Augusto dos Anjos (1884-1914)
Insomnia
Noite. Da Mágoa o espírito noctâmbulo
Passou de certo por aqui chorando!
Assim, em mágoa, eu também vou passando
Somnambulo… somnambulo… somnambulo…
Que voz é esta que a gemer concentro
No meu ouvido e que do meu ouvido
Como um bemol e como um sostenido
Rola impetuosa por meu peito a dentro?!
— Por que é que este gemido me acompanha?!
Mas dos meus olhos no sombrio palco
Súbito surge como um catafalco
Uma cidade ao mapa-mundi estranha.
A dispersão dos sonhos vagos reuno.
Desta cidade pelas ruas erra
A procissão dos Martyres da Terra
Desde os Christãos até Giordano Bruno!
Vejo diante de mim Santa Francisca
Que com o cilício as tentações suplanta,
E invejo o sofrimento desta Santa,
Em cujo olhar o Vício não faísca!
Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse,
Depois de embebedado deste vinho,
Sahir da vida puro como o arminho
Que os cabelos dos velhos embranquece!
Porque cumpri o universal dictame?!
Pois se eu sabia onde morava o Vício,
Porque não evitei o precipício
Estrangulando minha carne infame?!
Até que dia o intoxicado aroma
Das paixões torpes sorverei contente?
E os dias correrão eternamente?!
E eu nunca sairei desta Sodoma?!
A proporção que a minha insomnia augmenta
Hieroglyphos e esphinges interrogo…
Mas, triunfalmente, nos Céus altos, logo
Toda a alvorada esplêndida se ostenta.
Vagueio pela Noite decaída…
No espaço a luz de Aldebaran e de Argus
Vai projetando sobre os campos largos
O derradeiro fósforo da Vida.
O Sol, equilibrando-se na esphera,
Restitui-me a pureza da hematose
E então uma interior metamorphose
Nas minhas arcas cerebrais se opera.
O odor da margarida e da begônia
Subitamente me penetra o olfato
Aqui, neste silêncio e neste matto,
Respira com vontade a alma camponia!
Grita a satisfação na alma dos bichos.
Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos.
As árvores, as flores, os corymbos
Recordam santos nos seus próprios nichos.
Com o olhar a verde periferia abarco.
Estou alegre. Agora, por exemplo,
Cercado destas árvores, contemplo
As maravilhas reais do meu Pau d’Arco.
Cedo virá, porém, o funerário,
Atro dragão da escura noite, hedionda,
Em que o Tédio, batendo na alma, estronda
Como um grande trovão extraordinário.
Outra vez serei pábulo do susto
E terei outra vez de, em mágoa imerso,
Sacrificar-me por amor do Verso
No meu eterno leito de Procusto!
ANJOS, Augusto dos. “Insomnia”. In: Eu (Poesias Completas). Paraíba do Norte - PB: SCP, 1920, p. 184.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)