Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cantos Populares do Brasil (1883)


Marca d'água

Cantigas de desafio


Capitão rabeca,
Espadim de páo;
Cala a bocca, negro,
Olha o bacalbáo.

Agora foi que eu cheguei,
Achei violas Locando ;
Vi dois peitos destinados,
Ahi fui me destinado

Aqui eu faço barreira,
Não é p'ra outro subir;
Apanhei-o encurralado,
Não tem p'r'a onde fugir.

Quando canto desafio,
Abro a voz, suspendo o brado;
Quero que o meu peito sinta
A lei e o rigor do fado.

D'estes cantadores novos,
Que cantam por desafio,
Dou-lhes conselho de mestre :
Que vão tratar de seus filhos.

Sou cobra elo boqueirão,
Onça, tigre de roncar,
Que mato sem fazer sangue,
Engulo sem mastigar.

Sou fórte, sou corajoso,
Sou duro, sou valentão;
Sou como a onça no inverno,
E o cascavel no verão.

Eu não temo a cantador
Ajnda que chova ao punhado,
Nem que venha d'o inferno,
Fedendo a chifre queimado.

Vejam no cantar das rolas,
No seu trina'r gemebunclo,
Vem o ecco d'estes montes
Entoar o seu segundo.

Sibiti, cabôclinho,
Canario, beija-fulô,
Jurity, rola- aza-branca,
Tico-tico,- serradô.

Quando pégo na viola,
Que ao lado tenho o pandeiro,
Só me lembro a Virgem Santa
E um só Deus verdadeiro.

Estando eu agoirado
Ná serra do Beleguim,
Não ha pessoa que suba,
E si subir não descamba,
Si descambar leva fim.

O fim do páo é no olho,
O fórro à'agua no chão;
Eu como sou cantador
Sou filho do Riacbão.

Manoel do Riachão
Tem fama de cantadô;
Quando ,eu cheguei n'esta terra
Bateu azas e voôu.


ROMERO, Sylvio (org.) “Cantigas de desafio”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 274.

 


Marca d'água

Décima grande da obra do firmamento


Quando o Senhor formou
A obra do firmamento,

Obra de tanto talento
E juizo;
Formou tambem um paraiso,
De arvores e flores composto,
Tudo de summo gosto
E perfeição.
E para guarda fez Adão,
E de sua cósta a mulher;
E Deus depois lh' arefere
Assim:
-Fica-te n'este jardim,
De delicias guarnecido,
E olha bem que és o marido
De Eva. -
Adão todo se enleva
Por se vêr acompanhado ;
Logo foi aconselhado ·
Pelo Senhor:
-Tudo fl ca a teu dispôr,
Tudo te ha-ele ter respeito,
Porém, guarda o preceito,
E escuta:
Comerás ele toda a fruta,
Sem que haja prejuizo;
Mas agora é bem preciso
Que te explique,
Para qJ!I e em tua memoria fique,
E gozes com previnencía :
Só da arvore da sciencia
Do bem e mal;
Olha que é culpa mortal
Se te tal acontecer …
Olha que has-de morrer
Na verdade. -
A serpente com maldade
Eva foi logo atentar,
E ella facil foi pegar
No pomo;
E do qual partiu um gomo
E ao seu marido offereceu;
E Adão da fructa comeu
Tambem.
Ambos jgual culpa teem,
Eva e seu consorte;
Ficaram sujeitos á morte
Chorando.
Apparece o Senhor bradando:
-Adão! onde estás metido? -
«Senhor, estou escondido
Com vergonha.
-Oh! que terrível, medonha,
Foi tua culpa commettida!
Acabou-se a boa vida
Que ti vestes.
«Senhor, a mulher que me déstes
Cá me veiu enganar ...
-Vem cá, oh Eva, explicar
De repente.
- «Senhor, a maldita serpente
De certo me enganou!>>-
E o Senhor por ella bradou
Devéras:
- Oh maldita entre as feras!
Eu te deito a maldição ...
Andarás tu pelo chão
De rastos,
Comendo hervas e pastos,
E a terra para alimento ;

