Mário de Andrade (1893-1945)
Ode ao burguês
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curval o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques russos!
Que vivem dentro de muros sem pulos;
E gemem sangues de alguns milréis fracos
Para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
E tocam o Printemps com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suíça! Morte viva ao Adriano!
“Aí, filha, que te darei pelos teus anos
—Um colar…— Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares
Ódio aos relógios musculares! Morte e infância!
Ódio à sorna! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
Sempiternamente aos mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Março eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
Cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fui Fora o bom burguês!...
ANDRADE, Mário de. “Ode ao burguês”. In: Pauliceia desvairada. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 87-88.
XXXII
AS MOÇAS
Cinco ou seis...
E me senti mais só no meio delas.
Rostos de luas coloridas,
Conversas fiadas de mulheres...
Mas a cidade continua...
PALMA DE MÃO...
E li nas linhas ruas
O destino daquela mocidade.
– É fatal: deixai-me a rir
E sorrindo parti!
Ela se fechará pra vos prender.
Antes se rir.
Vamos! mais rouge riso pros lábios,
Os sapatinhos de verniz,
Sedas e coração!
E é aguentar o cinema quotidiano!
Cowboys predestinados
Raptos elétricos...
E tudo acaba mal.
Sofrei!
... A própria dor é uma felicidade.
E ei-las partindo.
Longe de mim.
Voo de moças!
Voo de moscas assustadas...
E vão se debater ansiosas na vidraça...
E A MÃO QUE AS VAI PEGAR!
E fiquei a me rir...
Rindo das moças,
das moscas,
da vida...
das lágrimas nos olhos pequeninos.
ANDRADE, Mário de. “XXXII”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 178-179.
XXXIV
LOUVAÇÃO DA EMBOABA TORDILHA
Eu irei na Inglaterra
E direi a todas as moças da Inglaterra
Que não careço delas
Porque te possuo.
Irei na Itália
E direi a todas as moças da Itália
Que não careço delas
Porque te possuo.
Irei nos Estados-Unidos
E direi a todas as moças dos Estados-Unidos
Que não tenho nada com elas
Porque te possuo.
Depois irei na Espanha
e direi para todas as niñas da Espanha
Que não tenho nada com elas
porque te possuo.
(etc.)
Quando voltar ao Brasil
Te mostrarei a irmã dos teus cabelos,
Minha constância triunfante.
Será bonito enxergar as irmãs abraçadas na rua!
E inda terei de ir numa terra que eu sei...
Mas não será pra lhe gritar minha felicidade fanfarrã...
Será numa comovida silenciosa romaria
De amor, de reconhecimento.
ANDRADE, Mário de. “XXXIV”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 183-184.
XXXVIII
Manhã veraneja, manhã que dá sustância,
Toda lisa sem nuvens
sem cuidados
cansaços...
Adiante o morro sacode o ombro indiferente.
Curiosidade de viver!
Cadência bem batida, regular.
Porém o sargento embirrou com o alinhamento das armas.
“– Alinhem essas armas, senhores!”
O sargento ignora a influência do sangue latino.
Impaciência.
Mocidade.
Verso-livre...
Alegria grita em mim.
Curiosidade de viver!
“– Senhores, as armas!”
... e os barões assinalados
Que da ocidental praia lusitana...
Marco a cadência com versos de Camões.
Ineses fugitivas nas janelas e portas.
Amo todas as moças brancaranas ou louras
E a manhã despenteando nos telhados seus cabelos fogaréu...
Curiosidade de viver!
Sargento Vitoriano,
Sapeque o seu jamegão latino
Nesta desalinhada Companhia brasileira!
ANDRADE, Mário de. “XXXVIII”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 188-189.
XXXIX
PARADA
(7 de setembro de 1922)
“– Colunas de pelotões por quatro!”
O DESFILE PRINCIPIA.
O refle rombudo da soldadesca marchando
Mansamente se embainha na Avenida.
