Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)
Luciana
As raparigas que dançavam,
Luciana, a pálida, todas
Como os frutos apodrecerão.
Porque só há um destino,
Com muitos caminhos, embora.
Depois outras raparigas é que dançarão.
Luciana passará, com seu sorriso triste.
Suas mãos brancas repousarão,
Porque só há um destino
Com muitos caminhos, embora.
Cada um conhece o seu destino.
Luciana, a pálida, e as outras, também,
Todas as raparigas que dançavam.
Cada um traz seu destino no rosto.
No rosto de Luciana e das outras também,
Em breve, todas as figuras mudarão,
Serão outras, tudo terá passado,
Os homens e as mulheres, o salão,
Os móveis, nem lembrança sequer restará.
Luciana terá desaparecido como a poeira da estrada.
Como a poeira, o tempo dispersará a fisionomia de Luciana
E — atentai bem — Luciana não se repetirá.
Ninguém se repete, no tempo. Cada um é diferente.
Cada um existe uma vez só. E não é substituído.
Contemplai bem pois, Luciana, que não se repete.
SCHMIDT, Augusto Frederico. “Luciana” In: Cadernos de Cultura, volume 98. MEC, RJ, 1956, p. 26.
Grande, Fria e Feliz
Grande, fria e feliz.
Que seios os teus amor!
Que olhar de febre caindo
Sobre os abismos em flor!
Grande, fria e feliz -
Que mãos as tuas amor
Feitas para as agonias,
Para os delírios frementes
Para as carícias selvagens,
Que mãos as tuas amor!
Que corpo violento amor!
Que energia soberana
Dele vem, cresce e domina.
No entanto sem coração
Às desgraças vais sorrindo,
Grande, fria e feliz!
Grande, fria e feliz
Quero-te assim para sempre,
Quero-te assim para sempre
Quero-te forte e inclemente,
Mas dadivosa e secreta
Porque a tudo indiferente
Grande, fria e feliz!
SCHMIDT, Augusto Frederico. “Grande, Fria e Feliz” In: Cadernos de Cultura, volume 98. MEC, RJ, 1956, p. 52.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)