Ella será teu sustento,
Malvada!
Tu, Adão, com tua enxada
A terra cultivarás;
E tu, Eva, parirás
Com dôr.
Nada fica ao teu favor,
.lá que a vontade fizeste;
Assim perdeste o celeste
Agasalho.
Tu, Adão, com teu trabalho
Ganharás para comer,
E Eva te ha-cle obedecer,
A rasão direita.
Aqui ficarás sujeita;
Tu, Adão, a dorminarás,
E te multiplicarás
Com ella. -
Perderam, pois, a cape lia
Qu e o Senhor lhe houve guardado,
Tudo causa elo peccado ·
Horrendo.
Alli ficaram vivendo
E o seu peccado chorando,
Ambos supplicando
Perdão.
Aqui abateram então.
Logo Eva concebeu,
Foi quando o Senhor lhe deu
Caim. Este foi um filho ruim,
Muito tyranno e cruel;
Ao depois lhe deu Abel,
Pastor.
Este foi um resplendor
De voto e de castidade;
Porém Caim com falsidade
O matou.
E o Senhor p'ra elle olhou,
Depois que elle fez o mal,
Pondo-lhe logo um signal
De preto.
Portanto, ficou sujeito
A eterna escuridão,
Negro como um tição
De lume.
Acabou-se-lhe o ciume
Que tinha com seu irmão;
E augmentou-se a geração
Dos peccadores.
E já isto, meus senhores,
Tem durado de tal sorte
Que só finda quando a Morte
Vem.
Ella não respeita a ninguem,
Leva a todos por parelha,
Nós temos bem o espelho
A vista.
Não ha pessoa que resista
Nem o mesmo padre santo,
Que ella leva a quanto
Tópa.
Todos que estão na Europa,
As mesmas pessoas reaes,
Os bispos e cardeaes
Vai levando.
E tambem de quando em quando
Reis, principes e monarchas;

Até mesmo os patriarchas
Levou.
Pois um Deus que nos creou
Quiz pela morte passar,
Corno havemos de escapar
Á espada?
Ella é certa e pouco esp'rada,
Da morte tudo se esquece;
Mas por fim tudo padece
Este lance.
Todos passamos o transe
Da morte com afflicções,
Que os mais santos corações
Padeceram.
Aquelles perfeitos morreram :
Em vizo de santidade,
Um Larné, um na verdade
Que é:
O pai do grande Noé,
Um Abrahão glorioso,
Seu filho prodigioso
Isaac;
Os habitantes de Israc,
Paes e irmãos de Luc1im,
Aquelle Labal Caim
Trabalhador ;
Um Nabucodonosor,
Mais aquelle santo Job,
Um admiravel Jacob
De Israel; ·
Adão, seu filho Ijabel,
O grande Melchisecleque,
E aquelle bom Ab-Meleque

E eu isto tudo direi,
Certifico e assim é :
Lá tambem morreu José
No Egypto.
Tudo isto está escripto;
E nada pode faltar :
Tambem morreu Putifar
Sacerdote.
Morreu aquelle justo Loth,
E tudo que era egyptano,
Morreu o rei soberano
Pharaó.
E não foram esses só :
Tambem morreu Batuel,
Agar, mais Ismael
Seu filho .
De nada eu me maravilho:
também morreu lzacar,
E o seu filho Soar
Tambem;
Filhos, irmãos de Rubem,
Os moradores ele Babel,
E os fundadores ele Batel
Passaram .
Nenhuns do transe escaparam
Da vil morte com destreza . . .
Ella vem com subtileza
E mata.
Segundo a Escriptura relata,
De certo que a ninguém perdôa :
Leva o sceptro e leva a corôa,
E tudo mais.
Não respeita cabedaes,
Tudo leva por igual ,

Tambem leva o general
E o brigadeiro.
E morre quem tem dinheiro,
P'r'a morte não ba penhor;
também morre o governador
Na praça .
Morre tudo quanto passa
Esta vida com rigores;
Morrem padres, confessores,
Que esLão
Lá em sua religião
Orando a Sam Miguel;
Tambem morre o coronel
Do regimento ;
Morrem alferes, sargento,
O soldado e o capiLão ;
Morrem aquelles que estão
Na enxovia
Morre toda a fidalguia;
Morre o pobre e o abonado,
E o ser muito endinheirado .
Não faz;
Morre o velho e o rapaz ;
Morre tudo sem remissão ;
Tambem morre o guardião
No convento.
Morrem no acampamento
Tambores e mais soldados;
Morre nos mares salgados
Marinheiro;
Tambem morre o escudeiro,
O medico e o surgião;
Tambem morre o escrivão
E o juiz.