“– Olhe a conversão!”
Conversão de S. Paulo...
Todos convergem pra esquerda.
Lá está Bilac estreando a fatiota de bronze.
Pátria latejo em ti...
Meu Brasilzinho do coração!
A alma da gente drapeja no espaço cinzento.
Os mil milhões de rosas paulistanas.
Moça bonita!
Muitas moças.
Conhecidos.
“– Troque o passo!”
Gi, Taco, Maria, que lindos os três!
Máquinas cinematográficas.
My Boy.
Não posso me rir.
Olhar altivo pra frente...
Na minha frente
O cabo mais descabido deste mundo.
Rua Augusta curiosa.
Todas as ruas transversais espiando curiosas
Trepadas em trincheiras de automóveis.
Sorveteiro.
Moça bonita!
Palmas.
Grade dos escoteiros perfilados.
Cunhãs, velhas corocas debruçadas...
Brutas!
No parapeito das cabeças infantis.
As famílias dos mitras nos castelos roqueiros
Apresentam armas em negligé.
Zero uniforme.
Este cabo caminha em contratempo,
Cinco por quatro,
Tal e qual Boieldieu na Dama branca
“Viens, gentille dame”...
Zortzico de Albeniz...
Esculhamba toda a marcha!
Moça bonita!
“– Olhe o Mário de Andrade!”
Se enganou, moça.
Onde estarei?
Ela não veio com certeza...
Que bem me importa!
Saiba a cidade de S. Paulo
Que nela vive um homem feliz!
“– Olhe a cadência!”
O TRIANON VAI PASSAR
Palmas.
O tenente gesticula com a espada
E todos olham pra direita em continência.
Músicas.
Ovação.
Trinta carinhas adoráveis.
Esta família sorocaba...
Tudo procissiona em meus olhos um-dois...
Árvores,
O preto,
Beiço vermelho tapa o resto.
Moça bonita!
Músicas.
Cornetas.
Cornacas.
Bengalós.
No alto dum palanquim
Sua Excia. o marajá de Khajurao.
O sr. presidente do Estado não gosta de Modernismo...
Olha pra mim!
“– Fora de forma!
Quarenta dias de prisão!...”
Oh, minhas alucinações!
Moça bonita!
Palmas.
Passou o palanquim.
Serenamente continuou sua jornada
Sua Excia. o marajá de Khajurao.
E os diademas de pérolas luzentes
Nos risos das favoritas.
Toneladas de moças bonitas!
“– Viva o Brasil!”
“– Viva o Quarto Batalhão de Caçadores!”
Risos.
Sorveteiro-sorveteiro.
Acerte o passo, cabo!
Um senhor três filhas gordas,
Colares falsos,
Terra-roxa,
Guaratinguetá,
Tabatinguera,
Oblivion!
Oblivion...
Está acabando a preocupação.
Braço dói.
A Avenida escampou.
Não tem mais moça bonita.
Quedê as palmas?
Não existo.
Não marcho.
Muito longe
Nos cafundós penumbristas de Santo Amaro
O vácuo badalando badalando...
Eco dentro de mim.
Não tem mais Independência do Brasil.
Olhos defuntos.
Ninguém.
Nada.
Pra que tanto tambor?
O braço nem dói mais.
Cheiros de almoços mayonnaises.
Sol crestado nas nuvens que nem PÃO.
Kennst du das Land
Wo die Zitronen blühen?...
Assombrações desaparecidas.
O mundo não existe.
Não existo.
Não sou.
CICLIZAÇÃO
Alô?...
Dava dez milréis por um copo de leite.
ANDRADE, Mário de. “XXXIX”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 190-194.
Viuvita
Ela era mesmo bonita, muito moça
Esperando autobonde sozinha na esquina.
Todos os homens a encaravam sem respeito, desejando.
Vai, pra se livrar de tanta amolação
Ela fez esse gesto de moça que arranja chapéu,
Só pra mostrar a defesa que tinha no dedo, uma aliança.
