E quando vem vindo a noite
espera que chegue o noivo.
Mas com tal constrangimento,
com tanto rubor à face,
que eu tenho o pressentimento
que Maria Flor de Maio
morre antes de casar-se.
LISBOA, Henriqueta. “Romance”. In: Prisioneira da noite. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1941, p. 87.