Segundo a Escriptura diz,
Só dois foram escapados,
Elias e Enoc chamados
De certo.
Tem morrido no deserto
Aquelles santos levitas,
E o povo dos israelistas
Fallece.
A morte ninguem conhece:
Morreu o sabio Salomão
E o valoroso Samsão
Gigante;
Morre o leigo e o estudante,
Tambem morre o embaixador;
Morre aquelle lavrador
Que anda
De uma para outra banda
A lua vida girando,
De modo que vá ganhando
P'ra passar,
Sem a morte lhe lembrar,
E ella já batendo á porta,
Que de repente lhe bota
A mão.
Muitos leva sem confissão,
Pois isto me faz tremer,
Vendo podermos morrer
Sem sacramento,
Nem signaes de arrependimento,
Sendo a morte de repente ...
Pois valei-me o omnipotente
Deus.
Tudo são peccados meus
De que eu tenho de dar conta

A Deus, e sempre com prompta
Vontade.
Pois Deus é de piedade;
Aquelle doce Jesus,
Está c'os braços na cruz
Pregados!
Tudo por nossos peccados
Padeceu morte e paixão!
E nós com ingratidão
O tratamos!
Assim é que lhe pagamos
Todo o bem que elle nos faz ;
Mas, lá no Val de Josaphaz
Veremos
As contas que cada um demos,
Lá no dia universal,
Quando o Senhor der a final
Sentença.
Os bons com gloria immensa,
E os máos sentenciados,
Para serem abrazados
No inferno!
Eu peço ao Padre Eterno…
Valha-me todo o christão
N'esse dia de afllicção
E amarguras.
Abriram-se as sepulturas
C'os corpos resuscitados,
Sendo de novo formados
Como d'antes!
E as boas obras brilhantes
Na presença do Salvador;
E os máos serão com rigor
Tratados.

Ali darão, Senhor, brados,
Bradando só por Elias,
Segundo as prophecias
Rezam.
Ali veremos como prezam
Boas obras que fizemos,
E os peccados que commettemos
N'esta vida.
Mas oh! que terrível lida!
Oh! que cegueira fatal !
Sendo este mundo um val
De enganos? !
Vive um homem tantos annos
N'esta vida engolfado,
Muitas vezes só obrigado
Se confessa.
Não se lhe dá que se esqueça
D'aquella santa doutrina,
Que a egreja sempre ensina
Aos fieis.
São os homens tão crueis .. .
Só se enlevam em modiças .. .
Só ouvem algumas missas
Por comprazer.
Ás vezes vão lá p'ra 'êr
Moças da sua affeição,
Se levam trajo ou não
A seu gosto.
Se levam lenço bem posto,
Boa meia e bom sapato,
Se tem capote e mais fato
Á moda.
E outros mettem-se na roda,
Que estão de quando em quando,