A moça esqueceu que tinha duas alianças no dedo...
Por causa disso, os homens se aproximaram mais.
ANDRADE, Mário de. “Viuvita”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 231.
Noturno de Belo Horizonte
a Elísio de Carvalho
Maravilha de milhares de brilhos vidrilhos,
Calma do noturno de Belo Horizonte…
O silêncio fresco desfolha das árvores
E orvalha o jardim só.
Larguezas.
Enormes coágulos de sombra.
O polícia entre rosas…
Onde não é preciso, como sempre…
Há uma ausência de crimes
Na jovialidade infantil do friozinho.
Ninguém.
O monstro desapareceu.
Só as árvores árvores do mato-virgem
Pendurando a tapeçaria das ramagens
Nos braços cabindas da noite.
Que luta pavorosa entre floresta e casas…
Todas as idades humanas
Macaqueadas por arquiteturas históricas
Torres torreões torrinhas e tolices
Brigaram em nome da?
Os mineiros secundam em coro:
– Em nome da civilização!
Minas progride.
Também quer ter também capital moderníssima também…
Pórticos gregos do Instituto de Rádio
Onde jamais Empédocles entrará…
O Conselho Deliberativo é manuelino,
Salão sapiente de Manuéis-da-hora…
Arcos românicos de São José
E a catedral que pretende ser gótica…
Pois tanto esquecimento da verdade!
A terra se insurgiu.
O mato invadiu o gradeado das ruas,
Bondes sopesados por troncos hercúleos,
Incêndio de Cafés,
Setas inflamadas,
Comboio de trânsfugas pro Rio de Janeiro,
A ramaria crequenta cegando as janelas
Com a poeira dura das folhagens…
Aquele homem fugiu.
A imitação fugiu.
Clareiras do Brasil, praças agrestes!…
Paz.
O mato vitorioso acampou nas ladeiras.
Suor de resinas opulentas.
Grupos de automóveis:
Baitacas e jandaias do rosal.
E o noturno apagando na sombra o artifício e o defeito
Adormece em Belo Horizonte
Como um sonho mineiro.
Tem festas do Tejuco pelo céu!
As estrelas baralham-se num estardalhaço de luzes.
O sr. barão das Catas-Altas
Reúne todas as constelações
Pra fundir uma baixela de mundos…
Bulício de multidões matizadas…
Emboabas, carijós, espanhóis de Felipe IV…
Tem baianos redondos…
Dom Rodrigo de Castel Branco partirá!…
Lumeiro festival… Gritos… Tocheiros…
O Triunfo Eucarístico abala chispeando…
Os planetas comparecem em pessoa!
Só as magnólias – que banzo dolorido! –
As carapinhas fofas polvilhadas
Com a prata da Via-Látea
Seguem pra igreja do Rosário
E pro jongo de Chico-Rei…
Estrelas árvores estrelas
E o silêncio fresco da noite deserta.
Belo Horizonte desapareceu
Transfigurada nas recordações.
… Minas Gerais, fruta paulista…
Ouvi que tem minas ocultas por cá…
Mas ninguém mais conhece Marcos de Azeredo,
Quedê os roteiros de Robério Dias?
Prata
Diamantes cascateantes
Esmeraldas esmeraldas esperanças!…
Não são esmeraldas, são turmalinas, bem se vê:
A casinha de taipa a beira-rio.
Canoa abicada na margem,
A bruma das monções,
Mais nada.
Os galhos lavam matinalmente os cabelos
Na água barrenta indiferente.
As ondas sozinhas do Paraíba
Morrem avermelhadas mornas cor-de-febre.
E a febre…
Não sejamos muito exigentes.
Todos os países do mundo
Tem os seus Guaicuis emboscados
No sossego das ribanceiras dolentes.
As carneiradas ficavam pra trás…
O trem passava apavorado.
