Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Bruno de Menezes (1893-1963)


Marca d'água

A Eterna Cruz

 


Idealidade.
-- Um amor sem audácia.
Meu coração de poeta, incompreendido,..
Santa Rita de Cássia
em espiritualidade,
meu nome no olvido.

Certa mulher...
-- Uma Cruz, como todas
sóem ser
e em que, nós, Sonhadores, nos crucificamos.
Christo é sempre o Idealista -- a Alma e o Dever.
O Amor, un mal-me-quer
que se esfolha, umas bôdas;
depois, o santo Lenho em que expiramos.

O amor do Poeta, é assim:
renuncia e consente o mallogro de um Sonho
por salvar seu Ideal,
este bíblico amor em que me infronho E os
os phariseue, os centuriões, o synbedrin;
perdôa.

Sim, sou eu o "Homem"
Eu que em ti vejo a Cruz, o meu processo.
-- Que ninguém se condôa!
-- "Sete vezes" tropeço,
e caio, e me consomem.

Pilatos, lava as mãos.
Antes ser supliciado…

Minha Cruz, abre os braços, me recebe!
Três cravos -- uma última ferida,
mais a esponja que imbebe
o felicida
para o Epílogo ideal
de um Sonho espiritual.

Pilatos, lava as mãos

E és tu, certa mulher, o Madeiro adorado
onde um filho de Deus morre crucificado,


MENEZES, Bruno de. “A Eterna Cruz”. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 53.

 


Marca d'água

Avé, Maio

 


Maio foi sempre o mez dos luares lindos,
Virgem Mãe e alegres esponsaes.
Mez dos lyrios seraphicos - provindos
do valle da Alma, para as Cathedraes.

Pudesse eu ir, ao luar, entre rosaes,
banhar meus olhos, -- que são soes infindos.--
nas orações piedosas dos missaes,
ementarios de luz, ás mãos bem vindos.

Eu tenho qualquer cousa do anjo mystico...
No meu ser ha um dualismo e ancia christă:
Amor de mãe e Sonho de amante, -- artistico:

Por isso, em Maio, eu sinto-me de luz:
Minha Alma, -- Filha de Maria, -- é Irmă
do Coração Sagrado de Jesus.


MENEZES, Bruno de. “Avé, Maio”. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 48.

 


Marca d'água

Marujada

 


Fragatas, marujos pintados de entrudo,
gageiro subindo no mastro de proa,
piloto crioulo cantando na manobra
na cadência da onda, ao rumor da mareta.

É um brige lendário…A “Nau Catarineta”...
Um cruzador do Império…

“Seu imediato!
Pronto, seu comandante!
Mande suspendê ferro que são hora da partida!...”

E as fragatas em côro tatuadas gigante…
suspendem o ferro mesmo sustêm a força da amarra.

“Alerta marinhêro
vâmo o ferro levantá
as hora são chegada
do “Tupi” si arritirá”

E o rufo batuca na lufa-lufa e a vela estrebucha ao vento
[que bufa…

Navio pirata…Veleiro corsário em mar alto…
Barca onde só vem mestiço.

Regamboleios de fragatas no arrastão da marujada
meia-lua em ronda longa escorregando no convés.

Pintados de entrudo! Oficiais e a marinhagem!
Revolta tumulto a bordo… O imediato posto a ferros…

Os trovões os relâmpagos o vento,
o mar brabo e a invocação á Virgem Mãe dos Navegantes:

“Sinhora do Mar
Rainha das Ondas
livrai-nos da morte
nas ondas do mar…

É a cerração…Vida de bordo numa sala
que palpita de emoção e a maresia faz tremer.

A embarcação joga sem rumo…

Pintados de entrudo!

Rodelas de carmim…brancuras de alvaiade…
O comandante de espafin dragonas gorro e apito
…tinha a melhor fragata!

Mas na hora em que na adriça,
cessada a tempestade,
a bandeira subia garbosa no mastro.
eles pensavam que era certo e davam vivas ao Brasil!


MENEZES, Bruno de. “Marujada”. In: Batuque. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 229.

 


Marca d'água

Missão Bendicta

 


A missão da mulher sobre a terra é ser bôa.
prender os corações, catequizar as Almas.
Dentro da humana fé tudo olvida e perdoa
este Anjo tutelar, de asas no azul espalmas.

Por um filho, si é mãe, quantas noites incalmas!
Se a noiva aurora e fiel, como esposa abençoa!
A Caridade e o Bem não passam sem ter palmas
junto a um ser feminil que nunca amaldiçoa.

Para nos compensar das misérias do mundo
o Supremo Creador deu-nos Eva e Maria.
como Idealismo e Crença ao nosso mal profundo.

Sem a mulher, este Orbe inda era o caos – sem luz
Ella, que á Alma de Adão trouxe o Sonho e a Poesia
sete dores sofreu por Amor de Jesus!


MENEZES, Bruno de. “Missão Bendicta”. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 34.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)