E vão sempre murmurando
Dos mais.
Vão os filhos com os paes
Beber vinho a uma adega,
Se o dinheiro lhes não chega
Pedem fiados.
'Stando os paes embebedados
Dizem, a cambalear,
Aos filhos:- Vamos jogar
Ao Vento .
Oh! que máo educamento !
Oh! que triste creação!
Eis porque os filhos são
Malcreados.
Mas se estes são casados,
Teem filhos p'ra governar,
Teem-lhes por certo a faltar
Co'o sustento.
Tudo serve de tormento
Ás mulheres, se são honradas,
Muitas vezes já cançadas
De bradar.
Apparece para o jantar,
Sabe Deus quando Deus quer,
Uma côdea p'r'a mulher,
Se lh'a dão.
Os maridos, sem discrição,
As levam aos encontrões,
Quando não lhes dão bofetões
Pela cara.
Amigo do jogo, repara,
Mette a mão n'este painel,
E recolhe-te ao quartel
Da saude.
E pede a Deus que te mude
Essa terrível cegueira,
Que é saude p'r'a algibeira
Do cobre.
Tudo que a mão descobre,
E esse vicio infernal,
Fazem perder o signal
Do céo.
Isto vae ele déu em déu,
E assim domingos passemos,
De modo que sempre busquemos
Divertimentos.
Vai-se tempo e sentimentos
Nos dias santificados,
Que Deus deixou destiuados
P'r'o descanço.
P'ra adorar o cordeiro manso
Na sua santa egreja;
Mas a ira de Deus peleja
Com razão
Contra a pouca devoção
Que tem á casa sagrada;
Tanto monta como nada
Rezar.
Não póde a Deus agradar
Esta pouca desciencia:
Devemos com reverencia
Adorai-o.
Devemos todos abraçai-o
E a seus santos mandamentos,
P'ra livrar-nos dos tormentos
Que passou.
P'lo sangue que derramou
Pela rua da amargura,
Tudo para a creatura
Remir.
Devemos todos pedir
Á virgem Nossa Senhora
Seja a nossa protectora
Em morrendo;
Em quanto formos vivendo
N'este mundo desgraçado,
Tenha sempre o seu cuidado
Em nós.
Pois ouvi, Senhor, a voz
D'este vosso filho ingrato,
Cuja ingratidão relato
Agora!
Valei-me n'aquella hora
Da morte que ha-de chegar,
Valei-me em quanto viver,
Valei-me depois de morrer,
E esta vida findar.


ROMERO, Sylvio (org.) “Decima grande da obra do firmamento”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 143-155.

 


Marca d'água

Juliana


— Deus vos salve, Juliana,
No teu estrado assentada.
«Deus vos salve, rei Dom Jóca,
No teu cavallo montado.
Rei Dom Jóca, me contaram
Que tu estavas p'ra casar?
Quem t'o disse, Juliana,
Fez bem em te desenganar.
« Rei Dom Jóca, se casaes
Tornai ao bem querer,
Poderás enviuvar
E tornar ao meu poder.
— Eu ainda que enviuve
E que torne enviuve
Acho mais facil morrer
Do que comtigo casar.
« Espera ahi, meu Dom Jóca,
Deixa subir meu sobrado,
Vou vêr um copo de vinho
Que p'ra ti tenho guardado.
— Juliana, eu te peço
Que não faças falsidade.
Vejaes que somos parentes,
Prima minha da minha alma.
Que me déste, Juliana,
N'este copinho de vinho,
Que estou com a rédea na mão,
Não conheço o meu caminho?
A minha mãi bem cuidava
Que tinha seu filho vivo.
« A minha tambem cuidava
Que tu casavas commigo.
— ó meu pai, senhora mãi,
Me bote sua benção,
Abrace bem apertado
O meu maninho João.
Meu pai, senhora mãi,
Me bote a sua benção;
Lembranças á Dona Maria,
Tambem á Dona Cellerencia.
A minha alma entrego a Deus,
O corpo á terra fria,
A fazenda e o dinheiro
Entregue a Dona Maria.
— « Cale a bocca, meu Dom Jóca,
Ponde o coração em Deus,
Que este copo de veneno
Quem te ha de vingar sou eu.
— Já acabou-se, já acabou-se,
ó flôr de Alexandria!
Com quem casará agora
Aquella moça Maria?
Já acabou-se, já acabou-se,
Já acabou-se, já deu fim.
Nossa Senhora da Guia
Queira se lembrar de mim;


ROMERO, Sylvio (org.). “Juliana”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 36-37.

 


Marca d'água

Maria. minha Maria


Maria, minha Maria,
Maria de Nazareth
No meio de tantas Marias
Eu não sei qual d'ellas é.
Maria, se tu souberas
Como está meu coração !
Está como uma noite escura
Da maior escuridão.