Só parou muito longe na estação
Pra que os romeiros saudassem
Nosso Senhor da Boa-Viagem.
Ele ficava imóvel na beira dos trilhos
Amarrado à cegueira.
Trazia só os molambos necessários
Como convém aos santos e
Aos avarentos.
Porém o netinho corria junto das janelas dos vagões
Com o chapéu do cego na mão.
Quando a esmola caía – com que triunfo! – o menino gritava:
– Pronto! Mais uma!
Então lá do seu mundo
Nosso Senhor abençoava:
– Boa viagem.
Examina a carne do teu corpo.
Apesar da perfeição das estradas-de-ferro
E da inflexível providência dos horários,
Encontros descarrilamentos mortes…
Pode ser!…
As esmolas tombavam.
– Pronto! Mais uma!
– Boa viagem.
Minas Gerais de assombros e anedotas…
Os mineiros pintam diariamente o céu de azul
Com os pincéis das macaúbas folhudas.
Olhe a cascata lá!
Súbita bombarda.
Talvez folha de arbusto,
Ninho de teneném que cai pesado,
Talvez o trem, talvez ninguém…
As águas se assustaram
E o estouro dos rios começou.
Vão soltos pinchando rabanadas pelos ares,
Salta aqui salta corre viravolta pingo grito
Espumas brancas alvas
Fluem bolhas bolas,
Itoupavas altas…
Borbulham bulhando em murmúrios churriantes
Nas bolsas brandas largas das enseadas lânguidas…
De supetão fosso.
Mergulho.
Uivam tombando.
Desgarram serra abaixo.
Rio das Mortes
Paraopeba
Paraibuna,
Mamotes brancos…
E o Araçuí de Fernão Dias…
Barafustam vargens fora
Até acalmarem muito longe exânimes
Nas polidas lagoas de cabeça pra baixo.
Rio São Francisco o marrueiro dos matos
Partiu levando o rebanho pro norte
Ao aboio das águas lentamente.
A barcaça que ruma pra Juazeiro
Desce ritmada pelos golpes dos remeiros.
Na proa, o olhar distante a olhar,
Matraca o dançador:
“Meu pangaré arreado,
Minha garrucha laporte,
Encostado no meu bem
Não tenho medo da morte.
Ah!…”
Um grande Ah!… aberto e pesado de espanto
Varre Minas Gerais por toda a parte…
Um silêncio repleto de silêncio
Nas invernadas, nos araxás,
No marasmo das cidades paradas…
Passado a fuxicar as almas,
Fantasmas de altares, de naves douradas
E dos palácios de Mariana e Vila Rica…
Isto é: Ouro Preto.
E o nome lindo de São José d’El Rei mudado num odontológico Tiradentes…
Respeitemos os mártires.
Calma do noturno de Belo Horizonte…
As estrelas acordadas enchem de Ahs!… ecoantes o ar.
O silêncio fresco despenca das árvores.
Veio de longe, das planícies altas,
Dos cerrados onde o guaxe passa rápido…
Vvvvvvv… passou.
Passou tal qual o fausto das paragens de ouro velho…
Minas Gerais, fruta paulista…
Fruta que apodreceu.
Frutificou mineira! Taratá!
Há também colheitas sinceras!
Milharais canaviais cafezais insistentes
Trepadeirando morro acima.
Mas que chãos sovinas como o mineiro-zebu!
Dizem que os baetas são agarrados…
Não percebi, graças a Deus!
Na fazenda do Barreiro recebem opulentamente.
Os pratos nativos são índices de nacionalidade.
Mas no Grande Hotel de Belo Horizonte servem à francesa.
Et bien! Je vous demande un toutou!
Venha a batata-doce e o torresmo fondant!
Carne-de-porco não!
O médico russo afirma que na carne-de-porco andam micróbios de loucura…
Basta o meu desvairismo!
E os pileques
quase pileques
salamaleques
da caninha de manga!…
Taratá! Quero a couve mineira!
