Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Alberto de Oliveira (1859-1937)


Marca d'água

Angela

Lá no inverno da vida entrado havia
E dela se dizia nessa idade
Que era a mesma alma diferente e fria.

A mesma da primeira mocidade;
Nunca de amor batera aquele peito;
Nunca os olhos lhe enchera uma saudade…

Tinham por ela espécie de respeito,
Mesmo no tempo em que era moça e bela,
Por seu olhar à luz divina afeito.

Em seu quarto, à feição de estreita cella,
— Único ser em vida que adorava, —
Um Cristo havia sobre a cruz singela.

Nada essa vida angélica turbava;
Nunca a paixão, que mesmo ao forte humilha,
Pôde vencê-la, impetuosa e brava;

Isenta do erro, que é commum partilha,
Ascendia a sua alma, oh quem a visse!
Dos puros céus à iluminada trilha.

E as rugas já primeiras da velhice
Lhe iam sulcando: o rosto dolorido,
Sem que o seu seio uma só vez bolisse…

Sem que ninguém jamais tivesse ouvido
Aquela boca um nome apaixonado,
Àquele peito a nota de um gemido!

E em seu ermo retiro sossegado,
— Eterno e branco lírio — ella sorria,
Longe do mundo, longe do pecado.

Era sublime assim. Porém um dia
A luz do amor feriu-a em seu degredo,
Por influxo de incógnita magia.

Talvez, passando as contas em segredo,
Uma, do tênue fio desgarrada,
Foi-lhe no seio se ocultar a medo;

Talvez, por frincha exigua e delicada
Em seu triste aposento alguém coasse
O extenso raio dessa luz dourada…

O certo é que ela amou, como se amasse
Aos seus vinte annos, e o rubor do pejo
Pela primeira vez lhe tinge a face;

Pulsa-lhe a carne ao sopro do desejo,
E pela vez primeira se lhe cresta
O lábio, em febre, apetecendo um beijo…

Assim na aldeia um templo, onde não resta
Nem mais culto, nem fé, nem celebrante,
Acorda um dia, por manhã de festa;

Cobre-se o altar de flores, ressonante
O órgão desperta e, aos ventos matutinos,
Ouve surpreso o camponez distante
Na velha torre o bimbalhar dos sinos.


OLIVEIRA, Alberto de. “Angela”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 242.

 


Marca d'água

Immortal

Não ser eterna a tua formosura!
Essa marmórea tez, essa marmórea
Presença tua, teu olhar tão doce,
Teus rubros lábios, tua coma escura,
Tudo o que em ti traduz a pompa, a glória
Da mocidade, tu eterna fôsse!

Do tempo a mão sacrílega poupasse
De teus contornos o supremo encanto,
A linha ideal, que me arrebata agora;
Ficasse a mesma tua eburnea face,
Tu ficaste a mesma e, a espádua o manto,
Voasses, rainha, pelos séculos fora;

E quando a fronte me alvejasse inteira,
Velho, trôpego já, me fosse dado
Vêr-te ainda uma vez, uma somente;
Mas vêr-te e ainda sentir esta cegueira
Doida por ti, mas vêr-te e, alvoroçado,
Tornar-me ás veias o meu sangue ardente;

Ver-te, como através de espessa bruma,
Em clima frio, o sol que por momento
Rompe, eleva-se, brilha e tudo invade
E por momento eu crer que de uma em uma
Voltam-me as ilusões, e o firmamento
Reaparece da extincta mocidade:

Vêr-te, e a febre que as têmporas me incende
Pulsar de novo, e novamente o peito
Bater-me do desejo á sede infinda;
E o céu que amo, o ar que aspiro, a luz que esplende,
Tudo ouvir que num cântico desfeito
Diz-me aos ouvidos: Estás moço ainda!

Goza! estás moço! mas um dia apenas!
Goza! ressuscitamos para dar-te
Num dia apenas quanto tens vivido.
— E, as mãos erguendo, eu tatear as pennas
Dos sonhos que espalhei por toda a parte,
— Aves de um dia que julguei perdido;

Vêr-te e morrer cantando, em voz ansiosa,
As sílabas de luz do poema de ouro
Que todos, moços, tanta vez cantamos,
Como ao nascer de uma manhã formosa
Casam-se aos raios do levante louro
Na mesma trova os sabiás nos ramos;

Vêr-te e morrer depois! que mais quisera?!
Meu doudo sonho! mas morrer, vibrante,
Trêmulo ainda de paixões, de zelos!

Inda o cheiro a beber da primavera
Nos teus vestidos e ainda palpitante
Minha boca a sumir nos teus cabelos!

Etu, sobre meu peito reclinada,
Com a mão nervosa me apertando a cinta,
A contar-me os teus últimos segredos...
Assim numa harpa antiga e abandonada
Alguém, saudoso da harmonia extincta,
Lembra-se um dia de correr os dedos;

E corda a corda, como na sombria
Face de um lago um frêmito perpassa,
Um frêmito de sons por ela corre;
Mas afinal ao somno em que jazia
Torna o instrumento. E o frêmito esvoaça,
Esvoaça ainda e vagaroso morre...


OLIVEIRA, Alberto de. “Immortal”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 329.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)