Tres estrellas tem no céo,
Todas tres co' uma feição;
Uma é minha, outra é vossa,
Outra de meu coração.

Tres estrellas tem no céo,
Todas tres em carreirinha ;
Uma é minha, outra é vossa,
Outra é de Mariquinha .

Tres estrellas tem no céo,
Todas tres a par da lua,
Meu amor está no meio
Formosa como nenbua.

Abaixai-vos, serra alta,
Quero vêr toda a cidade ;
Quero vêr o meu amor
Que estou morto de saudades.

Triste coisa é ser captivo
E servir a dois senhores ;
Pois um manda e outro manda,
Cada um com mais rigores .

Vejo mar, não vejo terra,
Ólho, não vejo ninguem;
Vejo-me perto da morte,
Longe de quem me quer bem.

Dentro de meu peito trago
Um lambique de retroz
Para distillar saudades
Quando me lembra de vós.

Si eu soubera o que sei hoje,
Ou alguem me avisára
Que amor tão caro custa,
Nunca eu me captivára.

Viola de cinco cordas
Cinco cordas mesmo tem ;
Cinco degredos merece
Quem se aparta de seu bem.


ROMERO, Sylvio (org.) “Maria, minha Maria”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 265.

 


Marca d'água

O A B C da moça queimada


A trinta do mez de outubro
Do anno de trinta e um,
Ardi em chammas de fogo
Sem haver remedio algum.

Ai! de mim, triste coitada,
Que truce tão cruel sina
De passar pela desgraça
N'este mundo tão menina!

Bem conheço de certeza
Que foi por Deus esta morte;
Assim quiz o criador,
Permitiu a minha sorte.

Quando no mundo nasci
Foi para morrer queimada;
De Deus a sina no mundo
Não póde ser revogada.

Deus como de piedade
Tenha de mim compaixão;
Foi tal a minha desgraça
Que morro sem confissão

Eu conheço de certeza
Que só por Deus poderia
Eu acabar d'esta sorte,
Morrer com tanta agonia.

Fazendo eu urnas papas
Para um menino comer,
Oh! que caso tão cruel
A mim veio acontecer!

Gritei por todos de casa
No estado em que me puz,
Pedindo que me acudissem
Pelas chagas de Jesus.

Hoje por me vêr assim
Desenganada da vida
Já desejo que a minha alma
De Deus seja recebida.

Já me dispuz a morrer,
Para mim a morte é nada;
Tendo a gloria, me não peza
De ter morrido queimada.

Lágrimas por mim não botem
Que remédio me não dão,
Antes me recommendem
Á Virgem da Conceição.

Morrendo estou satisfeita,
Ninguem de mim tenha dó;
Tendo eu a salvação
Lá no céo estou melhor.

Não tenho mais que pedir,
Que já mais fallar não posso;
Quem n'este A B C pegar
Reze-me um Padre-Nosso.

Oh bom Deus de piedade,
Jesus Christo Redentor
Tende compaixão de mim
Por vosso divino amor!

Pelos meus grandes peccados
No mundo fui desgraçada,
Mas pelo amor de Maria
Serei nos céos perdoada.

Que dores! que agonias
Por me vê r n'esta figura!
N'aquella matriz do Icó
Foi a minha sepultura.

Rolando na minha cama
Com ancias e agonias
Sem poder ter um allivio
No espaço de oito dias.

Soberano rei da gloria,
Filho da Virgem Maria,
No meu ultimo suspiro
Queiraes ser a minha guia.

Tenho a certeza, Senhor,
Que me não hei-de perder;
Vos peço que não deixeis
A minha alma padecer.

Vou dar fim ao A B C
Que não posso mais fallar;
Me ajudem a morrer
Que me quero retirar.

Xorando ficarão todos,
Eu me vou bem consolada
Na esperança que a minha alma
Na gloria terá entrada.

Zangada já estou do mundo,
Eu não quero mais viver,
No artigo em que me acho
Só com Deus me quero vêr.

O til é letra do fim;
Findo em pedir tambem
A Deus que me dê a gloria
Para todo o sempre. Amen.