Minas progride!
Mãos esqueléticas de máquinas britando minérios,
As estradas-de-ferro estradas-de-rodagem
Serpenteiam teosoficamente fecundando o deserto…
Afinal Belo Horizonte é uma tolice como as outras.
São Paulo não é a única cidade arlequinal.
E há vida há gente, nosso povo tostado.
O secretário da Agricultura é novo!
Fábricas de calçados
Escola de Minas no palácio dos Governadores,
Na Casa dos Contos não tem mais poetas encarcerados,
Campo de futebol em Carmo da Mata,
Divinópolis possui o melhor chuveiro do mundo,
As cunhãs não usam mais pó de ouro nos cabelos,
Os choferes avançam no bolso dos viajantes,
Teatro grego em São João d’El Rei
Onde jamais Eurípedes será representado…
Ninguém mais para nas pontes, Critilo,
Novidadeirando sobre damas casadas.
Tenho pressa! Ganhemos o dia!
Progresso! Civilização!
As plantações pendem maduras.
O morfético ao lado da estrada esperando automóveis…
Cheiro fecundo de vacas,
Pedreiras feridas,
Eletricidade submissa…
Minas Gerais sáxea e atualista
Não resumida às estações-termais!
Gentes do Triângulo Mineiro, Juiz de Fora!
Força das xiriricas das florestas e cerrados!
Minas Gerais, fruta paulista!…
Alegria da noite de Belo Horizonte!
Há uma ausência de males
Na jovialidade infantil do friozinho.
Silêncio brincalhão salta das árvores,
Entra nas casas desce as ruas paradas
E se engrossa agressivo na praça do Mercado.
Vento florido roda pelos trilhos.
Vem de longe, das grotas pré-históricas…
Descendo as montanhas
Fugiu dos despenhadeiros assombrados do Rola-Moça…
Estremeção brusco de medo.
Pavor.
Folhas chorosas de eucaliptos.
Sino bate.
Ninguém.
A solidão angustiosa dos píncaros…
A paz chucra, ressabiada, das gargantas da montanha…
A serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não…
Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.
Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puseram de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.
Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.
A serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.
As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões
Temendo a noite que vinha.
Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam
Buscando o despenhadeiro.
Ah, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte.
Na altura tudo era paz…
Chicoteando o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.
E a serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.
Eu queria contar as histórias de Minas
Aos brasileiros do Brasil…
Filhos do Luso e da melancolia,
Vem, gente de Alagoas e de Mato Grosso,
De norte e sul homens fluviais do Amazonas e do rio Paraná…
E os fluminenses salinos
E os guascas e os paraenses e os pernambucanos
E os vaqueiros de couro das caatingas
E os goianos governados por meu avô…
Teutos de Santa Catarina,
Retirantes de língua seca,
Maranhenses paraibanos e do Rio Grande do Norte e do Espírito Santo
E do Acre, irmão caçula,
Toda a minha raça morena!
Vem, gente! vem ver o noturno de Belo Horizonte!
Sejam comedores de pimenta
Ou de carne requentada no dorso dos pigarços petiços,
Vem, minha gente!
Bebedores de guaraná e de açaí,
Chupadores do chimarrão,
Pinguços cantantes, cafezistas ricaços,
Mamíferos amamentados pelos cocos de Pindorama,
Vem, minha gente, que tem festas do Tejuco pelo céu!
Bárbara Heliodora desgrenhada louca
Dizendo versos desce a rua do Pará…
Quem conhece as ingratidões de Marília?
Juro que foi Nosso Senhor Jesus Cristo Ele mesmo
Que plantou a sua cruz no adro das capelas da serra!
Foi Ele mesmo que em São João d’El Rei
Esculpiu as imagens dos seus santos…
E há histórias também pros que duvidam de Deus…
O coronel Antônio de Oliveira Leitão era casado com dona
Branca Ribeiro do Alvarenga, ambos de orgulhosa nobreza
vicentina. Porém nas tardes de Vila Rica a filha deles abana-
va o lenço no quintal… – “Deve ser a algum plebeu, que não
há moços nobres na cidade…” E o descendente de cavaleiros
e capitãesmores não quer saber de mésalliances. O coronel
Antônio de Oliveira Leitão esfaqueou a filha. Levaram-no
preso à Baía onde foi decapitado. Pois dona Branca Ribei-
ro do Alvarenga reuniu todos os cabedais. Mandou cons-
truir com eles uma igreja para que Deus perdoasse as almas
pecadoras do marido e da filha.
Meus brasileiros lindamente misturados,
Se vocês vierem nessa igreja dos Perdões
Rezem três ave-marias ajoelhadas
Pros dois desinfelizes.
Creio que a moça não carece muito delas
Mas ninguém sabe onde estará o coronel…
Credo!
Mas não há nada como histórias pra reunir na mesma casa…
Na Arábia por saber contar histórias
Uma mulher se salvou…
A Espanha estilhaçou-se numa poeira de nações americanas
Mas sobre o tronco sonoro da língua do ão
Portugal reuniu 22 orquídeas desiguais.
Nós somos na Terra o grande milagre do amor!
Que vergonha se representássemos apenas contingência de defesa
Ou mesmo ligação circunscrita de amor…
Porém as raças são verdades essenciais
E um elemento de riqueza humana.
As pátrias têm de ser uma expressão de Humanidade.
Separadas na guerra ou na paz são bem pobres
Bem mesquinhos exemplos de alma
Mas compreendidas juntas num amor consciente e exato
Quanta história mineira pra contar!
Não prego a guerra nem a paz, eu peço amor!
Eu peço amor em todos os seus beijos,
Beijos de ódio, de cópula ou de fraternidade.
Não prego a paz universal e eterna, Deus me livre!
Eu sempre contei com a imbecilidade vaidosa dos homens
E não me agradam os idealistas.
E temo que uma paz obrigatória
Nos fizesse esquecer o amor
Porque mesmo falando de relações de povo e povo
O amor não é uma paz
E é por amor que Deus nos deu a vida…
O amor não é uma paz, bem mais bonito que ela,
Porque é um completamento!…
Nós somos na Terra o grande milagre do amor!
E embora tão diversa a nossa vida
Dançamos juntos no carnaval das gentes,
Bloco pachola do “Custa mas vai!”
E abre alas que Eu quero passar!
Nós somos os brasileiros auriverdes!
As esmeraldas das araras
Os rubis dos colibris
Os abacaxis as mangas os cajus
Atravessam amorosamente
A fremente celebração do Universal!
Que importa uns falem mole descansado
Que os cariocas arranhem os erres na garganta
Que os capixabas e paroaras escancarem as vogais?
Que tem se o quinhentos réis meridional
Vira cinco tostões do Rio pro Norte?
Juntos formamos este assombro de misérias e grandezas,
Brasil, nome de vegetal!…
O bloco fantasiado de histórias mineiras
Move-se na avenida de seis renques de árvores…
O sol explode em fogaréus…
O dia é frio sem nuvens, de brilhos vidrilhos…
Não é dia! Não tem sol explodindo no céu!
É o delírio noturno de Belo Horizonte…
Não nos esqueçamos da cor local:
Itacolomi… Diário de Minas… Bondes do Calafate…
E o silêncio… sio… sio… quiriri…
Os seres e as coisas se aplainam no sono.
Três horas.
A cidade oblíqua
Depois de dançar os trabalhos do dia
Faz muito que dormiu.
Seu corpo respira de leve o aclive vagarento das ladeiras.
De longe em longe gritam solitários brilhos falsos
Perfurando o sombral das figueiras:
Berenguendens berloques ouropéis de Oropa consagrada
Que a goiana trocou pelas pepitas de ouro fino.
Dorme Belo Horizonte.