ROMERO, Sylvio (org.) “O A B C da moça queimada”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 133-135.

 


Marca d'água

O cego


— Sou um pobre cego,
Que ando sozinho,
Pedindo uma esmola
Sem errar o caminho:

Aqui está um cego,
Pedindo uma esmola,
Devotos de Deus
E de Nossa Senhora.
« Minha mãi, acorde
Do seu bom dormir,
Que aqui está um cego
A cantar e a pedir.
— « Si elle canta e pede,
Dá-lhe pão e vinho,
Para o pobre cego
Seguir seu caminho.
— Não quero seu pão,
Nem também seu vinho;
Só quero que Anna
Me ensine o caminho.
- « Anna, larga a roca,
E tambem o linho;
Vae com o pobre cego,
Lh'ensina o caminho.
« Já larguei a roca
E também o linho;
Já me vou com o cego
Ensinar o caminho.

O caminho ahi vai
Mui bem direitinho,
Se fique ahi,
Vou fiar meu linho.
— Caminha, menina,
Mais um bocadinho;
Sou cego da vista,
Não vejo o caminho.

« Caminhe, senhor cego,
Que isto é bem tardar;
Quero ir-me embora,
Quero ir-me deitar.
— Aperta as passadas
Mais um bocadinho;
Sou cego da vista,
Não vejo o caminho.
« Adeus, minha casa,
Adeus, minha terra,
Adeus, minha mãi,
Que tão falsa me era.
— Adeus, minha patria,
Adeus, gente boa;
Adeus, minha mãi
Que me vou á tôa.
« Valha-me Deus
E Santa Maria,
Qu'eu nunca vi cego
De cavallaria.
— Si eu me fiz cego
Foi porque queria;
Sou filho de conde,
Tenho bizarria.

Cala-te, menina,
Deixa de chorar;
Tu ainda não sabes
O que vaes gozar.

— « Deus lhe dê bom dia,
Senhora visinha,
Esta meia noite
Me fugiu Anninha.

« — Deus lhe dê o mesmo,
Senhora visinha
De cara mui feia,
Tres filhas que tenho
Vou pô-las na peia.


ROMERO, Sylvio (org.) “O cego”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 32-34.

 


Marca d'água

Os marujos


Todos : Entremos por esta nobre casa
Alegres louvores cantando,
Louvores á Virgem Pura,
Graças a Deus Soberano.
O Contra-mestre : Olhem como vem brilhando
Esta nobre infantaria!
Saltemos do mar p'ra terra,
Ai, ai! . . . festejar este dia.
Piloto : Seu Contra-mestre,
Nosso leme está quebrado;
E a prôa d'esta náo
Já está toda arrebentada.

Contra-mestre : Senhor Piloto,
Aqui venho me queixar
Que o seu gageiro grande
Botou-me a agulha no mar.

Piloto: Sem mais demora,
Meu gageiro preso já,
Para elle me dar conta
Da agulha de marear.
Gageiro: Senhor Piloto,
Se promette me soltar,
Já eu lhe darei conta
Da agulha de marear.
Piloto: Sem mais demora
Meu gageiro solto já,
Qu'elle já me deu conta
Da agulha de marear.
Gageiro : Graças aos céos
De todo meu coração,
Qu'estou livre dos ferros,
Bailando n'este cordão.
Contra-mestre: Senhor Piloto,
Para onde está mandando?
Já pelo eu respeito
Estamos todos chorando ...
Piloto : Seu Contra-mestre,
Não me venha indignar;
Veja bem qu'estou olhando
P'ra agulha de marear.
Contra-mestre: Senhor Piloto,
Onde está o seu sentido.
Que pelo seu respeito '
Estamos todos perdidos?
Piloto: Esta resinga
Não se ha-de se acabar
Sem no fio d'esta espada
Nos havermos de embraçar.

Todos : « Triste vida é do marujo;
Qual d'ellas é mais cançada? …
Que pela triste soldada
Passa tormentos,
Passa trabalhos ...
Dom dom ...
« Antes me quizera vêr
Na porta de um botequim,
Do que agora vêr o fim
Da minha vida,
Da minha vida ...
Dom dom …>>
Contra-mestre: Virar, virar, camaradas,
Virar com grande alegria,
Para vêr se alcançamos
A cidade da Bahia.
Capitão: Sobe, sobe, meu gageiro,
Meu gageirinho real;
Olha p'ra estrella do norte,

Oh! tolina,
Para poder-nos guiar.
Gageiro: -Alvistas, meu capitão,
Alvistas, meu general,
Avistei terras em França
Oh! tolina,
Areias em Portugal ...
Tambem avistei tres moças
Debaixo ele um parreira!;
Duas cosendo setim,
Oh! tolina,
Outra calçando o didal.
Fazem vint'anoos e um dia
Que anelamos n'ondas do mar,
BoLando solas de molho,
Oh! tolina,
Para de noite jantar.
Capitão: Desce, desce, meu gageiro,
Meu gageirinho real;
Olha p'ra estrela do norte,
Oh! tolina,
Para nos poder guiar.

Todos : Ora, adeus, ora, adeus,
Que me vou a embarcar;
Si a fortuna permitir
Algum dia hei-de voltar.
Ora adeus, bellas meninas,
Que ele Lisboa cheguei;
Ai! pensavam que eu não vinha
Para nunca mais as vêr! . . .
Todos filhos da fortuna
Que quizerem se embarcar,
A catraia está no porto,
A maré está baixa-mar.
Quando Deus formou o navio
Com seu traquete de lona,
Tambem formou o marujo
Lá no páo da bijarrona.
Quando Deus formou o navio
Com seu letreiro na pôpa,
Tambem formou o marujo
Com seu charuto na bocca
Quando me fôr d'esta terra
Tres causas quero pedir

Uma é um mal de amores
P'ra quando tornar a vir.

No jardim elas ricas flores
Vi uma rôla cantando;
A rolinha abria o bico
O perfume arrespirando ...


ROMERO, Sylvio (org.) “Os marujos”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p.157-160.

 


Marca d'água

Os mouros


Mar e Guerra: Atraca, atraca, atraca,
Atraca com chibança;
Olhem que os inimigos
Andam comnosco em lembrança.
Patrão: Álerta ! que gente é esta?
N'esta bulha não posso dormir! ...
Estava lá no meu quarto,
Lá me foram consummir.
Todos: Olhem que grande peleja
Temos nós que pelejar,
Si for o Rei da Turquia,
Si não quizer se entregar!
Trabalharemos com gosto
P'ra nossa espada amolar;
Si for o rei da Turquia
Si não quizer se entregar.

Mar e Guerra: Entreguem-se, mouros,
A santa religião,
Que dentro d'esta náo,
Temos ferros no porão.

Rei mouro : Eu não me entrego, nem pretendo
No meio de tanta gente ;
Somos filhos da Turquia,
Temos fama de valentes.
Mare Guerra: Entreguem-se, mouros,
Não se ponham a brigar,
Que no fio d'esta espada
Todos hão-de se acabar.
Rei mouro: Eu não me entrego, nem pretendo
No meio de tanta gente ;
Somos filhos da Turquia,
Temos fama de valentes.

Mouros: Olhem, olhem que desgraça
Nos havia de chegar!
Que nós sendo tão valentes,
Sempre nos ter de entregar !

Segue-se o baptismo dos mouros.
Capitão : Eu vos baptiso, mouros,
Na santa religião,
Fazendo de võs brutos,
Fazendo de vós christãos.

Piloto: Olhem que estocada
Me deu o mestre patrão!
Com esta sua bengala
Traspassou meu coração !

- Mandem chamar o capellão
Que me venha confessar ;
Que a ferida é mortal,
D'esta não hei-de escapar.
Capellão : O que tendes, meu rico filho,
Filho do meu coração?
Dai-me um par de pistolas
Qu'eu a vida irei vingar-te …
Todos: Senhor padre capelão,
Outro modo de viver;
Não se fie nas orações,
Que tambem ha-de morrer.
Capellão : Eu não me fio n'elas,
Nem d'ellas eu faço conta;
Dai-me um par ele pistolas
Que a vida te irei vingar.