Seu corpo respira de leve o aclive vagarento das ladeiras…
Não se escuta sequer o ruído das estrelas caminhando…
Mas os poros abertos da cidade
Aspiram com sensualidade com delícia
O ar da terra elevada.
Ar arejado batido nas pedras dos morros,
Varado através da água trançada das cachoeiras,
Ar que brota nas fontes com as águas
Por toda a parte de Minas Gerais.
ANDRADE, Mário de. “Noturno de Belo Horizonte”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 240-259.
Toada do Pai-Do-Mato
(Índios Parecis)
A moça Camalalô
Foi no mato colher fruta.
A manhã fresca de orvalho
Era quase noturna.
– Ah…
Era quase noturna…
Num galho de tarumã
Estava um homem cantando.
A moça sai do caminho
Pra escutar o canto.
– Ah…
Ela escuta o canto…
Enganada pelo escuro
Camalalô fala pro homem:
Ariti, me dá uma fruta
Que eu estou com fome.
– Ah…
Estava com fome…
O homem rindo secundou:
– Zuimaalúti se engana,
Pensa que sou ariti?
Eu sou Pai-do-Mato.
Era o Pai-do-Mato!
ANDRADE, Mário de. “Toada do Pai-Do-Mato”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 264-265.
Poema
Neste rio tem uma iara…
De primeiro o velho que tinha visto a iara
Contava que ela era feiosa, muito!
Preta gorda manquitola ver peixe-boi.
Felizmente velho já morreu faz tempo.
Duma feita, madrugada de neblina,
Um moço que sofria de paixão
Por causa duma índia que não queria ceder pra ele,
Se levantou e desapareceu na água do rio.
Então principiaram falando que a iara cantava, era moça,
Cabelos de limo verde do rio…
Ontem o piá brincabrincando
Subiu na igara do pai abicada no porto,
Botou a mãozinha na água funda
E vai, a piranha abocanhou a mãozinha do piá.
Neste rio tem uma iara…
ANDRADE, Mário de. “Poema”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 267-268.
Coco do major
A Antônio Bento de Araújo Lima
O major Venâncio da Silva
Guarda as filhas com olho e ferrolho,
Que vidinha mais caningada
– seu mano –
Elas levam no engenho do velho!
Nem bem a arraiada sonora
Vem tangendo as juremas da estrada
Já as três se botam na renda
– seu mano –
Trequetreque de bilros, mais nada.
Vai, um mocetão paroara
Destorcido porém sem cabeça
Apostou num coco da praia
– seu mano –
Que daria uma espiada nas moças.
Pois a fala do lambanceiro
Foi parar direitinho no ouvido
Do major Venâncio da Silva
– seu mano –
Que afinal nem se deu por achado.
Bate alguém na sede do engenho.
– Seu major, ando morto de sede,
Por favor me dê um copo de água...
– seu mano –
– Pois não, moço! Se apeie da égua.
Dois negrões agarram o afoito,
O major assobia pra dentro.
Vêm três moças lindas chorando
– seu mano –
Com quartinhas de barro cinzento.
– Esta é minha filha mais velha,
Beba, moço, que essa água é de sanga.
E os negrões obrigam o pobre
– seu mano –
A engolir a primeira moringa.
– Esta é minha filha do meio,
Beba, moço, que essa água é de corgo.
E os negrões obrigam o pobre
– seu mano –
A engolir a moringa, já vesgo.
– Esta é minha filha mais nova,
Beba, moço, que essa água é de fonte.
E os negrões afogam o pobre
– seu mano –
Que adubou os facheiros do monte.
O major Venâncio da Silva
Tem as filhas mais lindas do norte,
Mas ninguém não viu as meninas
– seu mano –
Que ele as guarda com água de pote
ANDRADE, Mário de. “Coco do major”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 274-276.