Retira-se o capellão.

Piloto: Mandem chamar o surjão
Que venha me curar,
Que a ferida é mortal,
D'esta não hei de escapar.
Cirurgião: Desgraça minha
Hoje aqui n'este Jogar;
Se a vida eu não te der
Nos ferros quero acabar.
Mas eu não faço cura
Sem o meu chefe não vêr;
Qu'esta tua ferida
Corpo-delícto ha-de ter.
Cirurgião : Vem cá, Laurindo,
Vai depressa na botica,
Vai com todo o cuidado,
Traz de lá a medicina.
Laurindo : Aqui tem, meu rico amo,
E tambem bello senhor,
Aqui tem a medicina,
Sahiu toda a seu favor.
Cirurgião: Uuguento novo
Boto na Lua ferida,
Balsamo cheiroso
É com que darei-te a vida.

Piloto: Graças aos céos
De todo meu coração,
Que já estou livre da morte
Bailando n'este cordão.

Patrão: P'la pureza de Maria,
Pelos santos elo altar,
Que hoje é dia ele festejo,
Não costumam castigar.

Patrão : Graças aos céos
De todo meu coração,
Que já estou livre dos ferros,
Bailando n'este cordão.

Marujos: Cheguem, senhores mercantes,
O seu preço venham dar;
Que a fazenda é mui fina,
Para os senhores trajar.
Mercantes: Dou-lhe vinte e um cruzados
Pela fazenda real;
Si não me quizer vender,
Vou dar parte ao general:
« Saberá vossa excellencia,
E lambem meu general,
Que os seus dous guardas marinhas
Fazem negocio p'ra mal. »


ROMERO, Sylvio (org.) “Os mouros”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p.157-160.

 


Marca d'água

Quero bem à mulatinha


Quero bem á mulatinha
Por ser muito de meu gosto;
Si os parentes se anojarem,
Um valente topa outro.
Pelo feixe da espingarda,
Pelo cano que ella tem,
Pelo fio de minha espada
Que não engeito a ninguem.
Si puxar por minha espada
Na beirinha ela lagôa,
Si acaso fico perdido,
Seja por cousinha boa.
Rompo chuvas e trovões,
Coriscos, e criminoso
Ando no mundo, queixoso
Sem de mim se fallar nada!…
Hei-de amar a mulatinha
Pelo feixe da espingarda.
Viva Sant' Anna e Maria,
E Sam Joaquim n'este dia;
Deus quando subiu p'ra guia
Deixou por valimento
O testemunho da gente.
Para amparo dos cbristãos
Viva Sant' Anna e Maria.


ROMERO, Sylvio (org.) “Quero bem à mulatinha”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 69.

 


Marca d'água

Versos das tayêras e congos


Virgem do Rosario,
Oh! Senhora do mundo,
Dá-me um côco d'agua,
Si não vou ao fundo.
<<Indêré, rê; rê, rê,
Ai Jesus de Nazareth …
Virgem do Rosario ,
Oh! Senhora do norte,
Dá-me um côco d'agua
Si não vou ao pote.
Indêré, rê, rê, rê,
Ai Jesus de Nazareth! …
Virgem do Rosario,
Soberana Maria,
Hoje este dia
É de nossa alegria.
Meu Sam Benedicto,
É santo de preto ;
Elle bebe garapa,
Elle ronca no peito.
Meu Sam Benedicto
Não tem mais corôa ;
Tem uma toalha
Vinda de Lisboa.
Meu Sam Benedicto,
Venho lhe pedir
-Pelo amor ele Deus
Para tocar cucumbi
Meu Sam Benedicto,
foi do mar que vieste;
Domingo chegaste,
Que milagre fizeste!
Fogo ele terra,
Fogo do mar;
Que a nossa Rainha
Nos ha-de ajudar.
Arriba, arriba,
Tabaqueiro,
Que a nossa Rainha
Tem muito dinheiro …


ROMERO, Sylvio (org.) “versos das tayêras e congos”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p.168-170.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)