Eu nem sei se vale a pena
Eu nem sei se vale a pena
Cantar São Paulo na lida,
Só gente muito iludida
Limpa o goto e assopra a avena,
Esta angústia não serena,
Muita fome pouco pão,
Eu só vejo na função
Miséria, dolo, ferida,
Isso é vida?
São glórias desta cidade
Ver a arte contando história,
A religião sem memória
De quem foi Cristo em verdade,
Os chefes nossa amizade,
Os estudantes sem textos,
Jornalismo no cabresto,
Tolos cantando vitória,
Isso é glória?
Divórcio pra todo o lado,
As guampas fazem furor,
Grã-finos do despudor,
No gasogênio empestado,
Das moças do operariado
São os gozosos mistérios,
Isso de ter filho, néris,
E se ama seja o que for,
Isso é amor?
Mas o pior desta nação
E ter fábrica de gás
Que donos-da-vida faz
Ianques e ingleses de ação,
Tudo vem de convulsão
Enquanto se insulta o Eixo,
Lights, Tramas, Corporation,
E a gente de trás pra trás,
Isso é paz?
Pois nada vale a verdade,
Ela mesma está vendida,
A honra é uma suicida,
Nuvem a felicidade,
E entre rosas a cidade,
Muito concha e relambória,
Sem paz, sem amor, sem glória,
Se diz terra progredida,
Eu pergunto:
Isso é vida?
ANDRADE, Mário de. “Eu nem sei se vale a pena”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 500-501.
Na rua Barão de Itapetininga
Na rua Barão de Itapetininga
O meu coração não sabe de si,
Não se vê moça que não seja linda,
Minha namorada não passeia aqui.
Na rua Barão de Itapetininga
Minha aspiração não aguenta mais,
A tarde caindo, a vida foi longa,
Mas a esperança já está no cais.
Na rua Barão de Itapetininga
Minha devoção quebra duma vez,
Porque a mulher que eu amo está longe,
É… a princesa do império chinês.
Na rua Barão de Itapetininga
Noite de São João qualquer mês terá,
Em mil labaredas de fogo e sangue
Bandeira ardente tremulará.
Na rua Barão de Itapetininga
Minha namorada vem passear.
ANDRADE, Mário de. “Na rua Barão de Itapetininga”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 505.
Moça linda bem tratada
Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.
Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.
Mulher gordaça, filó
De ouro por todos os poros,
Burra como uma porta:
Paciência…
Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta do pobre arromba:
Uma bomba.
ANDRADE, Mário de. “Moça linda bem tratada”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 523.
Dez quadrinhas
Alma que passas ao lado,
Peito tão triste como eu,
Não bate em ti, ansiado,
O amor que responde ao meu?...
Quando tu passas ligeira,
Sozinha e alegre a cantar,
Eu que choro a vida inteira,
Eu rio em vez de chorar.
O amor deixa n’alma louca
Uma lembrança amargosa;
Caju, que é fruta gostosa
Deixa um aperto na boca.
Eu peno todas as dores
Com este amor que Deus me deu;
Quem achou os seus amores
A si mesmo se perdeu.
Amor é barquinho esguio
Surcando as águas do mar,
– O mar não é como o rio
Que é fácil de atravessar.
Fossem todas as desgraças,
Dessas que acabam com prantos,
E oh vida que vais tão lenta,
Serias cheia de encantos.
Todos olhava em solteira,
Em noiva, só o escolhido;
Hoje, casada e caseira,
Não olha nem o marido.
Menina de fita e renda
Na janela a namorar,
Não é casa posta à venda,
É casa por alugar.
Tantas dores me dominam,
Tantas mágoas tenho tido,
Que até meus risos terminam
Numa espécie de gemido.
Por trás da cerca uma estrada,
Por trás da estrada um ipê,
Por trás do ipê outra cerca,
Por trás da cerca... você.
ANDRADE, Mário de. “Dez quadrinhas”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 102-103.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)
Revisão de Thais Regina Ribeiro Neves (PIBIC/UFPA)
